WILSON GUANAIS
Poemas selecionados dos livros O Aço, o Ninho e Outras Fragilidades, Ed. Penalux, 2022 e Ando Feito Estátua, ed. UICLAP, 2025, Capas: Valdir Rocha
DÉCIMA OITAVA EDIÇÃOPOEMA
7/12/20262 min read


Sobre nada
breve
é o
silêncio
entre
um
poema
e outro
silêncio.
..........................
Poética
tem que ser
de improviso
sem nenhuma
razão
de existir
pedra lascada
do instante
inútil absurdo
abstrato
se mastigo
demais
o poema acaba
engolido.
................
Alimento
hoje quero bocas
todas as bocas
unhas e dentes ...
(depois escrevo asas
e voo ... )
: decore minha alma
devore meu corpo
que hoje
só hoje
(e sempre)
o poema é minha alma
eu
sou a carne do poema.
.....................
Projeto
um dia
eu quebro
o inquebrável
: a casca
do indizível
..................
Esse monstro
o poeta
tem família
e urge
ganhar o pão
o poeta
tem família
e bichos
de estimação
cada qual
com sua fome
saciada
noite e dia
O poeta
tem a poesia
: mil bocas
pra alimentar.
.................
Inesgotável
escrever
é um
caminho
onde
a Poesia
passa
só tateio
a folha
aperto
o passo
sem
alcançar
desenho
com
palavras
o rasto
que Ela
não deixa.
.....................
Poema
antes
que
me alcance
a noite
parei
pra colher
uma
Sombra
à beira
do caminho.
.....................
Sala
precisamos
viajar
pra gente
se conhecer
ainda
existe
um mundo
lá fora
aqui dentro
a TV
não fala
de mim e vc.
............
Simples assim
quando
Você me olha
eu sinto
que Você
me enxerga
quando
Você me abraça
eu sinto
que Você
me Abraça
quando
Você me beija
eu sinto
que Você
me Beija
quando
Você me deixa
eu sinto
que Você
permanece.
.......................
Crochê
a linha
nunca
acaba
: vovó
aranha
continua
aqui
tecendo
nossa
presença.
..........................
Escavação
é privilégio da espécie
saber as estrelas
todas distantes
no tempo e no espaço
são pontos inacessíveis
e aquelas
que já não existem
continuam acesas em nós
de um jeito
que os olhos
ainda conseguem lembrar.
.....................
Empatia
necessário
recontar
os nossos
sobreviventes
queridos ou não
enfim
dedicar
mais atenção
aos vivos todos
todas
: estão
(assustados)
com medo
de tudo de todos
é urgente
desenterrá-los
do abandono.
......................
Entre aspas
quem
sobreviver
verá
quem
sobreviver
terá
que
reinventar
agora
: o amanhã.
............................
Duplo
Água pra todo lado
preciso tomar um banho
estou de calça comprida
e camisa manga longa
abotoada até o pescoço
sozinho em lugar público
não posso ficar pelado
de muito longe alguém
aqui dentro de mim me olha
com os meus olhos
e me toca
com as minhas mãos.
...........................
Poeta
Escrevia
pra não gritar
e acordar
a família
converso
com a
minha mão
por telepatia
capricho
nas letras
que ninguém
entendia
o poema
era uma carta
que eu mesmo
recebia.
...................
Desde criança
Desde
criança
atravesso
a mesma
ponte
desde lá
somos
só eu
a ponte
a travessia
e os
dois lados
: que
ainda
não sei.


Wilson Guanais, Bastos-SP, 1972, mais de 20 livros publicados e participação em 180 Antologias. Entre outros, os mais recentes: Em Noites de Sol – Penalux , De Sonho e de Lama – Penalux, A Casca da Casca (ou o Lado de dentro) – Penalux, Em Branco Silêncio – Penalux, O Aço, o Ninho e Outras Fragilidades – Penalux, Multi Míni Versos – Paranauê, Cantando para surdos – CBJE.