Verônica Stigger
Conto do livro Sombrio, Ermo, Turvo, ed. Todavia, 2019
CONTOSPROSA LITERÁRIADÉCIMA QUINTA EDIÇÃO
4/26/20263 min read
O Bar
Era a primeira vez que o casal visitava aquela antiga cidade do outro lado do Atlântico. Os dois sempre quiseram passar as férias lá, mas nunca, até então, a oportunidade havia se apresentado. Não deixa de ser uma Azenha com ruínas, disse-lhes com certo desdém uma amiga quando soube da viagem programada para junho, mês em que o casal comemorava o aniversário de casamento. A cidade surpreendeu a dupla: não correspondia à imagem que fizeram dela. Caminhando a esmo por suas ruas, os dois a sentiam tão antiga e tão distante (nem o alfabeto era comum) mas, ao mesmo tempo, tão estranhamente próxima e familiar. Se havia ali algo de Azenha, era de uma Azenha de outra época, que não chegaram a conhecer, pensou ele. No dia em que deveriam retornar, entraram ao acaso num bar de esquina num bairro que ainda não haviam percorrido. Fazia um calor danado, e eles escolheram uma mesa ao fundo perto do ar-condicionado. Ela pediu uma laranjada gasosa e ele uma limonada, também gasosa, além de alguns petiscos, que comeram distraídos e em silêncio. Ele examinava as toalhinhas de mesa de chita, indagando-se se já as vira fora de seu país, quando ela se virou para ele e disse: eu vou ficar. Ele a olhou, franziu a testa e, antes que considerasse contestar, ela repetiu com mais ênfase: eu vou ficar. Ele chegou a abrir a boca, ensaiando uma resposta, mas ela o interrompeu, acrescentando: meu destino é ser dona deste bar. Ele arregalou os olhos e tentou mais uma vez falar, mas esqueceu subitamente o que ia dizer ao perceber, na parede detrás da mesa em que eles estavam, um conjunto de seis fotografias, em que ela aparecia em vários tempos diferentes, emolduradas em madeira lascada, como as que eles tinham em casa, no mesmo tamanho em que ampliavam suas fotos juntos: treze centímetros por dezoito. Nas imagens, ela estava sempre sozinha nos mais diferentes lugares do mundo, desde a sua cidade natal até aquela capital que eles visitavam pela primeira vez. Notou, ainda atônito, que tocava, naquele exato momento, no som do bar, a música que ela costumava escutar em looping quando se trancava em seu escritório para trabalhar em algum projeto novo. Ele se virou e viu, na parede do balcão principal, uma imensa pintura a óleo, de uns dois metros por dois, representando ela e uma amiga de infância sentadas nos banquinhos altos do balcão de um bar, muito parecido com aquele em que estavam, conversando alegremente de costas para o espectador, mas com os rostos de perfil. Ao voltar-se para a frente, notou que estava sozinho à mesa. Levantou-se então e, sem ter muita certeza do que fazer, se dirigiu até a porta, por onde entrava agora a amiga de infância dela, que eles não viam havia mais de vinte anos, mais velha, mas com o mesmo porte elegante e a mesma maneira de se vestir de quando era jovem. Ela o cumprimentou com um aceno de cabeça e um sorriso tímido antes de andar até o balcão para beijar e abraçar sua mulher como se a tivesse visto no dia anterior. Ele chegou a dar alguns passos em direção às duas mulheres, mas desistiu: elas pareciam não se dar conta de sua presença; ou pior, pareciam não mais saber quem ele era. Ele baixou a cabeça, resignado em ter de partir sem se despedir, e saiu. Já do outro lado da rua, olhou para trás e não estranhou quando viu que o nome do bar estava escrito em português num letreiro antigo forjado a ferro: Cabaré do Galo.
...................
Veronica Stigger nasceu em Porto Alegre em 1973, e vive em São Paulo desde 2001. Doutora em teoria e crítica da arte pela Universidade de São Paulo (USP), é autora de mais de uma dezena de livros, como Gran Cabaret Demenzial, Os anões, Delírio de Damasco, Dora e o Sol, Opisanie świata e Sul. Por suas obras, recebeu os prêmios São Paulo de Literatura, Machado de Assis, Jabuti, Açorianos, entre outros.

