Sophia de Mello Breyner Andresen

Seleção de Poemas da Coletânea Coral e outros Poemas

5/25/2026

Poema

A minha vida é o mar o Abril a rua

O meu interior é uma atenção voltada para fora

O meu viver escuta

A frase que de coisa em coisa silabada

Grava no espaço e no tempo a sua escrita

Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro

Sabendo que o real o mostrará

Não tenho explicações

Olho e confronto

E por método é nu meu pensamento

A terra o sol o vento o mar

São minha biografia e são meu rosto

Por isso não me peçam cartão de

identidade

Pois nenhum outro senão o mundo tenho

Não me peçam opiniões nem entrevistas

Não me perguntem datas nem moradas

De tudo quanto vejo me acrescento

E a hora da minha morte aflora

lentamente

Cada dia preparada

Andresen, Sophia de Mello Breyner. Coral e outros poemas (Portuguese Edition) (p. 196). (Function). Kindle

Edition.

.............................

Procelária

É vista quando há vento e grande

vaga

Ela faz o ninho no rolar da fúria

E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta à tempestade

Quando os leões do mar rugem nas

grutas

Sobre os abismos passa e vai em

frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais

Mas faz da insegurança sua força

E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa

Para quem vive e canta no mau tempo

Andresen, Sophia de Mello Breyner. Coral e outros poemas (Portuguese Edition) (p. 172). (Function). Kindle Edition.

........

Um dia

Um dia, mortos, gastos, voltaremos

A viver livres como os animais

E mesmo tão cansados floriremos

Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços

Dos gestos agitados, irreais,

E há-de voltar aos nossos membros lassos

A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar

Através do mistério que se embala

No verde dos pinhais, na voz do mar,

E em nós germinará a sua fala.

Andresen, Sophia de Mello Breyner. Coral e outros poemas (Portuguese Edition) (p. 56). (Function). Kindle Edition.

....................

Poema de Helena Lanari

Gosto de ouvir o português do Brasil

Onde as palavras recuperam

sua substância total

Concretas como frutos nítidas como

pássaros

Gosto de ouvir a palavra com suas

sílabas todas

Sem perder sequer um quinto

de vogal

Quando Helena Lanari dizia o

“coqueiro”

O coqueiro ficava muito mais vegetal

Andresen, Sophia de Mello Breyner. Coral e outros poemas (Portuguese Edition) (p. 194). (Function). Kindle Edition.

.............

Fernando Pessoa

Teu canto justo que desdenha as sombras

Limpo de vida viúvo de pessoa

Teu corajoso ousar não ser ninguém

Tua navegação com bússola e sem astros

No mar indefinido

Teu exacto conhecimento impossessivo

Criaram teu poema arquitectura

E és semelhante a um deus de quatro rostos

E és semelhante a um deus de muitos nomes

Cariátide de ausência isento de destinos

Invocando a presença já perdida

E dizendo sobre a fuga dos caminhos

Que foste como as ervas não colhidas

Andresen, Sophia de Mello Breyner. Coral e outros poemas (Portuguese Edition) (p. 158). (Function). Kindle Edition.

..............

Liberdade

O poema é

A liberdade

Um poema não se programa

Porém a disciplina

— Sílaba por sílaba —

O acompanha

Sílaba por sílaba

O poema emerge

— Como se os deuses o dessem

O fazemos

Andresen, Sophia de Mello Breyner. Coral e outros poemas (Portuguese Edition) (p. 235). (Function). Kindle

Edition.

.....................

Deus escreve direito

Deus escreve direito por linhas tortas

E a vida não vive em linha recta

Em cada célula do homem estão inscritas

A cor dos olhos e a argúcia do olhar

O desenho dos ossos e o contorno da boca

Por isso te olhas ao espelho:

E no espelho te buscas para te reconhecer

Porém em cada célula desde o início

Foi inscrito o signo veemente da tua liberdade

Pois foste criado e tens de ser real

Por isso não percas nunca teu fervor mais austero

Tua exigência de ti e por entre

Espelhos deformantes e desastres e desvios

Nem um momento só podes perder

A linha musical do encantamento

Que é teu sol tua luz teu alimento

Andresen, Sophia de Mello Breyner. Coral e outros poemas (Portuguese Edition) (p. 299). (Function). Kindle Edition.

...................

Dia

Meu rosto se mistura com o dia

Nuvens telhados ramagens e Dezembro

Apaixonada estou dentro do tempo

Que me abriga com canto e com imagens

Tão abrigada estou dentro da hora

Que nem lamento já a tarde antiga

Tudo se torna presente e se demora

Será que o dia me pede que eu o diga?

Andresen, Sophia de Mello Breyner. Coral e outros poemas (Portuguese Edition) (p. 161). (Function). Kindle Edition.

..............

O anjo

O Anjo que em meu redor passa e me espia

E cruel me combate, nesse dia

Veio sentar-se ao lado do meu leito

E embalou-me, cantando, no seu peito.

Ele que indiferente olha e me escuta

Sofrer, ou que feroz comigo luta,

Ele que me entregara à solidão,

Poisava a sua mão na minha mão.

E foi como se tudo se extinguisse,

Como se o mundo inteiro se calasse,

E o meu ser liberto enfim florisse,

E um perfeito silêncio me embalasse.

Andresen, Sophia de Mello Breyner. Coral e outros poemas (Portuguese Edition) (p. 53). (Function). Kindle Edition.

A estrela

Eu caminhei na noite

Entre silêncio e frio

Só uma estrela secreta me guiava

Grandes perigos na noite me apareceram

Da minha estrela julguei que eu a julgara

Verdadeira sendo ela só reflexo

De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa

Sinal de perfeição em minha fronte

Mas vi quando no vento me humilhava

Que a coroa que eu levava era de um ferro

Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei

“Minha pureza me cerca e me rodeia”

Porém meu pensamento apodreceu

E a pureza das coisas cintilava

E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito

Em monstruosa voz se transformaram

Disse às pedras do monte que falassem

Mas elas como pedras se calaram

Sozinha me vi delirante e perdida

E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra

De desmedidos gestos me cercava

Silêncio e medo

Nos confins desolados caminhavam

Então eu vi chegar ao meu encontro

Aqueles que uma estrela iluminava

E assim eles disseram: “Vem conosco

Se também vens seguindo aquela estrela”

Então soube que a estrela que eu seguia

Era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram

Grandes brumas miragens nos mostraram

Grandes silêncios de ecos vagabundos

Em direcções distantes nos chamaram

E a sombra dos três homens sobre a terra

Ao lado dos meus passos caminhava

E eu espantada vi que aquela estrela

Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima

De uma rua sem cor e sem beleza

Onde a luz tinha a cor que tem a cinza

Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava

Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão

Entre o agiota e o templo profanado

Onde a rua é mais triste e mais sozinha

E onde tudo parece abandonado

Um lugar pela estrela foi marcado

Nesse lugar pensei: “Quanto deserto

Atravessei para encontrar aquilo

Que morava entre os homens e tão perto”

Andresen, Sophia de Mello Breyner. Coral e outros poemas (Portuguese Edition) (pp. 152-154). (Function). Kindle Edition.

..........

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas contemporâneas. Foi a primeira mulher a receber o Prêmio Camões, o maior prêmio literário da língua portuguesa.

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu na cidade do Porto, Portugal, no dia 6 de novembro de 1919. De família aristocrática era filha de João Herique Andresen e Maria Amélia de Mello Breyner e neta do proprietário da Quinta do Campo Alegre, hoje Jardim Botânico do Porto. Sua mãe era neta do Conde Henrique de Burnay e filha do Conde de Mafra. Estudou Filosofia Clássica na Universidade de Lisboa, entre 1936 e 1939, sem concluir o curso. Participou de movimentos universitários.

Em 1940 publicou seus primeiros versos nos “Cadernos de Poesia”. A partir de 1944, Sophia se dedicou à literatura, nesse mesmo ano escreveu diversas poesia, entre elas: “O Jardim e a Casa”, “Casa Branca”, “O Jardim Perdido” e “Jardim e a Noite”, obras que recordam sua infância e juventude.

Em 1946 casou-se com o jornalista, advogado e político Francisco Souza Tavares e mudou-se par Lisboa. O casal teve cinco filhos, que a motivaram a escrever contos infantis, entre eles: “A Menina do Mar” (1961) e “A Fada Oriana” (1964). Nesse mesmo ano recebeu o Prêmio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores pela obra “Livro Sexto” (1962).

Sophia de Mello Breyner participou ativamente da oposição ao Estado Novo. Foi candidata pela oposição Democrática nas eleições legislativas de 1968. Foi sócia fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos. Após a Revolução de abril de 1974 foi candidata à Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista em 1975. Fonte https://www.ebiografia.com/sophia_de_mello_breyner_andresen/