Sobrevivente

Conto de Isabel Scoqui

DÉCIMA SEXTA EDIÇÃOCONTOSPROSA LLITERÁRIA

5/25/20264 min read

SOBREVIVENTE

Vou lhe contar no miúdo. Nos tempos de jagunçagem, rodei por esses goiases adentro. Não existe vereda que não tenha visitado. Vosmecê sabe, jagunço tem vida curta. Ele e seu cavalo. O cabra come, bebe, guerreia e até dorme (se preciso) no lombo da animália. Nóis e o cavalo é um.

Naquele dia, vinha eu numa campanha, em minoria acuada. Cerrado tiroteio. Debandamos no meio de um granizo de bala. O zunido fazia cócegas nas oreias. Fuga na mata embrenhada. De repente, o cavalo arriou. Alvejado mortal, tombou agonizando, tremelicando. E eu com as pernas presas debaixo do bicho. Os inimigos nos buscando como formiga em dia de correição, destrinchando o terreno palmo a palmo.

Tive que passar por morto. O cabra me olhando de pertinho, senti o bafo dele em minhas fuças, mas não arredei, fingido. Não sei se foi sorte ou desígnio dos santos restar vivo. Costume é dar tiro na cara, tradição de desaforo maior, desdita. E assegura defunto bem despachado. Mas ele não fez.

Restei vivo, mas não sem estigma. Espinhela caída, uma perna claudicante. Então me estabeleci. Comerciante. Troca e venda de mercadoria. O sertão carecia muito, o que não se podia furtar também não se podia comprar. Era um dá lá, toma cá, na limitação. Não adiantava moeda de ouro se não tinha com que gastar. Providenciei variedade. Fartura. Não tinha medo dos jagunços, conhecia bem o trato. Eu era figura respeitada. Também fui adoçando com gente de fora, produtor.

Veja, ainda cavalgo um pouco e faço alvo nas árvores. Já não me satisfaz a natureza, mas é o hábito. Desgostei das violências, deixei de pespegar, meu toque ficou manso, depois que conheci as artes do Cardéque.

Como é que fiquei espírita? Devagar, já devia estar escrito no livro do outro mundo. Dizem que Deus escreve direito em linha torta, pois! Conto. Um sujeito mal-almado, tal de Jorjão da Furna, veio ter no meu negócio. Magro, chupado, famélico, sem um tostão. Gente de má qualidade, estripador. Mas com muita necessidade e fome. Propôs um negócio de troca, um livro muito raro por farinha, arroz e carne charqueada.

O meu padrinho Jão Tibúrcio me ensinou as primeiras leituras, mas aqui quase ninguém conhece o becedário. Olhei o livro, capa de couro, letras douradas: O Livro dos Espíritos. Apreciei bonito. Você sabe ler? Interpelei o Jorjão. Sei não, sinhô, disse. Então como sabe que o livro é raro? Foi numa pilhagem, pois que o dono se agarrou a ele e só largou a coronhada. Tanto apego era sinal de muita valia...respondeu.

O que mais você tem a oferecer? Fingi falta de interesse. Tenho um outro livro no embornal. E me apresentou. Fechamos negócio. Naquela mesma noite, nascia um hábito novo para mim, o da leitura. E da leitura nascia um homem também novo. Até hoje essa dupla me acompanha: o livro de Cardéque e um pequeno dicionário.

Hum, hum... Como conheci a minha patroa? De princípio conhecia o fio, menino-moço. Serviço de vai-e-vem. Pensa num cabra com fogo nas ventas. O próprio. Encontrei depois de uma esfrega de batalha, metido num buraco de bicho, coberto de lama, de folha e sangue. Assim que me viu, serelepe, já veio apontando o rifle. Temi que me matasse para se apossar de minha montaria. Jagunço sem cavalo não tem vida no sertão. É valente a cinco patas, as quatro do cavalo mais uma do trabuco. Mas ele tinha um despacha filho de Deus na mão. Me apeguei com os bons Espíritos e apeei. Travei prosa.

Surpresa o riso de dentes brancos que ele deu para mim. Simpatia. Retruquei o riso, aliviado. Proseou. Estava desnorteado, perdido o rumo na fuga. Precisava do rio para se banhar. Logo ali fica o ribeirão, apontei. Depois, banhado, ele disse: me leva para lugar algum sabido. Concordei. Montou na minha garupa. Decerto que me via lerdo. Sentia o seu hálito impaciente no meu cangote.

Foi crescendo um sentimento paternal por aquele homem menino, bandido já, mal saído da criancice. Ói que me dá gastura em contar o bem que se faz. Mas para vosmecê eu conto: dei a ele indumentária, o meu melhor cavalo, sela, embornal e víveres. Ele também caiu de amores por mim, sabido do meu antigo ofício de jagunçagem, admirado. Fizemos um pacto de bem-querença.

Depois de tempo passado, era estação de chuva. Os corguinhos viraram mar, a mata encharcada, barro pelas canelas. Tive que me demorar uns dias na fazenda dum antigo conhecido. Foi então que ele também apeou, trazia a mainha. Era a Do Rosário. Logo me encantei. Magrinha, espigada, olhos ardentes, tinha febre.

Tratei da mulherzinha já com segunda intenção. Rolamos juntos em outras vidas. Ela também me reconheceu. Mas recatada, só queria agradecer de eu ter salvo o moleque. Travamos prosa e pareceu que o mundo era só nosso. Quando a chuva amainou, saímos dali já amigados. Trouxe pra minha casa e inté hoje é ela que faz os quitutes que vendo na quitanda. Vosmecê qué provar uma broinha de fubá com café? Coadinho na hora.

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Isabel Cristina Antunes Ravacci Scoqui é brasileira, viúva, artista plástica, escritora e poetisa, licenciada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de São José do Rio Pardo, onde concluiu o curso com louvor. Seu dom pela escrita revelou-se muito cedo e já contava histórias antes mesmo da alfabetização. A partir da adolescência, participou em jornais, revistas e antologias do meio universitário. Sob o nome artístico Isabel Scoqui, possui nove livros lançados pela Editora EME. São livros de estudo, contos, infantil, romances e antologias, engajados ao Espiritismo. Sempre afeita à experimentação, sob o nome artístico Isa Ravacci, lançou o livro poético “Suspiros, Cismas e Cantares”, pela Chiado Books, o livro de contos “Histórias que Ninguém Conta”, pela editora Penalux e o livro de poemas Transmutação, pela editora Contos Livres, figurando, ainda, em três antologias de poemas, sendo uma pela editora Chapa na Ideia e duas pelo Projeto Multiversos.