"Só vale a pena se houver encanto", de André Giusti, ed. Caos e Letras, 2025
Resenha por Ana Lúcia Franco
VIGÉSIMA EDIÇÃOPROSA LITERÁRIACRÔNICA
9/18/20264 min read


Por Ana Lúcia Franco
Brasília tem um cheiro indelével de mato e sertão que permanece entranhado na memória. Em uma passagem de Só vale a pena se houver encanto, de André Giusti, publicado pela Caos e Letras, Alessandro Romani, o protagonista, menciona justamente esse aroma seco e vegetal. A lembrança me alcançou de imediato. Abriu uma fresta afetiva para a cidade que carrego comigo.
O fato é que o livro de Giusti me devolveu a um universo conhecido, familiar. Não nasci em Brasília, mas foi ali que cresci e onde transcorreu a maior parte da minha vida. A meu ver, a cidade é também a grande personagem do romance. Não se limita ao pano de fundo: respira, pulsa e atravessa cada página, mesmo quando a narrativa se desloca, por instantes, para o Rio de Janeiro. A escrita tem agilidade, tensão discreta, lampejos de humor e toques de poesia. Agarra o leitor sem alarde. Ao retratar desejos, expectativas e tipos humanos que compõem Brasília, o livro soa verdadeiro. Mas não se contenta com o retrato: aprofunda-se, desvela camadas, toca zonas menos visíveis da experiência.
A narrativa acompanha Alessandro Romani, jornalista de ascendência italiana, nascido no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, que chega a Brasília movido por uma oportunidade profissional. Na cidade, conhece Renata, com quem vive mais de dez anos de casamento e tem três filhas. Ali se estabelece e se torna, por adoção, um brasiliense. Alessandro é feito de ambiguidades: carrega os traços dos homens de seu tempo, mas há nele uma dissonância, uma recusa silenciosa ao roteiro esperado. Não deseja uma vida estável, previsível e controlada, como tantos. Sobretudo em Brasília. Seu impulso mais profundo é preservar o encanto de viver, ainda que para isso precise atravessar perdas afetivas e profissionais, ainda que, muitas vezes, o chão lhe falte sob os pés.
Poucos engravatados de Brasília se deixariam ver em um conversível antigo, com o vento no rosto, embalados pelo melhor rock and roll. Alessandro, porém, não abria mão desses pequenos rituais de liberdade: o vento, a música, a velocidade possível, o prazer sem justificativa. Pura curtição. Puro encanto.
Há, entretanto, uma outra Brasília, mais alternativa. Parte de seus habitantes vive na Asa Norte, nos prédios baixos de três andares, como aquele em que Alessandro morava. Mesmo podendo morar no Lago Sul, em imóvel cedido pelos sogros, ele escolheu a Asa Norte. Passou algum tempo no Lago Sul, é verdade, mas voltou ao seu território natural. Havia nele algo inegociável: Alessandro não se dobrava ao way of life da elite burguesa brasiliense, tão bem retratada no livro.
A vida profissional de Alessandro, jornalista, foi sempre atravessada por altos e baixos. Ora empregado, ora desempregado, ele tentou se justar à estabilidade que, em Brasília, empurra tantos para o serviço público. Estudou para concursos, tentou, insistiu. Mas não era ali o seu destino. Uma repartição pública até o fim da vida não cabia em seu horizonte. Não que a instabilidade e o desemprego fossem escolhas desejadas; talvez fossem antes o preço de não se corromper, de manter acesa a chama do encanto, esse sentido íntimo da vida que hoje tantas vezes se perde em nome de uma estabilidade no fundo ilusória. Em Brasília, há quase uma cultura do cargo público, como se não houvesse outro caminho profissional possível. A pressão é grande, quase um tudo ou nada. Alessandro, porém, seguiu exposto ao vento da instabilidade. No fundo, quis assim.
Todo encanto tem seu preço. Viver fora dos cercados da estabilidade (no trabalho, no amor, na vida) pode significar atravessar depressões, angústias, dúvidas e até desesperos. Mas talvez sejam justamente essas travessias que adensam o tônus da existência. O encanto é uma chama frágil, dessas que a mesmice estável pode sufocar pouco a pouco. Permanecer fora desse cercado é para poucos. Experimentar a impermanência, tocar a dor e a delícia de ser o que se é, talvez seja uma forma de manter essa chama acesa.
Alessandro Romani permanece fiel a si mesmo e a um encanto que, no fundo, é o próprio sentido da vida. Por isso, conhece a impermanência, as frustrações profissionais e amorosas, tudo isso de que tantos fogem, vendendo a alma para permanecer nos cabrestos da segurança. Ele atravessa suas turbulências existenciais em nome da paixão pela vida, em nome do encanto. Não poderia ser diferente para aquele descendente de italianos de sangue quente.
Nas últimas páginas, o livro retorna ao início; como se desenha um círculo. Mais uma vez, Alessandro se vê diante da instabilidade de ser jornalista sem concurso público. No fim, porém, a demissão já não parece assustadora. As coisas se acomodam. A vida afetiva também parece mais serena nas linhas finais do livro. Depois do divórcio e de experimentar o caos das relações modernas, ele parece encontrar algum alento, talvez um porto seguro. Mas tudo pode mudar de repente. Alessandro não busca a segurança de uma vida linear, repetida, domesticada. Afinal, viver só vale a pena se houver encanto.
E não posso deixar de mencionar a trilha sonora do livro. A vida de Alessandro Romani corre ao som de Joe Bonamassa, do pianista Brian Crain, de T-Bone Walker, Creedence, The Jesus and Mary Chain, Percy Sledge, INXS, Hootie & The Blowfish, The Cure, The Smiths, U2 e tantos outros. Algumas vezes interrompia a leitura para procurar as bandas e músicas citadas; depois, voltava às páginas já acompanhada por aquela música ao fundo. De preferência, com um modesto vinho chileno. Um cabernet sauvignon, por favor.