Rogério Bernardes
cinco poemas selecionados do livro Manual de Desinstruções, ed. Penalux, 2022.
DÉCIMA SÉTIMA EDIÇÃOPOEMA
6/29/20262 min read


anatomia de uma bomba
na minha boca
lutam para sair diamantes
mas o gosto que carrego
ainda é o do carvão
no meu peito
não cabem mais pássaros
mas o que ainda expiro
são os ovos que não vingam
nos meus dedos
inflamam palavras doídas
mas o que ainda me mata
é o que não digo
meu corpo inteiro
é um garimpo clandestino
uma gaiola trancada
uma contagem regressiva
dele para dentro: metáfora
dele para fora: perigo!
............
rosário
tudo o que ainda carrego comigo
é um inventário cego de retalhos
cortados com defeitos suficientes
para serem mal costurados juntos
a linha a ser usada tem vidro moído
a agulha é a ferrugem deste tempo
os meus dedos já aguardam os furos
e o meu sangue está pronto a brotar
tudo o que ainda carrego comigo
é um rosário de vontades de chorar
o pai-nosso desta conta de silêncios
a ave-maria é a saudade da minha mãe
a cada volta entre as mãos alcoólicas
as intenções são outras e outra é a máscara
e outro o abraço interrompido e outro o beijo
dado no escuro de distâncias imaculadas
ao fim da jornada de um ano inexistente
tenho agora uma colcha de retalhos
com ânsia de cobrir a cama materna
e um rosário com cheiro de antepassados
tudo o que ainda carrego comigo
nesta viagem planetária dentro do abrigo
[incerteza cosida na agulha enferrujada]
é um escapulário pagão de minhas almas
as mortas e as vivas - desenho da estrada
a percorrer entre choro e reza e maldizer
limpar dos dedos o sangue seco e grosso
para que o fim não seja poço - seja escada
beijar lento a mãe, ler no rosário da avó
o testamento apócrifo de vidas pausadas
...............
acima
não permita o céu
que o meu pássaro morra
sem nunca sentir de novo
o vento em suas asas
penas sem afago de alturas
são homens trágicos
há pássaros engaiolados
morrendo de inanição
por vontade própria
eles sabem o gosto aéreo
e não se alimentam de prisão
disfarçada de cuidados
assim também o homem
que um dia provou
o céu da liberdade
o meu pássaro prepara
o fim do desuso de suas asas
sonha todo dia
com a gaiola aberta
e me avisou com seu canto
que me levará consigo
ambos temos saudade
da inalcançável altura
acima dos inimigos
...............
manual de desinstruções
nunca planejei virtudes para enganar o céu
nem cometi bondades para fugir do inferno
meus erros - poemas pobres sem forma fixa
rimam palavras amarrotadas fora da mala
não circulo datas em calendário de geladeira
é o acaso dos dias, a desviagem, o que conta
...
a pele é caligrafia desbotando aos poucos
meu cabelo já é quase um poema póstumo
talvez o céu e o inferno sejam mesmo aqui
e o meu purgatório seja neste pedaço de papel
as palavras que como quando resta a fome
me alimentam dessas gastrites metafóricas
...
sou uma sucessão de maus versos, par em par
um atalho mais curto para longos enganos
assim escrevo manuais de falsos recomeços:
desinstruindo tropeços no apagar dos anos
.................
feiticeiro
tenho olhos de encantar nevoeiros
e mãos de modelar o ar rarefeito
com meus pés abençoo as raízes
das minhas costas escorrem veios
na cabeça habitam flautas mágicas
hipnotizando os sonhos restantes
enquanto os ratos que habitam o peito
revolvem o que enterrei: este instante
sou filho do impossível e do ordinário
servindo-se famintos deste banquete
embriagados do vinho com meu sangue
a safra de lágrimas foi grande ontem
assim mato a sede dos meus súditos
enquanto encanto os meus nevoeiros
meu corpo inteiro é um grande feitiço
de bruxas que cospem nas fogueiras
enquanto acarinho o destino: gato preto
...............
Rogério Bernardes nasceu em São Gonçalo/RJ e mora em Brasília/DF. É autor, entre outros, dos livros Manual de desinstruções (2022, Penalux), deus e outros ópios (2023, Mondru), O menos inocente dos cordeiros (Patuá, 2024).