Roberto Klotz

Crônica: A Sabotagem do Diagramador

DÉCIMA SÉTIMA EDIÇÃOCRÔNICA

6/29/20264 min read

A SABOTAGEM DO DIAGRAMADOR

O sol se punha no café da rua Matacavalos naquele verão de 1851.

Machado de Assis datava muitos inícios de contos. Esse foi um dos diversos tópicos da nossa conversa literária. Em vez da atual rua Riachuelo, no centro do Rio de Janeiro, jogamos conversa fora no outono de 2015, tomando cerveja, num barzinho em Brasília.

Meu interlocutor, JPS, não gostaria que eu o identificasse jamais, nem pelo sobrenome Souza, nem apelido de Jota.

Pois bem, Eduardo (será que gostou do pseudônimo?) estava indignado. Disse que havia sido alvo de sabotagem.

— Como assim? — perguntei, enchendo nossas tulipas com cerveja.

— Sabe quando você estaciona o carro e um pobrezinho pergunta se pode lavar? A gente responde “não obrigado” e o mulambento volta a questionar: “cuidar pode?” A gente tem vontade de dizer “vai trabalhar”, mas diz gentilmente: “Obrigado, amigo, volto já”.

— Sei. Tem um pessoal que se acha vítima do mundo e ameaça com olhares.

— Ameaçam com olhares e acenam com um prego na mão.

— Arranharam seu carro?

— Não, foi só um exemplo. Da mesma forma você precisa tratar bem os garçons para que não cuspam no seu prato.

— É verdade, precisamos ser atenciosos mesmo com aqueles que não merecem. Nos meus tempos de obra, tínhamos que ser todo carinho com os operários. Pedreiro enfezado entupia cano com cimento. Pintor irritado lambuzava chão recém sintecado. As meninas da limpeza, quando ofendidas, tocavam palha de aço nos vasos sanitários. Ou seja, se estávamos descontentes, era preciso dar um pé na bunda na hora, senão a sabotagem era certa.

— Mas a minha sabotagem não foi de cuidador, garçom ou pedreiro foi de diagramador.

— Diagramador? Como assim? Sacanearam seu livro? Esse de contos? Você não me falou que ele era top?

— Verdade. É um cara supercriativo, foi indicado pela editora como sendo o melhor freela. Profissional dos bons.

— Não entendi. O nome dele está no livro. Todos vão saber que foi ele!

— A história é longa.

Meu amigo, esvaziou o copo. Olhou para cima como se pedisse perdão adiantado. Ele iria difamar sem estar convicto.

— A revisão do livro estava finalizada. Ele foi à minha casa. Abri o lap top, mostrei o arquivo com o livro, vi o sorriso de “vai ser mole” e aí pechinchei o preço. Depois de acertar o valor, paguei metade em notas de cem e prometi acrescentar vinte por cento se ele atendesse no prazo combinado de cinco dias.

— E porque ele iria sabotar seu livro?

— Calma. Preciso contar os detalhes. No quinto dia, conforme combinado, recebi um e-mail com o livro diagramado. Depois de cinco minutos observei que no alto das páginas pares meu nome, Souza, estava com esse. Sacanagem!

— Foi impresso assim?

— Não. Na mesma hora pedi para que corrigisse. Isso pode acontecer com qualquer um.

Pensei: “Como é que o Souza quer ficar anônimo se ele mesmo diz o nome?”

— Dei mais uma olhada e gostei da elaboração do índice. Exceto pela falta de padronização. Havia capítulos negritados e outros não. Notei que o título do conto Homens fazendo barulho mudou para “Homens fazendo baralho”.

— Poderia ter sido pior...

— Enviei o segundo e-mail e em seguida o terceiro, avisando que o oitavo conto começava na página ímpar contrariando o resto do livro.

— Falta de atenção, né.

— Eu não precisei dizer nada, estourou o prazo e o cara dançou no prêmio de vinte por cento.

— Deve ter ficado chateado.

— Aí, reparei que para conseguir um alinhamento mais elegante ele usou um programa que hifenizava as palavras, e, logicamente não conferiu o resultado. Foram mais umas quatro correções. Além de descobrir que uma imagem desapareceu. Fiquei muito irritado.

— Você detonou como ele?

— Eu estava na mão dele. Tive que solicitar as correções com doçura. Desgraçado! Encontrei mais trocentas bobagens e continuei sendo gentil nos outros quinze dias. Uma canseira. Eu já não aguentava mais ler e reler e encontrar mais e mais surpresas.

— E no final, deu certo?

— Depois do livro impresso descobri que sumiram palavras e até parágrafos inteiros. Para o leitor, a culpa é da revisora ou minha incompetência. Ele me sabotou e deve estar rindo da minha cara.

— Filho da mãe!

— Mentirosos, chantagistas e sabotadores deveriam ser fuzilados em praça pública!

Enquanto Jota emparedava criminosos, meu celular vibrou três vezes.

Interrompi a conversa para ler as mensagens.

“Amor, cadê você?”

“Passei no café e não vi você nem aquele escritor medíocre.”

“Se não vier em 15 minutos vai dormir no sofá!”

Souza olhou questionativo.

— Que cara de preocupado é essa?

— Preciso ir embora já. Minha mulher esqueceu a chave de casa.

Souza, que queria um ouvinte para mais duas horas, provocou:

— Duvido. Me mostre o celular.

Enfiei o telefone no bolso. Com um gesto chamei o garçom. Esvaziei a cerveja do copo.

— A vida, meu amigo, é muito mais cruel que a literatura.

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Roberto Klotz é um engenheiro que saltou do topo do prédio recém-construído e estilhaçou-se em parágrafos. Nasceu no século passado. Bem-humorado, crítico, vacinado, analfabeto, irônico, paulistanamente canadango. Suas histórias muitas vezes têm finais surpreendentes. Enquanto aprendia a cozinhar, escreveu Pepino e farofa, um livro de aventuras culinárias, engordou de tantas pizzas encomendadas. Para perder peso, o médico recomendou que caminhasse. Durante as caminhadas encontrou elefante, lâmpada mágica, cão bravo, pegadas de onça e 45 motivos para exercitar o bom humor em Quase pisei! A vida continua e aí, o álter ego, von Silva tornou-se personagem de Cara de crachá, um funcionário público que carimba bom humor dentro e fora do expediente. De tantas anotações de oficinas literárias, ora sentado prestando atenção, ora de pé ministrando aulas, resultou o pedido de partilhar o conhecimento que gerou o Manual do escritor.Conquistou mais de 40 prêmios literários. Foi Conselheiro de Cultura na Secretaria de Cultura do DF. É jurado de concursos literários e promove oficinas de escrita. Saltou do prédio por saber-se imortal. Ocupa uma cadeira na Academia de Letras do Brasil – DF.