Rinha de Galo, Maria Fernanda Ampuero, e A Cachorra, Pilar Quintana

Breve comentário por Ana Lúcia Franco

DECIMA QUARTA EDIÇÃOPROSA LITERÁRIA

4/15/20264 min read

Ler e reler clássicos ou dar uma chance ao novo? Dizem que nada se cria, tudo se repete e a originalidade está em baixa. Que a arte, a literatura, está tudo muito repetitivo. Será? Pagamos para ver. Gosto de novidades. O que fazem de novo na literatura. Na literatura escrita por mulheres. De um modo geral, busco, sem ideias pré concebias, sem me deixar guiar pelo lobby, pelo marketing. Experimentar é a ordem. Tenho lido muita coisa ruim super bem “apresentada”. E muita coisa boa sem qualquer apresentação. Então, pulo a apresentação para sentir o pulsar do livro sem intermediários. Depois que termino o livro, leio o prefácio, as orelhas para ver se realmente concordo com o prefaciador. Geralmente é assim.

Sim, li bastante a uruguaia Cristina Peri Rossi. E escutei num podcast que a literatura latino americana atual, escrita por mulheres, pulsa. É um vasto oceano de possibilidades. Assim, cheguei ao livro de contos “Rinha de Galos” de Maria Fernanda Ampueiro, uma equatoriana de 49 anos, jornalista, que está há um tempinho por aí, mas só agora cheguei perto. Sem ler resenha nem nada, mergulhei em Rinha de Galos, publicado em 2018. E no primeiro conto, Leilão, já me rendi à excelência da escrita, ao estilo pungente. E o tema, horror. É.

Sempre gostei do gênero gótico. Na adolescência, lia Anne Rice, Lovecraft e respirava aliviada. A fantasia, o horror eram criações de escritores para entreter leitores. Nada a ver com o mundo. Nosso mundo está à salvo. A fantasia é um mentirinha distante.

Atualmente, o horror que se apresenta na literatura é o horror do mundo, deste mundo. O horror cotidiano, que pode estar ao lado, no vizinho. Nada distante. E isso é perturbador. Um horror totalmente verossímil. É isto que nos traz os contos de Rinha de Galos. Todos os contos têm o mesmo viés aterrorizante e perturbador, embora nada fantástico. Não se trata de fantasia. De monstros imaginários. São monstros reais, mais próximos de nós do que imaginamos. É a camada monstruosa dos que nos cercam posta à lume. Nos defrontamos com o que poderia ter nos acontecido ou pode nos acontecer a qualquer momento. Não é literatura exatamente de entretenimento, mas uma arqueologia psicológica da humanidade.

Não é um livro de contos para se ler “de boas”, um conto depois do outro. Eu lia um conto e ficava perplexa, matutando, digerindo o que acabara de ler. Não lia outro em seguida. Tinha que dar um tempo. Os contos expõem uma humanidade brutal, insana, perversa, nojenta. E verossímil. E tudo com os tons de um estilo literário intenso, que te suga para dentro da narrativa. Deconcertante. Tudo o que, em geral, se coloca embaixo do tapete, é exposto. Isso num momento em que os podres da humanidade estão emergindo. Não dá para fechar os olhos. Para dizer:”não é comigo”. É com todos.

Maria Fernando Ampuero tem, também, um viés feminista que se percebe no livro. O primeiro conto, Leilão, é a história de uma garotinha que aprendeu a se livrar dos monstros que a abusavam tornando-se, ela, um monstro. E ser um “monstro” também a livrou de ser abusada num sequestro que sofreu quando adulta. É um dos contos mais impactantes do livro.

No conto “monstros”, duas garotinhas tinham medo dos monstros de filmes de terror, zumbis, etc, mas se depararam com um monstro tão ou mais abjeto dentro da própria casa. Um homem, claro. E a figura masculina, em muitos contos, é posta em xeque. Também a figura feminina, como no conto “cora” sobre um grupo de mulheres em que a “fofoca passeia por cada uma de suas moradas interiores” e estas mulheres vão num crescente banalidade e brutalidade. E são mulheres comuns.

O livro é vivo, vibrante, “prende”, e apesar de espalhafatoso e chocante tem sua profundidade. Abre espaço para reflexões sobre nossa natureza humana, que é de todos, invariavelmente. E não adianta buscar luz, só luz, com os esqueletos todos presos no armário.

Interessei-me por esta literatura latino americana tão potente. Nesta toada, me caiu nas mãos o livro “A cachorra”, de Pilar Quintana, que é uma colombiana nascida em 1972, portanto, contemporânea. Deste, li algumas resenhas e esperava mais violência, mais impacto. Fui de boa fé. Não é tão violento quanto Rinha de Galos. O que ocorre é, de certo modo, previsível em determinado momento do livro. Não darei spoiler. Impactantes são as camadas psicológicas da personagem principal Damaris, que vão se revelando no decorrer do livro.

Damaris é uma mulher comum, residente num vilarejo na costa do pacífico colombiano onde vive com o marido Rogelio, pescador, e trabalha como caseira numa residência que dá para um mar entremeado de rochedos. Um mar de altos e baixo, descrito como ameaçador e traiçoeiro. “Uma serpente negra e devoradora”. Do outro lado, a mata espessa, fechada, selvagem da costa do pacífico colombiana. Ali, Damaris nasceu e cresceu e nunca foi muito além do povoado próximo. Tinha acesso ao restante do mundo por meio da televisão, das novelas. Damaris era uma mulher comum, não fosse uma ferida profunda em sua alma: nunca foi mãe. Tentou, fez tratamento com curandeiros da região. Mas, as regras sempre desciam. Esta ferida alastra-se pela vida de Damaris, determina sua relação com uma cachorrinha que adotou e que trata como filha. Mas que, entretanto, a decepciona. E a relação com a cachorrinha desenrola tantas camadas psicológicas em Damaris. A frustração por nunca ter sido mãe. A culpa pela morte de um colega de infância Nicolasito, levado pelo mar, quando Damaris deveria o ter alertado dos perigos quando subira num rochedo. Tudo isso vai formando uma teia que acaba por engolir Damaris e que tem por estopim exatamente a cachorrinha. É um processo interessante, é um livro que expõe com profundidade aspectos densos de Damaris. Cria todo um clima, como se algo terrível estivesse por acontecer. O terrível mesmo acontece por dentro de Damaris. Acaba que nos comovemos com o fim da cachorrinha, com Damaris vítima de si mesma. Nos embrenhamos na história, que tem como personagem o mar entre rochedos. A vida selvagem na costa do pacífico colombiano. Vale conferir!

Foto da postagem: Maria Fernanda Ampuero