Quatro poemas de Eliane Potiguara
Extraídos do livro "Metade Cara, Metade Máscara", ed. Global, 2010
POEMADECIMA SEGUNDA EDIÇÃO
2/20/20263 min read
A denúncia
Ó mulher, vem cá
Que fizeram do teu falar
Ó mulher conta aí...
Conta aí da tua trouxa
Fala das barras sujas
Dos teus calos na mão
O que te faz viver, mulher?
Bota aí teu armamento.
Diz aí o que te faz calar...
Ah! Mulher enganada
Quem diria que tu sabias falar!
....................
Eu não tenho minha aldeia
Aos que não puderam encontrar sua aldeia,
mas encontraram sua essência
Eu não tenho minha aldeia
Minha aldeia é minha casa espiritual
Deixada pelos meus pais e avós
A maior herança indígena.
Essa casa espiritual
É onde vivo desde tenra idade
Ela me ensinou os verdadeiros valores
Da espiritualidade
Do amor
Da solidariedade
E do verdadeiro significado
Da tolerância.
Mas eu não tenho minha aldeia
E a sociedade intolerante me cobra
Algo físico que não tenho
Não porque queira
Mas porque de minha família foi tirada
Sem dó, nem piedade.
Eu não tenho minha aldeia
Mas tenho essa casa iluminada
Deixada como herança
Pelas mulheres guerreiras
Verdadeiras mulheres indígenas
Sem medo e que não calam sua voz.
Eu não tenho minha aldeia
Mas tenho o fogo interno
Da ancestralidade que queima
Que não deixa mentir
Que mostra o caminho
Porque a força interior
É mais forte que a fortaleza dos preconceitos.
Ah! Já tenho minha aldeia
Minha aldeia é
Meu Coração ardente
É a casa de meus antepassados
E do topo dela eu vejo o mundo
Com o olhar mais solidário que nunca
Onde eu possa jorrar
Milhares de luzes
Que brotarão mentes despossuídos
De racismo e preconceito.
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Brasil
Que faço com a minha cara de índia?
E meus cabelos
E minhas rugas
E minha história
E meus segredos?
Que faço com a minha cara de índia?
E meus espíritos
E minha força
E meu Tupã
E meus círculos?
Que faço com a minha cara de índia?
E meu Toré
E meu sagrado
E meus “cabocos”
E minha Terra?
Que faço com a minha cara de índia?
E meu sangue
E minha consciência
E minha luta
E nossos filhos?
Brasil, o que faço com a minha cara de índia?
Não sou violência
Ou estupro
Eu sou história
Eu sou cunhã
Barriga brasileira
Ventre sagrado
Povo brasileiro.
Ventre que gerou
O povo brasileiro
Hoje está só
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Invasão
A barriga da mãe fecunda
E os cânticos que outrora cantavam
Hoje são gritos de guerra
Contra o massacre imundo.
Quem diria que a gente tão guerreira
Fosse acabar um dia assim na vida.
Quem diria que viriam de longe
E transformariam teu homem
Em ração para as rapinas.
Quem diria que sobre os escombros
Te esconderias e emudecerias teu filho – fruto do amor.
Cenário macabro te é reservado.
Pra que lado tu corres,
Se as metralhadoras e catanas e enganos
Te seguem e te mutilam?
É impossível que mulher guerreira
Possa ter seu filho estrangulado
E seu crânio esfacelado!
Quem são vocês que podem violentar
A filha da terra e retalhar suas entranhas?
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Eliane Potiguara
Eliane Potiguara (Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1950) é uma professora, escritora e ativista, reconhecida como a primeira mulher indígena a publicar um livro no Brasil. Sua trajetória é marcada pela transformação de memórias de violência e diáspora em uma literatura de resistência e cura.
Nascida no Morro da Providência, no Rio de Janeiro, Eliane é descendente do povo Potiguara da Paraíba. Sua família foi forçada a migrar após o assassinato de seu bisavô, Chico Solón, em um conflito de terras. Criada por suas tias e por sua avó, Maria de Lourdes — uma vendedora de bananas analfabeta que custeou seus estudos —, Eliane começou a escrever aos sete anos, redigindo cartas para que sua avó pudesse se comunicar com parentes no Nordeste.

