Poesia Pura (ensaio de Henriqueta Lisboa)
extraído do livro Henriqueta Lisboa Obra Completa em prosa, organização Reinaldo Marques e Wander Melo Miranda, ed Peirópolis 2020
DÉCIMA QUINTA EDIÇÃOPROSA LITERÁRIA
5/2/20264 min read


POESIA PURA
Ao discorrer sobre Poética, não se pode omitir a questão da “poesia pura”. Mas é mister focalizar, primeiramente, o significado desta expressão. Pois a confusão que reina em torno ao problema estético relacionado com a poesia pura está na diversidade de interpretações desta expressão, bem mais do que na divergência de conceitos sobre a sua essência. Como nem todos o encaram pelo mesmo prisma, o alvo das discussões falseia, anulando qualquer resultado.
Além do quid pro quo inicial de quando veio à baila, consagrada pelos franceses, a expressão “poesia pura” se vai colorindo, com o tempo, de novos matizes. Escusa dizer que não é no sentido moral (cogitação de outra categoria) que artistas e críticos a empregam.
A mais lúcida explicação, a meu ver, pelo menos em relação à metafísica da poesia, é a que oferece Robert de Souza, reportando-se à teoria de Henri Bremond: “Puro não deve ser compreendido no sentido químico de água destilada, da qual foram eliminados os elementos vivos para alcançar a perfeita pureza da substância mineral; senão no sentido biológico de ‘pursang’, quando o ser manifesta os caracteres mais distintivos, mais de acordo com suas origens, as virtudes mais completas e mais raras de sua natureza”.
Nem o próprio Bremond seria tão claro. Mesmo porque a sua teoria, com raízes bem mergulhadas no platonismo, defende, paradoxalmente, os princípios estéticos de Poe, Baudelaire, Mallarmé e Valéry, em cujos versos prevalece a pureza química sobre a pureza biológica (mais nos dois últimos do que nos primeiros).
Sem embargo das divergências fundamentais, as ideias de Bremond coincidem de certo modo com as de Croce, mesmo no setor da expressão imediata ou sentimental, que o filósofo italiano separa, com veemência, da verdadeira expressão poética, e Bremond implicitamente afasta apoiando a poesia aristotélica de Poe e Baudelaire, entre outros.
Seja como for, libertada das formas elementares da paixão (que não são formas criadoras), do juízo afeito a discernir o real do irreal (impróprio à beatitude poética), da cópia servil das coisas, da lógica prosaica, da eloquência oratória, do anedótico, do didático, purificada, em suma, organicamente, a poesia atinge seu mais elevado estágio, um mundo de perspectivas extraordinárias, onde impera a intuição.
Mas nem por isso está isenta de perigos, pela proximidade dessa outra pureza feita de abstenção: rondam-na os perigos do hermetismo, da desumanização, do silêncio total.
Narciso inspira o desejo de superar todas as formas possíveis. Então o artista se faz enigmático. A arte passa a ser encantamento de excepcionais, o poeta recebe o título de “joalheiro dos príncipes”. Não foi acaso dessa insatisfação pelo existente que surgiu a escola dadaísta, chegando André Breton a anunciar “la fin de cette immense farce qui a nom l’art?...”
À tendência para se transformar em culto religioso a atividade poética, preside a soberba de Lúcifer; como se no subconsciente habitassem as respostas a todas as perplexidades humanas, o artista nele se precipita, com desdouro para sua própria consciência. Daí resulta, é bem de ver, a sua desintegração.
Finalmente, na luta pelo inefável, o desprezo pelo elemento humano que poderia talvez contaminar a poesia, esse mesmo anelo de perfeição que resume a força do artista, pode vir a ser a causa de sua derrota, pelo silêncio em desespero.
E é por isso que escreve Daniel-Rops: “Le poète est un être menacé”. E ainda: “L’art n’est pas pur; la poésie ne peut pas être pure; la tentation d’une poésie qui franchirait, d’un coup, les zones obscures du réel, du périssable, pour atteindre à l’éternité, a hanté maints cervaux. Dans toute grande poésie existe une tentation d’angélisme”.
Nem o furor mágico do vidente nem as características angelicais levarão ao Tabor. Mas sim a sabedoria serena do homem a quem foi dado, com a vida, o dom de cantar. Como o grande Transfigurado, o Poeta reside entre sol e neve.
Lisboa, Henriqueta. Henriqueta Lisboa : Prosa: Obra completa v. 3 (Henriqueta Lisboa : Obra completa) (Portuguese Edition) (pp. 65-67). (Function). Kindle Edition.
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Henriqueta Lisboa nasceu em Lambari, sul de Minas Gerais, em 1901, filha de Maria Rita Vilhena Lisboa e do conselheiro João de Almeida Lisboa, um dos políticos de maior expressão da Primeira República. Diplomou-se normalista pelo Colégio Sion, da cidade de Campanha, ainda em Minas. Mudou-se com a família inicialmente para o Rio de Janeiro em 1924, quando o pai foi eleito deputado federal, e, em 1935, para Belo Horizonte, onde o pai foi eleito para a Constituinte Mineira. Na capital mineira, Henriqueta exerceu várias atividades profissionais, como inspetora federal de ensino secundário, professora de literatura hispano-americana e de literatura brasileira na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santa Maria, hoje Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, e professora de história da literatura na Escola de Biblioteconomia da Universidade Federal de Minas Gerais. Em 1958 ingressou no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.
Poeta, tradutora e ensaísta, em 1963 foi a primeira mulher a ser eleita para a Academia Mineira de Letras, onde ocupou a cadeira número 26, cujo patrono foi Evaristo da Veiga. Recebeu vários títulos honoríficos e prêmios, como o prêmio Brasília de literatura, pelo conjunto da obra, concedido pela Fundação Cultural do Distrito Federal; em 1976, o prêmio Poesia 76, conferido pela Associação Paulista de Críticos de Arte; o prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, em 1984, pelo conjunto da obra; ainda em 1984, o prêmio Pen Club do Brasil, pelo livro Pousada do ser. Do governo de Minas Gerais recebeu, além da Grande Medalha da Inconfidência, em 1980, e da Medalha Santos Dumont, em 1983, o diploma de mérito poético, por decreto do governador, em 1979, comemorativo dos cinquenta anos de poesia.