Paris, Texas (filme) - backroom no deserto
crônica por Ana Lúcia Franco
DÉCIMA NONA EDIÇÃOCRÔNICA
8/23/20265 min read


Na forte onda dos “backrooms” causada pelo recente filme do jovem diretor Kane Parsons (Backrooms: um não-lugar, 2026), vislumbrei um paralelo entre esta perspectiva e o filme “Paris Texas”, do diretor Wim Wenders, de 1984. Os backrooms não são exatamente uma lenda urbana nascida em fóruns da internet, mas estão há muito tempo no inconsciente coletivo. Até muito antes de 1984, mas não irei enveredar por aí.
Os backrooms seriam não lugares ou realidades paralelas em que se ingressaria repentinamente, numa espécie de bug da realidade conhecida ou até mesmo falência do ego. No filme Paris, Texas, os backrooms não seriam uma infinidade de salas claustrofóbicas, amareladas, cheirando a carpete mofado, com o ruído constante de luzes florescente. Mas uma paisagem a céu aberto, em regiões desérticas do Estados Unidos, um ambiente natural, árido, que pode se tornar claustrofóbico, agonizante e interminável, porque o bug da realidade convencional se dá sobretudo na mente e não necessariamente num ambiente externo específico.
Em Paris, Texas, Travis, interpretado pelo ator Harry Dean Staton, vaga há quatro anos nos desertos estadunidenses. Não fala, não interage com ninguém, mal se alimenta. Desligado de sua realidade anterior, anda à esmo tal qual um indigente, sem rumo, sem nome, com sapatos furados, bebendo gotas de água em torneiras que aparecem pelo caminho. Nesse ponto, as cenas do filme contrastam a figura minúscula de Travis com o deserto e dão a proporção do apagamento de seu ego diante da vastidão desértica.
Até que Travis teve um colapso físico por desidratação e foi parar num posto de saúde. Ele carregava no bolso um pequeno papel com o telefone de seu irmão Walt, que foi chamado para resgatá-lo. Walt saiu de Los Angeles, na Califórnia, e foi até um deserto na fronteira com o México em busca do irmão que não via há quatro anos, desde que Travis desapareceu repentinamente. A princípio, Travis parece indiferente ao irmão, não fala, não interage e se bobear escapa e volta a vagar. Parece não ter nenhum interesse em retomar os laços com o parente. O irmão pacientemente espera a hora em que a alma de Travis retornará àquele corpo vazio e desabitado. A partir daí emerge que aquela assustadora figura a vagar pela backroom desértica teve um passado, tem inclusive um filho que é crido pelo irmão Walt e a esposa Anne, desde seu sumiço. O que teria acontecido? Ah, essa mania que eu tenho de entender, de fechar as histórias, de saber dos porquês. Um defeito, talvez. Mas fica no ar: que caminhos levaram Travis àquele esvaziamento? O que teria bugado sua realidade? Poderia ser uma opção, um estado mental que se sobrepôs a qualquer coisa que pudesse ter acontecido.
Aos poucos, Travis volta a falar, a interagir com o irmão, mas nada esclarece sobre o que o teria levado àquela condição tão penosa de vagar pelo deserto. Um clima de suspense se instaura. A fotografia do filme cria todo um ambiente emocionante em torno do mistério do que teria acontecido. Wenders é um cineasta que trabalha de forma exímia com cores e tons; os do filme, azul e vermelho, remetem às cores dos Estados Unidos e da França. Paris seria uma localidade do condado de Lamar, no Texas, onde Travis teria sido gerado, conforme contava seu pai. No bolso, ele carregava uma foto de um terreno que teria comprado no local para viver com sua família que, entretanto, permaneceu deserto.
Enquanto os irmãos Travis e Walt estão se aproximando, os ângulos do filme são mais abertos dando a impressão de que as pessoas são menores. Os ângulos diminuem quando os irmãos chegam a Los Angeles, onde Travis reencontra o filho e fica temporariamente hospedado na casa do irmão.
Daí em diante, o mistério do que teria acontecido com Travis vai se desvendando naturalmente. Mas até um certo ponto. Travis foi arrancado de seu deserto, de seu “backroom” e plugado de volta ao passado por causa de uma história ainda mal resolvida com sua ex-mulher, mãe de seu filho Hunter, Jane, interpretada belissimamente pela atriz Natasha Kinski.
Assim que vê o pai, Hunter fica arredio, mas aos poucos se aproxima de Travis e escolhe partir com ele em busca de sua mãe Jane, apesar do conforto e carinho com que é criado pelo tio Walt e a tia Anne. Os laços com pai, profundos, não foram desfeitos com a distância e o tempo, apesar de Hunter não ver o pai desde os três anos de idade. Em determinada cena em que viam um álbum de família, Travis apresenta a Hunter uma fotografia de seu pai falecido. O menino revela que nunca sentiu como se Travis estivesse morto. A cena é emocionante, a sensibilidade do garoto contagia.
Travis pega emprestado com o irmão dinheiro, carro, e sai numa road trip ao encontro da ex-esposa Jane, até a cidade de Houston, no Texas. Isso juntamente com o filho Hunter, que está prestes a completar oito anos de idade. A criança se revela amadurecida e uma espécie de guia do pai em cenas que pegam pela emoção. Os dois seguem as pistas de um depósito bancário que o menino recebe mensalmente da mãe e vão até um banco, em Houston, onde o menino reconhece o que seria sua mãe saindo de um estacionamento. Seguem a figura e é de fato Jane.
Travis descobre que Jane trabalha numa espécie de peep show, como streaper. E aluga uma dessas cabines onde os dois se encontram. A comunicação é feita por telefone. Travis vê nitidamente Jane ao passo em que ela apenas a sombra do ex-marido refletida no vidro que os separa. Travis inicia um desabafo sobre a história dos dois. A atuação de Natasha Kinski é de uma rara intensidade; ela pouco fala, mais ouve, no entanto se revela e transborda nos gestos, olhares, na emoção que aflora da narrativa de seu cliente, que na realidade é seu ex-marido.
Enquanto casados, Travis e Jane viviam uma vida instável num trailer, ele nunca foi uma pessoa muito adaptada ao “american way of life”. Numa sinceridade cortante, Travis admitiu que era um companheiro ciumento e abusivo. Carrega feridas oriundas de supostas traições e infidelidades de Jane, o que não o permite retomar sua vida com ela. Nesse ponto, inferi que ele se auto-impôs o árido deserto numa espécie punição ou autodestruição. E não podia retomar sua realidade porque não se curara do que ocorreu. Esta é uma interpretação minha.
Revelou-se que a mulher, após sucessivos mal tratos, o abandonou, o que fez com que Travis se perdesse no mundo, mas a dimensão do que escolheu viver é um enigma até para ele mesmo, que teve um branco, um bug, e até então não sabe exatamente o que o levou à penúria no deserto.
Travis avisa a mulher que o filho Hunter está no hotel e espera a mãe, mas não pode seguir com a família, com a vida convencional. As feridas latejam. Ele some de carro para um destino incerto, talvez uma backroom ou deserto, enquanto mãe e filho se encontram no hotel.
O que resta de um homem diante da impotência ou da impossibilidade de levar uma vida comum ou convencional? O que é uma vida convencional? O que sobra quando tudo se desmancha? A dor ou o êxtase.