Os filhos de Nietzsche
Crônica de Ana Lúcia Franco
CRÔNICASEGUNDA EDIÇÃO
9/7/2025
Recentemente, li uma entrevista com a Professora Scarlett Marton, catedrática da USP em filosofia contemporânea e autoridade internacional sobre Nietzsche. Em certa altura, a professora é perguntada por um jornal de renome se Nietzsche, nos tempos atuais, teria redes sociais. A professora elegantemente respondeu que sim, o filósofo implantaria algumas dinamites ideológicas nas redes sociais, afinal ele se autodenominava o “homem dinamite”. Promoveria debates sobre os valores morais vigentes, refletiria sobre a genealogia da moral contemporânea. Tomaria uma posição radical diante do fato de que, nos tempos atuais, Deus está bem vivo e a humanidade cada vez mais dependente deste ópio, a religião. É então interpelada pela revista que pergunta: Nietzsche se voltaria contra as redes sociais? Seria aquele que vai para as redes sociais detonar as próprias redes sociais? A Professora Scarlett respondeu: aí eu não sei. Eu ri muito do contexto, a professora tentava escapar desta linha de questionamento enquanto a revista insistia em perguntas estapafúrdias.
Lembrei da moda de Nietzsche nos anos 90, quando cursei filosofia na Universidade de Brasília. Naquela época, debater sobre o filósofo era quase obrigatório. Ler efetivamente alguma obra dele já era uma outra coisa. Mas, tinha-se que, ao menos, ter uma noção do pensamento do filósofo nas rodinhas de conversa.
Nos meios não acadêmicos, Nietzsche também estava na moda. A galera cult do Beirut ( bazinho de Brasília) cultuava Nietzsche, que se transformou no filósofo da contracultura. Falava-se muito de Nietzsche, mas quem lia o filósofo verdadeiramente? Eu desconfiava daquela galera do Beirut, mais interessada num baseado do que numa trip intelectual. Mesmo porque os livros de Nietzsche eram obscuros, herméticos. Quem, daquele pessoal do beirut, ou mesmo da UNB, encarou os tomos de Assim Falava Zaratrusta, por exemplo? Mas, a doutrina do filósofo passava adiante. Havia os mais embasados que doutrinavam os demais e a conversa se espalhava. A doutrina do filósofo era muito aquilo de ouvir dizer.
O que tínhamos na época eram traduções muito ruins da editora Martins Fontes, que desanimavam qualquer leitura de Nietzsche. Para quem não lia em alemão, língua matriz do filósofo, ou em inglês, não havia muitas alternativas. Então, colava-se naqueles que faziam as interpretações e as espalhavam como se fosse uma leitura fidedigna. Havia até mesmo Nietzsche em quadrinhos para os amantes do gênero.
Fato é que Nietzsche caía como uma luva para justificar a postura niilista dos que não estavam a fim de encarar as coisas da vida. Uma amiga da época, casou-se com um subleitor do filósofo que se recusava a encarar o batente, porque não iria contribuir para o sistema social capitalista que, segundo ele, era uma praga. Então, ela se matava em dois empregos para pagar as contas da casa e as despesas da filha que tinham. Enquanto os supostos leitores de Nietzsche buscavam destruir e reconstruir os valores morais vigentes, tentar parir o super-homem, vociferar contra a religião, contra tudo e contra todos, alguém tinha que assumir os boletos, a verdade era essa.
E nisso da busca pelo super-homem, não raro se arvoravam a ditar valores estéticos e comportamentais. Eram etaristas, gordofóbicos, homofóbicos e tudo de ruim que se pode imaginar. Se não eram super-homens, os outros deveriam ser. Nisso de passarem a faca nos valores sociais vigentes, o que sobrava não era o super-homem, era uma besta. E não dava para argumentar, calcificados no ódio, na parcialidade, na demência. Tinham a capacidade de encontrarem congêneres, leitores, subleitores ou não de Nietsche para engrossar o coro da intolerância e do ódio. Alguns eram regados a sutilezas, mas no fundo todos eram a mesma coisa.
A questão é que essas pessoas nunca leram Nietzsche de fato, nunca tiveram contato com o pensamento genuíno do filósofo, apenas replicavam um amontoado de bobagens e interpretações viciadas. Isso para justificar a própria postura indolente perante a vida.
E como estará isso nestes tempos de redes sociais? Fervendo.
Em nome de Nietzsche, quantas bestas já se criaram, Hitller foi uma delas. Quantas bestas se criam todos os dias? De perder a conta. Dá para ir lá tentar ser amiguinho? Jamais. Nesses tempos de muros, muremo-nos. Porque, afinal, somos todos frágeis.