O cara do metrô
Crônica Ana Lucia Franco
DECIMA SEGUNDA EDIÇÃOCRÔNICA
2/21/20264 min read


Não dirijo no Rio de Janeiro. Não dá para estacionar, o trânsito é uma loucura. E tem metrô. Eu adoro metrô de modo diretamente proporcional a que não gosto de trânsito. O metrô no Rio é ótimo, bem conservado, funciona bem.
Mas pode ter seus inconvenientes. O maior são algumas pessoas, digamos, sem noção. Têm a mania de se posicionarem na porta do metrô, impedindo a passagem de quem salta do vagão. Mesmo quando o vagão está vazio. Ainda assim há quem se posicione na porta.
Dia desses, vagão relativamente cheio, eu ia descer na General Osório e me dei conta encima da hora. Tentei me encaminhar para saída, obstruída por várias pessoas. Podia sair empurrando, mas não sou mal educada, podia pedir com licença, mas fiquei muda. Perdi a saída.
Ah, quer saber, sem problemas. Irei até a Barra da Tijuca, darei uma caminhada, mudarei de ares. Feito. Tenho observado, toda vez que por algum motivo mudo de ares algo estranho acontece. Como se eu fosse impelida a fazer sempre as mesmas coisas, sempre andar pelos mesmos lugares.
Desci na estação da Barra da Tijuca (nunca tinha ido até a Barra de metrô antes). Andei até a praia. Caminhei bastante, não chovia, um belo anoitecer. Voltei para o metrô. Ainda na estação, vi um rapaz sempre atrás de mim, como se me seguisse. Começou na escadaria de descida da estação. Sabe aquele olhar que se sente? Podia ser impressão. Parei para um café e ele parou no mesmo quiosque. Ah, sem paranoia. Ele mexia sempre o celular, mas parece que me olhava discretamente. Ou não. Um rapaz bonito daquele, alto, atlético.
Na espera do vagão, ele sentou-se ao meu lado. Vestia-se casualmente, e bem. Tinha uma ótima aparência, o que não significa que fosse uma ótima pessoa. Tive a impressão de que ele estava me encarando. Seu olhar passeava entre o celular e a minha cara. Eu não olhava de volta, ativei a cara de paisagem. Levantei, dei uns passos adiante para me afastar dele, para não pegarmos o mesmo vagão. Então desencanei, deixei para lá e olhava apenas o necessário para me mover.
O vagão chegou, entrei, havia me esquecido do episódio. Sentei, olhei para o lado e quem estava sentadinho? Ele. Sim, o cara de quem devo ter idade para ser mãe.
Sentou-se ao meu lado. Ele falou qualquer coisa sobre ir para Central e seguir para Madureira. Nem prestei atenção, não era comigo. Não era possível, aquelas palavras não podiam ser dirigidas a mim. E ele falava de Madureira e de fome. E que sonhava com batata frita, naquele momento.
Tia, a senhora quer ir comer batata frita comigo em Madureira? Ele disse de repente.
Tia? Senhora? Convite para comer batata frita? Ficou uma construção semântica muito estranha. Eu ainda estava em modo cara de paisagem.
Mas achei o rapaz meio sem noção. Dá para ver que não tenho vinte anos, sou, digamos, quarenta mais. Chamar uma mulher madura para comer batata frita não é algo normal. E por que logo eu com tanta mulher no metrô?
No decorrer da minha vida, levei algumas cantadas. Qual mulher nunca levou? Antes, me chamavam para tomar um vinho numa adega ou um Chopp no Iate. Ou um jantar num bom restaurante. Agora, é batata frita em Madureira. As coisas mudam. Deve ser legal, não duvido. A questão não é Madureira nem batata frita. E, sim, gosto de batata frita, o que não vem ao caso.
Já foi objeto de terapia o porquê de eu atrair este tipo de situação. Algo em mim suscita uma intimidade que eu não dou. Determinadas mulheres se posicionam de um modo que nem permitem este tipo de abordagem. Só pelo olhar. Já comigo, acontece de vez em quando. Hoje, nem tanto. Pensei que tivesse parado. E não tem nada a ver com simpatia, beleza, nada disso. É energia.
Já tentei entender, numa terapia, como abro brechas para esta intimidade, para este tipo de abordagem. O terapeuta teve o desplante de dizer que eu gosto. É. Gosto que as pessoas tenham comigo uma intimidade que não. Não dou. E não gosto. Nunca aceitei convite de cantada. Já fui mais boazinha, empática, mas no final já dava fora mesmo. Desenvolvi um modo reativo para compensar um jeitinho meigo que, pode ser, abre as tais brechas. E ando por aí, principalmente no Rio de Janeiro, com cara de poucos amigos. Ainda assim, a situação escapa.
Mas o cara no metrô. Cheguei a pensar que talvez não estivesse falando comigo. Alguém ao lado, quem sabe. Ninguém.
O senhor está falando comigo? Ele riu. Sim, que estava falando comigo. Fiquei paralisada, sem reação. Já nem via a estação pela qual andávamos. Havia já passado a General Osório. Estava indo rumo à Central com ele.
Não.
Fiquei sem reação. Acontece quando fico em estado de choque. Será que não aprendo a levar mais na esportiva? Sem me chocar. É tanta força emocional coagulada, por fora nada transparece.
Ocorreu-me olhar meu rosto. Era final de dia, eu devia estar com um aspecto cansado. Tirei um pequeno espelho da bolsa. Abri vagarosamente. Olhei meu rosto, de cima a baixo. Já nem sabia em que estação estava.
Fique com este espelho, disse para ele. Comece a se enxergar e na próxima estação, eu desço.
Feito. E ele não veio atrás.
Foto: Ana Lucia Franco