Miss Polêmica

Cronica Por Ana Lucia Franco

POEMADECIMA QUARTA EDIÇÃO

4/21/20263 min read

Ouvi dizerem que determinada pessoa era boa, era séria porque não polemizava. Pensei, putz, Não sou boa, nem séria. Ou sou. Fato que não saio de uma polêmica fácil. Não que eu goste de uma polêmica, mas não evito polêmicas.

Parece que está na natureza do brasileiro evitar polêmicas, brasileiro é “de boa”. Abaixa a cabeça e aguenta muita coisa para não divergir ou para não polemizar. Tudo em nome da humildade. Isso é ser bom? Depende muito do ponto de vista.

Minha infância transcorreu calmamente, mas a adolescência foi marcada por polêmicas. Lembro-me de que no primeiro dia de faculdade havia um chamado de greve, alguém num palanque montado no pátio. Não quis nem saber o que era, apoiei. Era uma greve pelo aumento de salário dos servidores da faculdade. E aí não parei mais. Foi polêmica pelo impeachment do ex-presidente Collor e lá eu estava. Onde havia polêmica, eu me metia. Não tenho preguiça de argumentar, de polemizar.

Pelo contrário isso pode me dar “up”. Sair um pouco da calmaria. Sair um pouco das coisas como são cotidianamente. Uma polêmica pode ser a via para o novo.

Nos centro das polêmicas, nascem as mudanças, as revoluções. Gira a roda dialética da realidade. Como não polemizar? Como aceitar tudo de “boa”. Aceitar a exploração, a desigualdade, a manipulação em nome de uma “tranquilidade” que pode apenas ser ilusória. Não dá.

Desconfio de quem não gosta de polêmicas. De quem não gosta dos que polemizam. É mais fácil dominar (e explorar) uma pessoa “de boa”. É mais fácil enganar uma pessoa que não reivindica. Mais tranquilo. Então, a meu ver, uma pessoa que quer controlar o comportamento de quem polemiza, certamente, tem algo a esconder ou a temer.

Ah, Ana, pelo menos finge que está de boa. Já me sugeriram. É finge, deixa para lá. Evite o “sincericídio’. Pode? Sou brasileira, mas não pareço nascida aqui. Pareço que vim de longe. Acho um desplante este termo “sincericídio”. Pessoas fadadas a morrer porque foram sinceras. Se há algo que busquei “a ferro e fogo” na vida foi a sinceridade, doa a quem doer. Como posso temer ser sincera? Sou muito ruim para esses joguinhos sociais.

Fato que não poupo polêmica. E adoro o confronto de ideias. Claro que sem partir para agressões, na medida do possível. Sim, sou sincericida e posso ter perdido com isso. Ganhei muito mais. Ganhei autoconhecimento, ganhei a paz na consciência. Ganhei a possibilidade de expressar minhas ideais sem medo. É um exercício existencial fundamental para mim.

Polemizo bastante quando me deparo com contradições insuperáveis. Hipocrisia para mim é relativamente intolerável. Para equacionar determinadas contradições, cheguei a me filiar ao PCB (Partido Comunista Brasileiro). Na época, percebia que de onde eu estava todos patinavam na ideologia sem fazer algo efetivo para colocar as ideias em prática. O que fazer? Organizar uma comuna? Pegar numa baioneta? Impossível naquela época. Conhecer, então, a fundo aquela ideologia que tão bem explicava as relações sociais. Até hoje considero que, em termos ideológicos, a teoria marxista é insuperável.

Mas e a prática?

Entrei no diretório do PCB em Brasília e disse: quero me filar. Tudo bem, fui aceita. Mas nunca vi tanta disparidade teoria/prática. Nunca vi tanta contradição. E dá-lhe polêmica. Naquela época, eu era um verdadeiro terror para os que não gostavam de polemizar. E havia quem não gostasse de polemizar no centro do PCB. Por incrível que pareça.

Fato que sempre esperam da mulher uma atitude passiva, cordata, compreensiva. E eu sempre fui mestre em não corresponder ao que esperavam de mim. Sim, tenho uma vozinha meiga, um jeitinho bom. Mas não me apresente uma polêmica que vou até o fim. Extraio até o sumo. Levo à exaustão. Inimiga do fim.

Claro que o tempo foi passando e já não estou tão assim. Mas, o tempo não me consertou. Continuo uma sincericida incorrigível.