Mariana Ianelli
Crônica: Já Dizia o Bom Vieira
DÉCIMA NONA EDIÇÃOCRÔNICA
8/11/20262 min read


JÁ DIZIA O BOM VIEIRA
É preciso falar aos olhos. Aprender do céu o estilo claro e alto das palavras. Aprender da terra o fino da fineza do amor nos girassóis, que seguem o curso do sol até mesmo debaixo de um céu nublado. É preciso descer ao coração pelos olhos. Ver que os sentenciados que os urubus comem depois, os homens comem antes, muito antes. Que, se todos têm sua razão, também tudo tem sua conta. Que toda altura deste mundo é precipício. Que cada um é filho do seu coração. Que se abandonam coisas imensas por motivos torpes.
É preciso falar aos olhos. Fazer ver que os dias desta vida, sendo nossos, no-los roubam. Que é uso do mundo dizer mal dos bons. Que mais vale um Ulisses de ouvidos tapados e mãos soltas que um Ulisses de ouvidos abertos e mãos atadas. Que palavras sem obras são tiros sem balas e amor com razões de amar não é fino amor.
É preciso descer ao coração pelos olhos, e com olhos, espelho e luz, fazer ver estrelas em palavras muito claras, muito altas, para todos, que as palavras semeadas podem ser altas e claras, como estrelas, e podem fazer ver que pouco espanta o incerto da morte certa para quem medita uma hora por dia naquela hora, e ver que na cova todos são da mesma cor, que a pedra da sepultura é tal e qual a pedra do pintor, que pulveriza vermelhos, amarelos, azuis, verdes, negros, brancos, e ver que, se as almas invisíveis pudessem ser vistas com olhos antes das palavras, se pudessem ser vistas antes em todas as suas cores, não haveria a necessidade dos discursos.
24/08/2014
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Mariana Ianelli nasceu em 1979, em São Paulo, onde vive. É autora de dezesseis livros de poemas, entre eles a antologia Manuscrito do fogo (2019), que marca vinte anos de poesia, e América – um poema de amor (2021 – semifinalista do Prêmio Oceanos 2022). Recebeu o Prêmio Fundação Bunge de Literatura (Juventude) em 2008, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) em 2011 (livro Treva alvorada) e menção honrosa no prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia e Liberdade 2021. Foi quatro vezes finalista do Jabuti em poesia (livros Fazer silêncio, Almádena, O amor e depois e Tempo de voltar). De 2018 a 2022, editou a página Poesia Brasileira no jornal literário Rascunho. Site: www.marianaianelli.com.br.