MARIANA ARTIGAS
Poemas selecionados do livro Felina Sublimação, Ed. Cachalote, 2025
DÉCIMA OITAVA EDIÇÃOPOEMA
7/19/20262 min read


Fios invisíveis
Abandonar o modo com que os homens nos ensinaram a fazer ciência:
Incorporar a maneira com que as mulheres tecem os fios-invisíveis da linguagem.
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Espelho d’água
Espelho d’água: cálido-mistério
quero parir um corpo cheio de desejo,
aos poucos vou me desvencilhando
do meu reflexo, da minha imagem.
um frame por segundo, Hamlet na tela.
O instante-já se faz presente
é como uma genuína oxidação.
Finalmente, meus olhos amanhecem.
/Laurence Olivier/ Elena,
se a vida é simples
do que é que eu tenho medo?
neste momento sou como Ofélia
mergulhada nas flores de Monet,
permaneço pálida e estática.
Estou submersa no meu próprio vazio,
E se parece mais com um crime
A simples pronúncia
Da palavra submersa.
Estou sim, submersa.
Danço descalça à beira da praia
uma agonia diabólica,
felicidade clandestina, Clarice
É o sentimento que se esconde aqui e agora.
Rosas, lírios e narcisos flutuando
um doce-amargo, água-viva
caixa torácica se movimentando
E Patti Smith segue ao fundo.
Nuances esverdeadas
tomam conta do meu corpo.
I’m dancing barefoot
Heading for a spin t
ons arroxeados dominam os meus poros,
Assim como em García Márquez
as borboletas amarelas me cercam,
ensinam-me a sentir
aquilo que não pode ser compreendido.
Aprendo o tato de estar apaixonada
Então vejo Narciso,
Próximo a um espelho d’água...
O início da manhã segue feroz
Some strange music draws me
in Makes me come on like
some heroine
Fitando a luz solar
tremular na água desfaleço,
E como uma ave que rejeita o voo
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Emudecida
Seus olhos a sonhar dentro de mim
Rejeitam minha imagem, minha sina
E caem por terra
Meus poemas ladram
Para estranhos
Transformam-se
Em uma extensão do seu corpo
Permaneço emudecida
Meu nome é um símbolo-etéreo
Lua em Peixes, Ascendente em Câncer.
Você sabe, gosto de personagens sem nome,
Gosto de poemas sem face:
Sempre preferi o seu segundo nome.
Gosto de amores-platônicos,
E de versos sem métrica nem rima.
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Mimetizar o desconhecido
Procurar o mistério infernal
Em mim mesma
Mimetizar o desconhecido
E aceitar a natureza indomesticável
Do ato de fazer amor
Com palavras ilegíveis
Ter a liberdade de reescrever poemas
Engolir a terra virgem
Que circunda meus lábios
E por fim decretar
Que o poema mora na presença Inviolável do ritmo.
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Puro escárnio e água salobra
Tal qual felina, a poeta toma para si vagarosamente suas sete vidas sem pensar no dia do juízo final. Existir é sim: mistério, puro escárnio e água salobra.
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Mulher-felina
Lenta escrita,
tigres-concêntricos
caleidoscópio-imagético
Mulher-felina
À sombra de si, como pó
E como lamento minha caligrafia molda
Um poema forjado em fogo
Inflamado em mistério
esculpido em delírio
e decomposto em música.
Amor, convém amar este leão em fúria?
Me diz: é útil a poesia?
Seu corpo, um mergulho
No oceano pacífico um refúgio: ao som da chuva.
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Veredicto final
Habitava o ar uma beleza sem sal, moscas zunindo no ar. Esvaziava-me uma tristeza dulcíssima. Eis o veredicto final: não morreu felina, morreu mulher. Morreu pensando a poesia.
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Mariana Artigas é poeta e nasceu em Curitiba-PR. É graduada em Letras Português-Inglês pela PUC-PR. Publicou o livro de poesia “Ossatura Sutil” (Editora Urutau, 2022). Atualmente, pesquisa, leciona e dedica-se ao universo da prosa. “Felina Sublimação” (Editora Cachalote, 2025) é seu segundo livro.