Maria Teresa Horta

Poemas selecionados do livro Minha Senhora de Mim, ed Dom Quixote (PT) 2015

DÉCIMA OITAVA EDIÇÃOPOEMA

7/12/20263 min read

CANTIGA SOBRE O LAMENTO

Lamento: minha cantiga

meu fato-veludo aberto

Lamento: minha amizade

minhas trevas e deserto

meu enfeite de saudade

meu disfarce de ilusão

Lamento: meu ornamento

minha casa em construção

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EXERCÍCIO

Exercício do teu corpo

oculto na tua roupa

adivinho-te a dureza

o movimento sedento

a macieza da boca

adivinho o teu carinho

na sede dos meus joelhos

Adivinho o teu desejo

sobre a pele dos meus seios

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MEU ACESO LUME

Colheste as flores

da tua chama

apagaste devagar

os teus sentidos

Sossegaste o corpo

em sua cama

desguarneceste em mim

os teus motivos

Que a vela acesa corte a madrugada

e lhe desdiga a calma e a palavra

Colheste devagar o meu queixume

Ó meu amor!

Ó meu aceso lume!

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CINTO DE CASTIDADE

Como cinto-castidade

tenho o medo de perder-te

e o teu silêncio

fundo

onde crescem muitas pedras

Como cinto-castidade

este perder-me

de ter-te

meu cinto de castidade

toda a sedenta vontade

e todo o aço de querer-te

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MEU AMOR

Meu amor

meu amor

meu profundo segredo

meu secreto recanto

meu labor

mais sedento

Meu amor

meu amor

minha sede mais pura

meu corpo meu invento

meu futuro lamento

minha grande ternura

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SEGREDO

Não contes do meu vestido

que tiro pela cabeça

nem que corro os cortinados

para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o anel

em redor do teu pescoço

com as minhas longas pernas

e a sombra do meu poço

Não contes do meu novelo

nem da roca de fiar

nem o que faço com eles

a fim de te ouvir gritar

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ABRIGO

Abrigo-me de ti

de mim não sei

há dias em que fujo

e que me evado

há horas em que a raiva

não sequei

nem a inveja rasguei

ou a desfaço

Há dias em que nego

e outros onde nasço

há dias só de fogo

e outros tão rasgados

Aqueles onde habito

com tantos dias vagos

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AS NOSSAS MADRUGADAS

Desperta-me de noite

o teu desejo

na vaga dos teus dedos

com que vergas o sono

em que me deito

pois suspeitas

que com ele me visto e me defendo

É raiva então

ciúme a tua boca

é dor e não queixume a tua espada

é rede a tua língua em sua teia

é vício as palavras com que falas

E tomas-me à força não o sendo

e deixo que o meu ventre se trespasse

E queres-me de amor

e dás-me

o tempo

a trégua

a entrega

e o disfarce

Lembras os meus ombros docemente

na dobra do lençol que desfazes

na pressa de teres o que só sentes

e possuíres de mim o que não sabes

Despertas-me de noite

com o teu corpo

tiras-me do sono onde resvalo

e eu pouco a pouco

vou repelindo a noite

e tu dentro de mim vais descobrindo vales

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Maria Teresa Horta nasceu em Lisboa, em 20 de maio de 1937, onde frequentou a Faculdade de Letras. Escritora e jornalista, estreou-se na poesia em 1960, com Espelho Inicial; no ano seguinte participou com Tatuagem em Poesia 61, e tem a sua obra poética editada em Portugal (17 títulos, entre os quais o inovador Minha Senhora de Mim, recentemente reeditado) coligida em Poesia Reunida (2009). Posteriormente, trouxe a público Poemas para Leonor (2012), A Dama e o Unicórnio (2013), Anunciações (2016) – Prémio Autores SPA / Melhor Livro de Poesia 2017 –, Poesis (2017), Estranhezas (2018), vencedor prémio Literário Casino da Póvoa/Correntes d’Escritas 2021, e a antologia pessoalEu Sou a Minha Poesia (2019).

Na ficção, é autora de Ambas as Mãos sobre o Corpo (1970), Ana (1974), Ema (1984), Cristina (1985) e A Paixão segundo Constança H. (1994), e co-autora, com Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, das internacionalmente reconhecidas Novas Cartas Portuguesas (1972).

Em 2011, publicou As Luzes de Leonor, romance sobre a Marquesa de Alorna distinguido com o Prémio D. Diniz, da Fundação da Casa de Mateus. Em 2014, ano em que lhe foi atribuído o Prémio Consagração de Carreira pela Sociedade Portuguesa de Autores, editou o volume de contos Meninas. Com livros editados no Brasil, em França e Itália, Maria Teresa Horta foi a primeira mulher a exercer funções dirigentes no cineclubismo em Portugal e é considerada uma das mais destacadas feministas da lusofonia.

Faleceu em 4 de fevereiro de 2025.