MARIA DE LOURDES HORTAS

Seleção de poemas pela poeta e mais quatro poemas selecionados da coletânea Romaria, ed. Macabéa, 2022

DÉCIMA OITAVA EDIÇÃOPOEMA

7/14/20262 min read

CRÔNICAS URBANAS

Maria de Lourdes Hortas

1.

Na avenida maior

um menino e um pardal

tomam banho

num charco de chuva.

Sem telhado que os cubra

deixam -se agasalhar pelo manto inútil

da minha compaixão

adormecendo ao relento

das estrelas

no chão.

2.

Ouço apenas contar as lendas.

Nada sei dos signos ilegíveis

cifrando nos muros ameaças em surdina .

3.

No lamento noturno do mar

sinto cheiro de sangue:

a Terra de esvai, apunhalada.

4.

Todavia pássaros assobiam enamorados

e ainda se amam nos telhados.

Todavia bichos passeiam pelos montes

e frutos amadurecem à revelia das harpias.

....................

CONFIDÊNCIA

No início de tudo,
quase menina,
o poema deitava-me de bruços
no chão frio da varanda
como se me rendesse sobre
as carumas de um pinhal:
escrever era necessário
e compulsivo.

Agora
não me assalta.
Nada me exige.

Chega de mansinho,
pés de lã,
gato inaudível,
cochilando se aquieta
numa réstia de outono.
Se insisto e o chamo
Se espreguiça e dói.

PASSOS DO TEMPO

Ainda ontem era manhã bem cedo:
cinzento o céu, molhadas as vidraças,
e a neve sobre a paisagem acolchoava o mundo.

Ainda ontem era manhã cedinho: ouvia o pai
partindo para a caça
e o avô contando histórias da França.
A avó, junto à lareira, tricotava meias.
E a mãe, com seu perfume doce, as mãos de
pétala, pairava em surdina
no quarto das meninas (minha irmã e eu),
aconchegando mantas e
sussurrando canções para embalar-nos.

Ainda há pouco Maninha me chamava e
de mãos dadas corríamos pela praça
pulando poças d’água na chuva.

Ainda ontem era meio-dia: estava na escola,
me vestia de anjo.
Depois embarquei num navio para longe e chorei.

Ainda há pouco rodopiava no baile e depois
esperava o noivo no portão.
Ainda ontem entrei na igreja com véu de tule no
rosto e rosas brancas nas mãos
sob pesado silêncio de pedra.

Ainda há pouco os meus avós eclipsaram-se.
E de repente o meu pai também partiu.

Ainda há pouco tive filhos, fui levá-los à escola.
Acompanhei-os por caminhos
e descaminhos e fiz festa quando reencontraram
a casa pródiga.

Ainda há pouco as mãos de pétala da mãe
cruzaram-se sobre o peito,
e o acalanto dela em minha vida
congelou-se para sempre.

De repente sou avó.
Daqui a pouco vai anoitecer.

DIÁLOGOS

Gosto de falar comigo
e, comigo falando,
converso
com as amadas mulheres
que partiram:
Avó, Mãe, Sobrinha, Irmã.
Às vezes rimos como loucas.
Outras vezes choramos até a exaustão.
Mas há dias em que apenas
ficamos sentadas na varanda
olhando o mar
e o eco do nosso silêncio
resgata um antigo verão.

A LÁGRIMA DO MAR

Tinha apenas três anos quando
cavando na areia da praia
assim falou o meu neto Manuel:
– Vovó, vou cavar bem fundo
até achar
a lágrima do mar.

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Maria de Lourdes Hortas nasceu em Portugal e aos dez anos veio para o Recife (PE), Brasil. Poeta e ficcionista premiada, participou de várias coletâneas. É ativista literária: fez parte da coordenação das Edições Pirata; organizou a antologia "Palavra de mulher" (1979); durante vinte anos, foi Diretora Cultural do Gabinete Português de Leitura de Pernambuco, onde editou a revista Encontro. Além disso, também atua nas artes plásticas.