Lúcio Emanuel

Cinco poemas do livro 7x4 (poesia pura), editora Stella, 2026

DÉCIMA SÉTIMA EDIÇÃOPOEMA

6/29/20262 min read

I

Vinho do Porto

Nos bares de Valongo ou de Amarante

Ou nas ruas antigas, de Lousada

bebo o tinto mais forte, a mais brilhante

seiva de uvas opimas encorpada.

Vinho opulento, vinho exuberante

da bondosa parreira esparramada

pelas ribas do Douro, inebriante

licor de uva madura macerada

Quem bebe o Porto, esse licor que bebe,

servido pelas mãos divinas de Hebe,

o paladar aguça como espada

e resgata os prazeres do sentido

da memória do gosto e o já sabido

aroma e a cor da infância sepultada.

...............

II


O cavalo de Guernica

O cavalo que eu vi naquele dia

com estes olhos que a terra há de comer

era o mesmo que Pablo também via

em Guernica e no fundo do seu ser

Cavalo que uma lâmpada arrepia

ou enche de espanto até enlouquecer

e era mais que um cavalo, era a agonia,

o desespero dos que vão morrer

Cavalo cuja vista nos aterra

os olhos de pavor fitos na guerra

no bombardeio e em mortes violentas,

esta cabeça feito uma caveira,

arreganhando os dentes na sangueira

com pólvora e fumaça pelas ventas.

.................

III

Entre o céu e o mar

Não nascemos da espuma do oceano

Muito menos do orvalho da montanha,

De onde nos vem a espuma desse engano

E a frescura de orvalho em que se banha?

Sal de Atlântico mar americano

Queimando nossa pele, força estranha

De quem quer apanhar, mas não apanha

A total condição do ser humano.

Na praia virginal e sem mistério,

Esse vento, esse pássaro, esse grito

Dizendo que o destino não é sério.

E a tarde, em seu momento mais solene,

Nos faz verificar que o infinito

Parece ser azul, mas é perene.

...................

IV

Ultimo Soneto

Nasci para cantar. Alma sofrida,

fui, no entanto, arrastada pelo mar,

concha, evolve de angústia indefinida,

presa dos vagalhões a soluçar

Quem carrega consigo igual ferida

certamente nasceu para cantar

e eu de fato nasci, mas é que a vida

arrebatou-me a glória singular

E não cantei jamais: o pranto doce

exauriu-se-me e a vida transformou-se

numa comédia pública bizarra

Assim, embora a sorte não maldiga,

na terra não passou de uma formiga

quem desejava ser uma cigarra.

.................

V

Síntese

Desde que o ser humano foi criado,

Com raras exceções, sempre tem sido

Um ser entre alma e corpo dividido,

Unido e ao mesmo tempo separado

Quanto mais se aproxima do outro lado,

Mais sério vai ficando e sem sentido

Narciso em seu espelho refletido,

Amante de si mesmo contemplado

Talvez tirando a máscara da face,

O deus de cada esfinge e cada altar

No rosto da memória se estampasse

Traindo essa ilusão, essa incerteza

De um ser que apenas morre num lugar

Mas continua a ser na natureza.

..............

Lúcio Emanuel nasceu na cidade de Juazeiro-Ba, filho da Professora Vanda Marinone da Silva e Mário José da Silva, já falecidos. É medico, formado pela Universidade Federal da Bahia, e advogado, pela Universidade Católica do Salvador. Faz poesias desde criança e tem 20 obras publicadas, em pequenas tiragens, por conta própria, entre as quais "Cantigas da Beira do Rio" e "O Pescador de Poesias". Também escreveu crônicas durante muitos anos para a Rádio Juazeiro e para jornais da imprensa local.