Luciana Nobre

Seleção de poemas pela autora

POEMADÉCIMA SEXTA EDIÇÃO

5/25/20262 min read

Desencontro

Vivia a procurar, a vida inteira,

olhar de novo o olhar de sua amada,

sentir-lhe a voz, a tez aveludada…

negava que o quisesse: ‘isso é besteira!’

E cego, deambulando pela estrada,

debulha em flores mil, quem bem lhe queira…

Um frio na alma; o corpo, uma lareira,

seguia repetindo: ‘isso não é nada!’

E a musa, o amor da finda juventude,

reencontra, de maneira amarga, rude,

o bardo que a tevê, enfim, desvela:

de tanto ele falar: ‘isso é tolice!’,

não houve quem ouvisse o que não disse,

e lança o coração pela janela.

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Nude

Da língua, faço

pele

e não raro me sinto

nua...

silêncio, espelho

e só.

.........

Morfeu

À noite, o cheiro da brisa

roçando a pele

/calma ou arrepios/

tudo é questão de quem ela traz

os pássaros madrugueiros anoitecem

mantras e serestas

pulsos e ardências

/de tudo faço questão/

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Visita

Ela batia à janela

insistentes uivos violando a fresta

vencida, deixei-a entrar.

Passou pela maçã madura de teu rosto,

pude sentir,

e bem certo era o atalho percorrido no hálito teu

interdito...

úmida do orvalho que de ti jorrava,

a viração adensava a altivez que me

gritava:

abre! deixa-me estar!

Adentrou a cela escura,

rodopiando ao som do mesmo silêncio do mundo

derredor das nossas entregas

surrou-me os olhos,

secou-me a saliva aos lábios,

sussurrou ecos quaisquer

e me embaraçou os cabelos como outrora,

mas não trazia nas mãos

as pontas

de teus dedos...

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Espinhos

os piores espinhos não são os da rosa

a vida

essa flor por dentro

fere mil por pétala

entre um vazio pontiagudo e out

visível

feito pólen que ficou pra trás.

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Mares

Encontrar a nau perdida

– afã de gaivota —

saciada de lembranças

por sobre a face rósea

e hedionda do albor

(dos ventos)

o horizonte: fio da lâmina

cortando — hiato —

duas ilhas

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Sertão

vastos mistérios

tisnam o nome da noite

mas a luz peregrina de qualquer

vagalume

sabe da beleza criadora

no ventre dos cactos

a quantos silêncios testemunharam

as veredas e quantas rotas há nas linhas

dessas mãos de quase afagos?

a crisálida negando a urgência

do voo com todas as forças

a lua alva contendo o punho

à porta de Vênus

tudo é sertão e despedida!

os lábios, arremedos da aridez!

ouço-lhe os lamentos nos olhos

dos bichos que confabulam baixinho

o desengano dos homens

onde quer que o vento gélido

sopre o pó, um último grito mudo sangra:

Diadorim

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Lu Nobre Maria Luciana Nobre Queiroz nasceu em Fortaleza/CE. É poeta e pesquisadora formada em Letras - Língua Portuguesa, especialista em Produção Textual e mestra em Estudos Literários pela Universidade Federal do Amazonas. Lu Nobre é membro-fundadora da Academia Brasileira de Sonetistas-ABRASSO. Em 2024 e 2025, publicou alguns sonetos na Coletânea de Sonetos desta agremiação. Outras publicações incluem as coletâneas II Tomo das Bruxas: Corpo e Memória, e Prêmio Off Flip 2024, categorias Poesia e Contos. Sua obra individual está no prelo.