Lisa Alves

Seleção de poemas do livro Jardim de Pragas, editora Patuá, 2025

POEMADÉCIMA NONA EDIÇÃO

8/11/2026

linhagem

o relógio está parado

os trinta relógios de tua filha

também estão parados e eu não uso relógios

é o medo do tempo

é o medo da gravidade

é o medo do fim

É tarde!

somos passageiras?

estamos oscilando?

estamos nos perdendo?

estamos nos iludindo?

a viagem é linear?

É tarde!

o tempo é incapaz

de nos sustentar em um ponto

o tempo é uma embarcação

que não difere o ponto zero

do infinito aberto

pisamos em linhas imaginárias andamos por elas

e até bendizemos esses traços

e eu nunca esqueço

das linhas que cortaram o meu rosto

das linhas que cortaram o teu rosto

das linhas que cortaram o rosto de tuas filhas

e da linha que corta o Equador.

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pequena biografia de mulheres mortas

sou minhas mulheres mortas

velórios projetados em todas as paredes

fotografias misturadas com cinzas de cigarros

punhais com insígnias variadas

ao lado de um LP da Violeta Parra

Nunca brinque com quem divide

o caminho com a Morte.

dizia minha bisa muito antes

de aviões mergulharem em duas torres

ou de crianças caucasianas

brincarem de jihadistas

sou das antigas

nasci antes de mim e a vida tem sido

um imenso exercício de teimosia

pulsões de vida e morte

e retornos inexplicáveis

em tragédias que seriam risíveis

senão fossem tingidas

de sangue que benze

de sangue que costura de sangue em mãos

que teimam consertar a vida

mamãe queria dirigir caminhão

e cantar igual à Elis Regina

vovó queria servir à Cruz Vermelha

e titia queria ver a lua e se casar

mamãe parou de andar

vovó também parou de andar

e titia que era cega ainda caminhava

mas o coração explodiu de tanta mágoa

sou minhas mulheres mortas

rasgos invisíveis em mulheres igualmente invisíveis

mamãe dizia que éramos obra das Antigas

e que um dia elas se manifestariam em nós.

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trevas

eu:

o que são as trevas?

elas:

expressão de estupidez

eu:

pensei em dizer coisas belas

elas:

belo é o arco-íris que nos veste

não nada mais estúpido do que essa escuridão

nós somos toda a necessidade de luz

nós somos toda a necessidade de criação

nossas narrativas podem movimentar

qualquer Estado Paralítico

eu:

e o que dizer dessa escuridão?

elas:

não sei/não sabemos.

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herança

tocar no tempo

sentir o cheiro das cartas antigas

descobrir desenhos secretos de 1930

ser perfurada pelas agulhas de costura da mãe

rever a família nos vídeos caseiros e sem enquadramento

olhar nos olhos da menina que fui e ler palavras de adeus

tudo se vai

tudo caminha

mesmo sem pernas ou rodas

algumas coisas ficam como

os desenhos de piolhos da avó

os filmes no sótão

e as cartas que a mãe escrevia para ninguém:

Chorei, gritei e ele sumiu por três anos.

também aqui fico

de olho no jardim

coberto de e cimento

e sinto tudo se transformar

em alguma coisa

em qualquer coisa

ou em um tanto de nada.

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a mesma coisa

você volta

uma morada de carne e ossos

os olhos gravaram milhares de paisagens

as mãos enterraram de tudo

as pernas reuniram mapas e trajetos inimagináveis

você olha para elas

você olha para você

e não precisa mais acreditar

o espelho de três faces

não assombra mais

tudo transborda

nada transborda

e tudo e nada

são a mesma coisa.

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rãs

se as narrativas

são espelhos distorcidos

a imagem original

pode ser mais bela

ou mais assustadora

ou simplesmente

um fenômeno natural

como a última chuva de rãs

na cidade de Rákóczifalva a 100 km de Budapeste.

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abram-se as cortinas!

eu:

nós somos o saldo de muitos eventos

muitos olhos foram mergulhados pela morte

para que existíssemos aqui

para que desfrutássemos de um mesmo céu

para que compartilhássemos uma mesma casa

para que nossos corpos pudessem discutir

quando foi que tudo isso começou

ou para onde tudo isso vai

elas:

já nascemos fugindo das trevas

sobrevoamos a mais profunda escuridão c

ruzando territórios tão diversos

que sentimos nossas mentes se desmembrarem

como se a subjetividade fosse um mito.

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Lisa Alves (Araxá, 1981) é escritora e videoartista. É coeditora do portal cultural espanhol Liberoamerica e resenha livros para a revista portu-guesa Incomunidade. Tem textos pu-blicados em diversas antologias, re-vistas, jornais e páginas literárias no Brasil e no exterior.

Autora dos livros Arame Farpado (Nyx/Coletivo Púcaro, 2015) e Quan-do Tudo for Possível (Mirada, 2022), sua obra transita entre a literatura, o cinema e a performance, dialogando com diferentes formas narrativas e estéticas.