José Geraldo Neres
Poemas escolhidos pelo autor
POEMAVIGÉSIMA EDIÇÃO
9/8/20264 min read


escreve no profundo rio:
palavras nas duas vidas não são suficientes,
as águas dormem na hora certa.
escreve o despertar: cinco horas,
pão, arroz, feijão na sombra do cafezal,
capinar a terra, olhar o céu,
pedaços de chuva, os frutos secos.
capinar três vezes o solo,
três infâncias sem conhecer escola,
mata maior que a cabeça.
alimentar a fome com a marmita fria,
sem olhar para os lados.
amoras de flores brancas,
dizem ser pobreza.
duas vidas não são suficientes.
mãos de enxadas dormem no caminhão, boias-frias.
a mãe deitasse sem nos abençoar.
equilibro-me nas pontas dos pés para beijá-la.
****
os dias não conhecem outra trilha:
pão, arroz, feijão,
limpar a terra, olhar o céu,
a mata, na altura do peito.
desconheço meu nascer,
três palavras, uma reza.
não conheço minha irmã,
e a benção das chuvas, na noite geada
agulhas cegam.
duas vidas não são suficientes.
em oferendas, caminhamos descalços,
uma criança ao lado,
entrega uma vela branca,
barriga da fome escreve o nome da mãe.
dizem ser pobreza.
não conheço à noite.
meio-dia, sempre meio-dia.
trinta e três graus, eo sol se recusa a
sentar na cadeira vazia
o avô e pai não olham no espelho,
temos uma amizade estranha não usamos camisas brancas
no deserto, a menina com as mãos fechadas a carregar um pouco d’água.
cajado de cicatrizes, o sol se recusa a fechá-las. olhos brincam nas camisas,
separam lâminas, cachaça, café
a infância, água trêmula,
retira os pelos grisalhos do rosto.
– nāo olhe o sol –
tataravó quer ser filha.
o tempo e as covas moram no mesmo nome.
infâncias de sementes de guaraná nos olhos, pernas, sementes de açaí, brotos de mandioca
vindos do chão.
trinta e cinco graus,
sete horas, meninas nas águas da outra margem, peixes trazem embriões de línguas,
simpatias falecidas no oceano,
tataravó na cadeira, a mascar tabaco
***
rosto deitado,
a sentir as histórias do campo santo.
anterior ao tempo, anterior às palavras:
elas não receberam infâncias, erguem seu corpo a pedir nomes e uma família.
mãos semeadoras de árvores, mãos germinam peixes pássaros.
elas ao redor da tataravó,
cabeças inclinadas em lágrimas de fome de bem-querer.
ela levanta uma a uma,
a trazer o sol para dentro delas.
fala a língua que vem antes, e das comadres dos caminhos antigos.
elas o descanso.
levam as mãos e as cabeças na cachoeira.
cegueira, trança narrativas e fios, do último útero até apagar a morte.
como podemos lhe chamar?
preciso terminar as histórias dos nomes.
antigas águas moram no meu sangue.
***
ela nos cabelos mar,
canoa de rainha das matas.
cabelos brancos ocultam os atalhos
pelas terras das secas, pelas trilhas das matas, pelos espinhos de mandacaru, pelos olhos d'águas.
pequenos rios a abraçá-la a alimentá-la com línguas da natureza.
ela mergulhada peixe,
eles pedras do rio
pedras no cultivo dos pequenos animais,
pedras nas raízes das árvores,
frutos, galhos, sementes,
das canções, das canoas,
circulam as distâncias da carne.
– rachaduras dos pés,
boca, nariz, olhos, ouvidos, seios, umbigo, coxas, dois grandes e pequenos lábios,
vagina – aves saem das canoas da rainha das matas.
ela, olhos vermelhos,
despertam o sol e as cobras.
ela, o encontro do rio a lutar no oceano canoa rainha das matas
nas mãos, sementes de janelas humanas,
filhotes de onças-pintadas.
– a fome mostra seus dentes –
amamenta mãe, retira pedaços de carne.
as felinas choram ao ver o sangue:
lágrimas que curam, ensinam a andar,
o pelo negro n’água, as filhas do tempo são canoas.
idiomas dos ossos, das meninas-peixes,
revelam uma parte das que acenam da outra margem.
***
crianças-mulheres, mergulhadas em milagres anteriores às antepassadas.
cultivar flores, lâminas na terceira margem,
manto vermelho a cobrir peles mãos, a segurar as minhas
– a morte tem medo de andar de mãos dadas –
histórias das serpentes são adagas,
germinam arco-íris,
o chamado das letras, corpo a obedecer,
sêmens do outro lado do mundo.
ervas venenosas, aroma dama-da-noite
mãos ensinam costurar as tranças dos mistérios do sangue.
bem-querer, seios desenham trilhas,
sete vezes sete,
pequenos detalhes aquáticos detalhes: marcas do cultivo.
trezentas sessenta e seis chaves,
o peso das manhãs.
chacras dilaceram correntezas.
criança cabelos enluarados, amarrados na cintura, barro nos pés, no nascimento dos rios,
cartografias das matas, caligrafia dos ossos.
a memória se enterra, espera ressurreição.
– aquelas antes da noite, comadres não podem ser mencionadas, e nem entregar flores –
o testemunho das aves e vozes.
sete mulheres e onças, ele pequeno-antigo.
elas dançam na tempestade e ensinam os peixes a cantar contra a cachoeira
ele dorme em seus colos, elas seguram-nos, ensinam andar.
elas cavam e deixam corpos sete palmos de chão
– a morte tem medo de andar de mãos dadas – acordo tarde, igual à serpente,
adagas, instrutoras das promessas,
das damas-da-noite, avós das bebidas,
fertilidades das lâminas.
na terceira margem, túnica que tudo consome,
mãos a segurar as minhas.
*Inédito do livro: as que acenam da outra margem.
****
José Geraldo Neres (nascido em Garça, SP, em 1966) é um poeta, ficcionista, roteirista, dramaturgo e produtor cultural brasileiro. Reconhecido por sua atuação multifacetada na literatura contemporânea, ele se autodefine como um "arteiro" e atua ativamente como pesquisador independente e editor focado na cultura ancestral afro-ameríndia.