Janet Zimmermann

Sete poemas do livro Ácaros de Ícaro, editora Patuá, 2026

9/8/20262 min read

ÁCAROS DE ÍCAROS

meus livros, Ícaros de papel, 

contêm meu íntimo saber, minhas criações, 

minhas mentiras, minhas invenções

e a tradução da aura da minha aurora.

eu os alimento, e eles, a mim.

sem eles não existo e eles, sem mim, são nada.

por eles insisto, por eles existo. logo, existimos.

mas não passamos de pobres sonhadores que,

por nos alimentarmos de ilusão salvadora,

fingimos que asas temos.

e morremos voando, e vivemos caindo.

no fim restamos empoeirados icários

nas prateleiras do tempo

onde ácaros parrudos

festejam nossos ajoujados

abandonos.

***

DORME, ÍCARO MEU!

“dorme enquanto eu velo...

deixa-me sonhar...”

(Fernando Pessoa)

na fria brisa do breu

um olhar se vai… em busca

de um possível paraíso.

ultrapassa horizontes

e cai, ai! no precipício

dos sonhos suicidas.

a cada sonho abatido,

um tapa de realidade.

viver, mais do que sobreviver,

é alimentar abismos.

dorme, pois, por ora,

enquanto há velas celestiais, por ti, acendidas,

que a nau da Poesia – que te sustém –

navega no acúmulo do teu pranto...

dorme, que o amanhã devolverá tua vida

inda que corroída.

dorme, Ícaro meu!

***

DE APRENDIZ PARA APRENDIZ

não ouse

não ousar

abusar

das palavras

ouse usar

a ousadia

ao pé da palavra

Poesia

***

NICLES

Escrever nem uma coisa

Nem outra –

A fim de dizer todas –

Ou, pelo menos, nenhumas.

Manoel de Barros

dizer absolutamente nada

dar vida à coisa nenhuma

transformar o vazio em verbo

conjugar a coisa alguma

verbalizar o não existente

adjetivar patavinas

dar estética ao nadica de nada

escrever bulhufas tão somente

para que a Poesia exista

talvez em nenhures

ou, ao menos, nalguma ilha lírica não tombada

ou, por força do pensamento,

em nenúfares pantaneiras

apenas coexistir com as palavras

e saborear sílaba por sílaba

o aroma das suas auras vitais

e nada

de nada

mais

***

VÍVERES

olhando para uma palavra sólida

[por oposição ao mar],

recolhi palavras moças

que estavam às moscas.

enchi a cesta aérea!

tenho provisão pra Poesia

para todas as estações

da

PRIMAVERA.

***

ABANDONO

e deu ácaro

no Ícaro

sem asas

Janet Zimmermann

Ícaro voa

enfim

sem as asas

da ilusão

sem o peso

das próprias penas

voa

como os que

para sempre

dormem

***

E UM PEDIDO DE SOCORRO

ASAS,

uma é do poeta

a outra é do livro

um não voa sem o outro

e ambos seguem juntos

unialados

mas é o amor pela Poesia

o motor propulsor

não nos deixem cair

não nos deixem cair

não nos deixem

caídos

caiados

esquecidos

juntem-nos em tempo

da última prateleira

da última estante

da última

livraria

.

***

Janet Zimmermann (Janete Izabel Zimmermann Teixeira) é natural de Catuípe/RS e radicada em Campo Grande/MS. Ácaros de Ícaros – Metapoesia é seu quinto livro publicado. Com Pétalas Secretas (Patuá) foi vencedora do Prêmio Guavira de Literatura/Poesia/2017. Tem poemas e crônicas em antologias, jornais, blogs e revistas brasileiras. Seu nome literário consta nas listas ‘Poetas do Rio Grande do Sul’ e ‘Poetas de Mato Grosso do Sul’ - portal de Poesia Ibero-Americana Antonio Miranda; na Antologia ‘As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira’, do eterno poeta Rubens Jardim; e na 4ª edição do livro ‘História da Literatura Brasileira, da carta de Caminha aos Contemporâneos’, do poeta da Academia Brasileira de Letras, Carlos Nejar. Foi Editora Assistente e cocriadora da Revista Piúna/UBE-MS. É membro correspondente da AFESMIL (Academia Feminina Sul-Mineira de Letras).

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