Jane Eyre (Charlote Bronte) - Livro fundamental

Resenha Ana Lúcia Franco

PROSA LITERÁRIANONA EDIÇÃO

1/21/20266 min read

O livro Jane Eyre, da escritora inglesa Charlote Bronte (1816-1855), é um típico romance inglês de formação: foco no desenvolvimento moral, psicológico e social da protagonista, da infância à idade adulta. O romance mescla ficção com elementos autobiográficos da autora, tanto que foi lançado em 1847 com o título Jane Eyre, uma autobiografia, sob um pseudônimo masculino. Era inadmissível mulheres escreverem romances na Inglaterra Vitoriana.

O livro é uma espécie de autobiografia ficcional, gênero literário que se desenvolveu no século XX por autoras como Marguerite Duras, Simone de Beavoir, Virginia Woolf, etc. Seria um reducionismo rotular estas escritoras de feministas; eram vozes de uma época que se iniciou muito antes, com Jane Eyre, de Charlote Bronte, Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronte, ou mesmo anteriormente, com Jane Austen.

Jane Eyre situa-se também como um realismo vitoriano, com elementos góticos, oriundos sobretudo do caráter sombrio de alguns personagens, cenários e acontecimentos, como sonhos, intuições, presságios e fatos misteriosos. O livro destaca-se por uma narrativa vigorosa, que percorre com nuances poéticas camadas psicológicas dos personagens, descreve cenários, costumes, localidades, personalidades da Inglaterra Vitoriana.

O livro se inicia na infância de Jane Eyre, órfã de pai e mãe, que passou a morar com sua tia, Sra. Reed e seus primos, John, Elisa e Georgina, na confortável propriedade de Gateshead Hall, no norte da Inglaterra, num ambiente que lhe era completamente hostil.

Jane era desprovida de afeto e respeito por familiares e criados, por iniciativa principalmente de sua tia por quem era tida como uma criança perversa e dissimulada, da qual os outros não deveriam se aproximar. Jane com frequência entrava em choque com os primos, que continuamente a humilhavam e excluíam. Em certa ocasião, escutou estas palavras da tia para o primo: “Não fale dela comigo, John. Eu lhe disse para não chegar perto dela; não vale a sua atenção. Não quero que você nem suas irmãs se associem a ela” no que Jane retrucou em alto e bom som: “São eles que não estão à altura de se associar comigo” (pag.61). Jane possuía “de ´fábrica” uma selvageria que não a deixou se submeter às humilhações e mantinha sua dignidade e amor próprio. Ela, apenas uma criança, sabia que não era o que diziam, não se submetia ao que queriam que ela fosse.

A antipatia de sua tia era inata e se alastrava aos outros com quem Jane convivia e não havia o que Jane pudesse fazer para agradar ou colher alguma migalha de afeto. Anos mais tarde, no leito de morte da Sr. Reed, Jane tentou se aproximar afetivamente da tia, que, nem à beira da morte, abriu mão de sua antipatia.

Jane vivia em isolamento afetivo, esquecida, relegada, quando não era posta em isolamento físico, de castigo, no “quarto vermelho”, que era de seu falecido tio, o que atiçava seus medos e sua imaginação. Para sobreviver a tal contexto, Jane dedicava-se ao desenho e à pintura, e tinha certa proximidade com a criada Bessie.

Não eram raros os confrontos diretos com a tia. Ingenuamente, Jane rebelava-se contra os xingamentos da tia. Defendia-se dizendo que mentirosa e dissimulada era a tia. Jane ofendia-se com as injustiças, era capaz de sentir e de se rebelar, o que por um lado manteve incólume sua dignidade. Por tanta "falta de humildade", por tanto "atrevimento", a tia mandou Jane para uma escola de órfãs, na obscura e sinistra propriedade Lowood, no norte da Inglaterra, onde Jane passou a estudar e anos mais tarde se tornaria professora.

Lowood era administrada pelo senhor Brocklehurst, que tinha por lema impor restrições e sacrifícios às alunas como meio de “sublimação moral”. As alunas eram constantemente privadas de alimentos e era exigida austeridade nos modos e na vestimenta. Em contrapartida, as filhas e esposa do administrador trajavam-se luxuosamente e comiam bem. Tais contrastes não passaram despercebidos pela jovem Jane, que logo se afeiçoou à colega Helen Burns, sua primeira amiga, que viria a falecer de tuberculose dadas as precárias condições físicas da escola.

Jane via a amiga Helen ser constantemente humilhada e maltratada por uma professora, sem compreender o porquê Helen não revidava e se submetia aos maus tratos. Em certa ocasião, Helen esclareceu: “É muito melhor tolerar com paciência uma dor que ninguém mais sente do que realizar uma ação precipitada (…) Além disso, a Bíblia nos diz para pagar o mal com o bem”. (Pag. 105). Isso era absurdo para Jane. Entretanto, Helen teve muita influência moral em Jane, o que fez com que sua rebeldia fosse um pouco domesticada, a ponto de não a colocar em confusões desnecessárias.

Lowood não era um ideal de escola, mas Jane aproveitou ao máximo as oportunidades de estudo e formação, tanto que se tornou professora, tendo lecionado na escola por dois anos. Influenciada por Helen e por uma professora, Srta. Temple, Jane manteve um bom comportamento o que a auxiliou a obter uma vaga de preceptora de uma menina, filha do sr. Rochester, na bela propriedade de Thornfiel Hall, para onde Jane se encaminhou.

Apesar de muito distante de um ideal de beleza (Jane era descrita como de aparência sem graça, miúda como uma criança, de modos e trajes simples), o rico Sr. Rochester apaixonou-se perdidamente por Jane e diante dela se sentia à vontade, sua presença exalava confiança, conforto. "Uma pessoa singular”, era a opinião do Sr. Rochester, impressionado com o portifólio de desenhos que Jane trouxe de Lowood. Jane era desenhista e pintora inata, que tinha a arte como refúgio nas horas solitárias; nas férias no internato onde não tinha para onde ir, Jane desenhava. Eram pinturas de caráter místico, que encantaram o Sr Rochester. Sobretudo a pintura intuitiva em que Jane retratou o monte Latmos, “Onde você viu o monte Latmos?”, O Sr. Rochester perguntou à Jane, com um vigor quase desesperado. O monte Latmos, segundo a mitologia grega, é onde a deusa Selene, da lua, teria seduzido Endimião.

O Sr. Rochester teria sido enfeitiçado por Jane? Provável. Mistério. Jane era um mistério que transcendeu os meios nos quais foi criada. Subverteu as expectativas nela projetadas. Para a tia que a criou, Jane não tinha direito a afeto, a atenção, a respeito, tampouco à herança que um tio distante a legou, a que posteriormente teve acesso. Imaginem se Jane tivesse acreditado que era destituída de merecimento. Jane nunca acreditou. Teve convicção de seu valor e de seu merecimento. Jane Eyre é a certeza de que somos mais do que os papéis que a princípio nos cabem. Que temos a possibilidade de sermos únicos ou diferentes do que nos foi projetado pela sociedade da qual somos oriundos, pelas pessoas que nos criaram. Jane é um sopro de esperança. Morram os que odeiam esta palavra: esperança.

A paixão do Sr. Rochester era recíproca por parte de Jane. Mas, no primeiro momento, não puderam ficar juntos. Não darei tanto spoiler. Pulo para a parte em que Jane poderia se tornar amante dele, e isso lhe foi solicitado. Teria sido mais fácil, mais cômodo. Mas, o que fez Jane? Manteve intacta sua dignidade. Desobedeceu o Sr Rochester, ganhou o mundo, passou por toda a sorte de dificuldades, de incertezas. Deixou seu espírito a conduzir. Seu espírito nada tinha de embotado, medroso. Um espírito que ousou sua arte, sua intuição, seus sonhos, seus dons premonitórios. Este espírito a guiou num caminho de altos e baixos, de reviravoltas e incertezas. Um espírito inquieto, corajoso, que começou não se submetendo à tia que a criou, depois aos homens que quiseram determinar seu destino: Sr. Rochester, Sr. Reeves, seu primo, que a queria como missionária na ´Índia. O que poderia ser uma opção para Jane. Mas ela fez o que quis. Ela sabia o que queria, sabia quem era, mesmo quando, ainda criança, a quiseram convencer de que era um ser humano ruim e de baixa categoria.

Jane Eyre, de Charlotte Bronte, é um livro muito especial para mim. Li por indicação de uma professora da Cultura Inglesa quando tinha pouco mais de quinze anos. Li o livro na edição original, em Inglês. Ler um livro em outra língua pode ser um desafio, por mais que se ache conhecer a língua estrangeira. Encarei este desafio com cuidado. Parava, consultava dicionários, glossários, gramáticas. Nenhum aspecto me fugiu. Nada do que numa tradução ou numa leitura corrida pode se perder. O livro gravou-se em mim. Posteriormente, li O morro dos Ventos Uivantes, de Emily Bronte, e Jane Austen, mas nenhum deles foi tão marcante quanto Jane Eyre. Relê-lo nesta fase da vida sinalizou o quanto mudei. O que antes pareceu tão difícil, hoje pareceu mais simples, mais “clichê”. Nem assim, Jane Eyre perdeu sua importância para mim. A excelência narrativa do livro repercute: é um aprendizado, uma emoção. Encerrei a leitura de Jane Eyre como a sensação de uma epifania literária. Mais que um exercício intelectual, uma vivência profunda.