Geraldo Lima
Três mini contos do livro inédito Lascas e Outros Balbucios
DÉCIMA SÉTIMA EDIÇÃOPROSA LITERÁRIA
6/29/20263 min read
TRÊS MINICONTOS DE GERALDO LIMA
CENA
Tudo acontece assim, sem ensaio, sem marcação cênica, sem um gestual previsto. Não, não, não. Estão ali, e de repente a ação eclode, palavras são disparadas a esmo, um querendo anular o outro, até que a mão se ergue em pleno destempero e aciona o mecanismo capaz de arruinar qualquer história.
Há um intervalo de silêncio aí. De apatia desesperada. Um momento em que não se sabe mais o que dizer nem que gesto executar. Um momento que se esgota rápido.
O tempo não estanca sua marcha implacável, e tudo continua a desenrolar-se num realismo bruto e seco. A consciência tampouco se fecha num quarto escuro, louca e insensível. Pelo contrário, aflora-se ainda mais, ampliando, desse jeito, a dramaticidade do ato, o pavor e o princípio de remorso.
O corpo, espasmódico no piso da sala, não é uma simples sensação. Assim como a mão direita dela, fraca e trêmula, pendendo pela força da gravidade e pelo peso do metal ainda quente, não simula realidade alguma.
DOIS
Aí ela inventava umas coisas, meio que no desespero. Quanto tempo isso dura?, devia se perguntar, enquanto tinha aqueles insights, aquelas malícias próprias de uma mulher tentando fincar as raízes do amor na areia movediça de encontros furtivos. Ele chegava, ela abria a porta, e lá estava a surpresa, a isca, a invenção do dia, o jeito de cativá-lo para que aquilo durasse pelo menos um dia a mais, aquele resto de tarde, quem sabe? Colocava uma música lenta, romântica de partir o coração em pedacinhos, colava o corpo ao dele, dança comigo?, e então dançavam, quase sem sair do lugar, apenas sentindo, sentindo, sentindo. Ela queria que aquilo durasse uma eternidade, mesmo sabendo que iria acabar, acabar ainda reverberando, trincando por dentro, chamuscando a carne, assombrando a memória. Talvez por isso tivesse aqueles achados só para não afundar definitivamente no desespero, na sensação de finitude, no magma que sufoca até a morte. Você me carrega no colo até o quarto?, ela lhe pediu na última vez em que se encontraram.
DONA DE SI
Era uma mulher livre – no sentido pleno da palavra. Dela, ele se recorda, principalmente, da força que a movia sempre para longe, como ave migratória.
Ele a conheceu assim, um horizonte amplo e indefinido.
– Me pergunto às vezes: realmente a conheci? Estou falando no sentido de ter mergulhado fundo na sua vida.
Certamente não a conheceu de fato, por pouco não lhe digo. Quem poderia apreender inteiramente sua alma movediça, essa que nos escapava à menor aproximação?
– Nunca conhecemos o outro totalmente, seja quem for – meio que balbucio.
Ainda que o amasse, ela não conhecia fronteiras nem amarras. Era uma dessas capazes de nos fazer sofrer mesmo em pleno gozo, tal a sensação de fluidez do seu espírito e o estado sempre fugaz do seu corpo. Um corpo que, estando em nossos braços, já escorregava para outro plano, outros desvãos de desejos e sonhos.
– Morri no dia em que ela me deixou – ele me revela com a voz ainda doente, cravada de pus e dor.
Essa sua voz sem cura atravessa minha pele e reverbera em minha mente. Isso que, de certa maneira, é uma incisão profunda na memória, como essas que o vento, ao longo de séculos, milênios, inscreve nas rochas à beira dos penhascos.
[Estes minicontos fazem parte do livro inédito Lascas & outros balbucios]
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GERALDO LIMA é escritor, dramaturgo e roteirista. Nasceu em Planaltina, GO, em 1959, e mora no DF. Tem alguns livros publicados, entre eles: A noite dos vagalumes (contos, Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, FCDF, 1998), UM (romance, LGE Editora, 2009 ), Baque (contos, LGE/FAC, 2004), Nuvem muda a todo instante (infantil, LGE, 2007), Tesselário (minicontos, Selo 3x4, 2011), Uma mulher à beira do caminho (contos, Editora Patuá, 2017), Quem foi que soltou os cavalos no campo de trevas (romance, Editora Patuá, 2026) etc. Tem textos publicados em jornais, suplementos literários, revistas, como Correio Braziliense, Correio das Artes, Jornal de Minas, Jornal Opção, Jornal Rascunho, revista Traços, revista Diversos Afins etc. É autor do roteiro do longa de ficção O colar de Coralina, dirigido por Reginaldo Gontijo. Coautor da peça Pharmácia Periphérica [encenada pela Oficina do Teatro de Periferia]. Autor das peças Dora; Tom White [inéditas]; Error [encenada em 1987]; Trinta gatos e um cão envenenado [encenada em 2016]; Antes que ela chegue [encenada em 2026]. Contato: gerallimma@gmail.com.