Flora Figueiredo

Quatro poemas extraídos do livro Amor a Céu Aberto, Ed. Novo Século, 2010

POEMADÉCIMA QUINTA EDIÇÃO

5/2/20262 min read

Sombra

Tem um lugar no meu quarto

em que a luz não entra.

Tudo que se tenta

não dá certo.

Em vão tirar telha,

abrir janela,

furar o teto.

Postou-se ali um escuro

soturno e quieto,

recentemente diagnosticado.

É uma fração de passado

que o tempo não leva

para não rever fatos,

e que a vida ceva

porque é da vida conservar mandatos.

Para que o escuro seja então cassado,

é preciso um clarão qualificado,

capaz de sorvê-lo em sucção;

que durante o processo de deglutição

use artimanha,

até transformá-lo em cavidade.

É nesse vão que vai florar felicidade,

parida da entranha do bicho-papão.

Figueiredo, Flora. Amor a céu aberto (Portuguese Edition) (p. 58). (Function). Kindle Edition.

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Teorema

Alguma coisa saiu errada

na minha Matemática.

Não sei se foi excesso de poesia,

dose demais de fantasia,

ou simplesmente falta de prática.

Tenho certeza que somei,

multipliquei pra dividir

em partes justamente desiguais.

Subtraí só de mim,

pra que pudesse

lhe caber um tanto a mais.

Quando chego ao final da operação,

não consigo decifrar o que ocorreu.

A soma partiu, saiu devedora.

O resultado: noves fora, eu.

Figueiredo, Flora. Amor a céu aberto (Portuguese Edition) (p. 53). (Function). Kindle Edition.

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Vento Novo

Estava enrolada

em teias e traças,

debaixo da escada,

lá no subsolo da casa fechada.

Começava a tomar ares de desgraça.

Manchada do tempo, fenescia a esperar que um dia

alguma coisa acontecesse.

Antes que se perdesse completamente,

sentiu passar um vento cor-de-rosa.

Toda prosa, espanou a bruma,

pintou os lábios e sem vergonha nenhuma

caprichou no recorte do decote.

A felicidade volta à praça

cheia de dengo e de graça,

com perfume novo no cangote.

Figueiredo, Flora. Amor a céu aberto (Portuguese Edition) (p. 38). (Function). Kindle Edition.

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Navegador

Desenhei um oceano

para ser calmo, claro e plano.

Ele começou a se insubordinar:

inventou um movimento

só pra molhar

meu bom comportamento.

Tive que me acostumar às ondulações.

Outra de suas diversões

foi me fazer mergulhar sempre mais fundo,

na intenção de me ver esfolar

no lodo que atapeta o chão do mundo.

Com o tempo, perdeu o senso de todo,

encalpelou, cresceu,

engoliu o castelo de areia que era meu.

Como rebelião,

reforço o nó de marinheiro e conduzo

meu veleiro ávido, contra a correnteza.

O oceano vai com certeza se irritar

e querer derrubar a embarcação.

Em vão, pois dessa vez ele perde.

Aprendi a nadar o suficiente

para emergir no exato lugar

onde a terra se faz quente,

onde o mar é verde.

Figueiredo, Flora. Amor a céu aberto (Portuguese Edition) (p. 37). (Function). Kindle Edition.