Fernanda Young
Crônica Desejo de Mulher, publicada no jornal O Glogo, em 25 de fevereiro de 2019
CRÔNICADÉCIMA QUINTA EDIÇÃO
5/2/20262 min read


O desejo da mulher
Trinta anos após o mais profundo estudo sobre os desejos humanos, Freud se questionava: “Afinal, o que querem as mulheres?” Os homens sabem nada sobre as mulheres, isso é certo. Mesmo porque a mulher é esperta o bastante para esconder o que faz dela diferente.
Revelar para quê? Colocar tudo em jogo? Dar o ouro ao bandido? Com tantos homens escritores, imaginem o quanto custa, para uma escritora, guardar um segredo como esse.
As mulheres sabem o que os homens querem. Simples eles são, muito simples. E como opções de um harém lotado, nas quais as transformaram, mulheres sabem também tudo sobre as outras — e são muitos e muitos quereres.
Mas caso fosse necessário escolher um desejo, que todas pudessem partilhar, creio que seria: descansar. Todas estamos cansadas. Porque cansa a arte de dissimular tensões, ser adestrada a sair-se bem em tantas camadas de obrigações e contingências, das mais simples cólicas mensais, aos mais absurdos abusos diários. Cansadas da luta pela beleza, da disputa por uma voz, de tudo ser tão delicado e importante.
Cuidar das crianças, cuidar da casa, ser econômica. Saber que seus sonhos, muitos deles, por fim, serão sabotados pelo tempo. E elas terão de fingir que alguma sabedoria foi adquirida, em troca da juventude, para fazer a ansiedade virar paz de espírito.
A mulher quer descansar, mas o que ela sente não é cansaço, é raiva. Por ter sido tão tonta em gastar a vida atrás de sutilezas. Quando poderia ser menos carente e exigir logo algo grande, como não precisar fazer nada, por exemplo. Que ideia louca da mulher, que, num movimento de conquistas, cisma que precisa trabalhar. E lá vai ela, munida de sua teimosia e disciplina, por 10, 20, 30 anos, até poder dizer: agora sou ouvida. Agora sou independente.
Mas ela foi entendida? Ela contou as suas cicatrizes, debochou de suas falhas, fez declarações de amor, atingiu os que amava. Mas alguém a entendeu? Não.
A mulher, sobretudo essa aqui, quer dormir por 11 horas seguidas. Quer um descanso, porque pensou demais, e em assuntos de sobra.