Essência da Poesia

Ensaio de Henriqueta Lisboa extraído do Livro Prosa Completa, Editora Peirópolis, 2020. Coletânea organizada por Wander Melo Miranda e Reinaldo Marques.

PROSA LITERÁRIADECIMA TERCEIRA EDIÇÃO

3/26/20264 min read

ESSÊNCIA DA POESIA

Embora o poeta seja indicado – et pour cause – como perene sonhador, a poesia é testemunho de plenitude, não de carência. O que o poema revela é sempre menos do que conserva o poeta em sua potencialidade. Toda expressão artística redunda de superabundância de vida interior, o que explica a insatisfação do artista abandonando a obra, apenas realizada, por novas tentativas.

A marca da obra de arte parece mesmo ser esta: um como enunciar de incalculável riqueza oculta, céu prometido através de tormentosa atmosfera. O poeta que sonha e quer não se compraz senão com o que dá de si próprio. Ao oferecer-nos a água que transborda da fonte – essa a que os místicos denominam o centro da alma –, não lhe conhece toda a limpidez. Desde que os seus sentidos entram em jogo, é natural que a fonte se turve, para adquirir, numa terceira etapa, a necessária transparência. Daí, por certo, o ambiente de mistério que envolve a poesia. A comunicação do poeta, por mais pura que seja, nunca é absoluta. A síntese exigida na obra de arte, em benefício, aliás, de sua nitidez, apaga e elimina os processos analíticos que a precederam e fermentaram, indispensável levedura. Essa fase caótica da poesia é também afirmativa, porquanto indispensável ao seu desenvolvimento dentro da ordem criadora.

A metáfora, por exemplo, substituindo um valor por outro, possui certa energia de que se percebe a irradiação e o calor, e cuja sede permanece aquém da linguagem articulada. As ideias, ou intuições, que servem de base à imagem, assemelham-se a guerreiros vencidos que se infiltram no seio dos vencedores e fazem prevalecer seus tributos, numa como recuperação. Ou, ainda, às colunas líquidas indistintas que sustentam a água de superfície. Se a letra mata, o espírito vivifica. Isso porque a palavra não é somente comunicação mas, simultaneamente, instrumento de solucionar conflitos humanos, de aclarar, de depurar estados de alma. Para dar testemunho de si próprio ou do mundo em que se integra, o Poeta está pronto a represar, a restringir a torrente de seus sentimentos, a escolher, entre as vagas e confusas intuições, nascidas umas das outras ou umas após outras, a mais representativa, às vezes a mais estranha de todas, capaz, entretanto, de perpetuar as outras por meio de sugestão e insinuação.

A sombra sempre proporcionou efeitos de luz. Os intervalos e as pausas fazem parte integrante da música. Não participará também do silêncio, desse inefável silêncio a pairar entre um e outro verso, uma e outra sonoridade vocabular, em obscura correspondência à palpitação do ritmo, recuo de maré entre duas investidas de onda, a essência da poesia? Não estará no próprio mistério a essência da poesia?

Mas que mistério é esse, que se condiciona a circunstâncias de ambiente? Que silêncio é esse, que depende do êxito das palavras?... Angustiosas questões! No íntimo, desconhece o poeta a sua mensagem, antes de conseguir explicar-se através da obra. Se a explicação for cabal, deixará de ser artística para ser científica. Se for insuficiente, morrerá da própria aridez. Em caso de prosaísmo, há violação do mistério, esse clima delicado. Em caso de hermetismo, sacrifica-se o mistério ao desconhecido, ao problemático, ao inexistente. O perfeito silêncio pertence à mística, a informação elucidativa compete à ciência. Nas auras do mistério reside a poesia, a equilibrar-se entre o obscuro e o revelado, a palavra e o silêncio. Fecundo silêncio significativo como a palavra mesma, limitando-a e prolongando-a na sua fluidez psicológica, aureolando-a, esfumando-lhe a densidade e o contorno, protegendo-a da claridade crua, repetindo-lhe o eco em tremores tênues.

Sim, o poeta apascenta o seu rebanho no meio de lírios. É através do jogo das imagens que ele chega a falar de coisas infinitas, assim como nos fala Deus através da beleza do universo.

A paisagem evoca solidão porque é de fato, apenas, uma parte do cosmos. O poema, no mais alto sentido espiritual, não é senão uma parte do todo, que é o centro da alma do poeta, por sua vez ligada à grande fonte da vida.

Dizer que o mistério da poesia permanece, nas pegadas do texto poético, não é negar a arte como técnica, mas reafirmá-la como tal. A palavra tem maravilhoso poder mágico através do poeta e não em si mesma. Vale como presságio, augúrio, fio que conduz aos mais espessos dédalos, na medida de sua decantação. Quanto mais depurada, mais profunda é a mensagem de que se faz veículo.

“Un poema, en su tejido último, es algo imprevisible, porque lo es la fluencia psíquica que lo determina”, diz Carlos Bousoño, precisamente em Teoría de la expresión poética, livro admirável no qual oferece explicação do fenômeno lírico. E ainda: “El poema en su desarrollo no suele transmitirnos algo fijo o inalterable, sino la fluencia de un rico y complejo contenido del alma. Misteriosamente, son las palabras mismas del poema las que originan esa fluencia: el primer sintagma lírico actúa como la piedra que, arrojada a un estanque, provoca un movimiento de ondas concéntricas”.

A possibilidade de definir-se a poesia como comunicação de uma fluência, e não de um estado, acrescenta ao seu mistério fundamental outros estranhos véus de estremecimento contínuo.

Lisboa, Henriqueta. Henriqueta Lisboa : Prosa: Obra completa v. 3 (Henriqueta Lisboa : Obra completa) (Portuguese Edition) (pp. 26-28). (Function). Kindle Edition.

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Henriqueta Lisboa (1901–1985) foi uma das grandes poetas brasileiras do século XX. Nascida em Lambari, Minas Gerais, destacou-se não apenas como poeta, mas também como ensaísta, tradutora e professora. Sua obra é marcada por linguagem delicada, musicalidade, profundidade espiritual e reflexão sobre o tempo, a morte, a infância e a condição humana.

Ligada ao modernismo, mas com voz muito própria, Henriqueta construiu uma poesia mais introspectiva e lírica do que experimental. Também teve papel importante na vida intelectual brasileira, colaborando com estudos literários e traduções. Entre seus livros mais conhecidos estão O menino poeta e Montanha viva. Hoje, é reconhecida como um nome essencial da literatura brasileira.