Ensaio da filósofa espanhola Maria Zambrano

Primeiro capítulo do livro Filosofia e Poesia, tradução Fernanda Miranda, ed. Moinhos

NONA EDIÇÃOPROSA LITERÁRIA

12/8/202518 min read

Pensamento e poesia

Apesar de que em alguns mortais afortunados, poesia e pensamento tenham podido aparecer ao mesmo tempo e paralelamente, apesar de que em outros ainda mais afortunados, poesia e pensamento tenham podido ocorrer em uma única forma expressiva, a verdade é que ao longo da nossa cultura, pensamento e poesia se enfrentam com toda gravidade. Cada um deles quer eternamente para si acolher a alma. E seu duplo puxão pode ser a causa de algumas vocações malsucedidas e de muita angústia sem fim, inundadas de esterilidade.

Porém, há outro motivo mais decisivo que não podemos abandonar e é que hoje poesia e pensamento nos aparecem como duas formas insuficientes; e nos surgem duas metades do homem: o filósofo e o poeta. Não se encontra o homem completo na filosofia; não se encontra a totalidade do humano na poesia. Na poesia encontramos diretamente o homem concreto, individual. Na filosofia, o homem em sua história universal, em seu querer ser. A poesia é encontro, dom, achado pela graça. A filosofia busca, é requerimento guiado por um método.

É em Platão onde encontramos a luta com todo o seu vigor entre as duas formas da palavra, com a resolução triunfal para o logos do pensamento filosófico, decidindo o que poderíamos chamar “a condenação da poesia”; inaugurando o mundo do Ocidente, a vida penosa e à margem da lei, da poesia, seu caminhar por estreitas sendas, seu andar errante e por vezes extraviado, sua loucura crescente, sua maldição. Desde que o pensamento consumou sua “tomada de poder”, a poesia foi viver nos subúrbios, arisca e desterrada, dizendo aos gritos todas as verdades inconvenientes; terrivelmente indiscreta e rebelde. Porque os filósofos ainda não governaram nenhuma república, e a razão estabelecida por eles exerceu um império decisivo no conhecimento, e aquilo que não era radicalmente racional, com curiosas alternativas, ou sofreu sua fascinação ou se alçou em rebeldia.

Não tratamos de fazer aqui a história dessas alternativas, ainda que já seria de grande necessidade, principalmente estudando suas íntimas conexões com o resto dos fenômenos que imprimem caráter a uma época. Antes de tal empresa, vale mais esclarecer o fundo do dramático conflito que motiva tais mudanças; vale mais olhar a luta que existe entre filosofia e poesia e definir um pouco os termos do conflito em que um ser necessitado de ambas se debate. Vale, sim, a pena manifestar a razão da dupla necessidade irrenunciável de poesia e de pensamento e o horizonte que se vislumbra como saída do conflito. Horizonte que ao não ser uma alucinação nascida de uma singular avidez, de um obstinado amor que sonha uma reconciliação para além da disparidade atual, seria simplesmente a entrada em um mundo novo de vida e conhecimento.

“No princípio era o verbo”; o logos, a palavra criadora e ordenadora, que põe em movimento e legisla. Com estas palavras, a mais pura razão cristã se encadeia com a razão filosófica grega. A vinda à terra de uma criatura que carregava em sua natureza uma contradição extrema, impensável, de ser ao mesmo tempo divino e humano, não deteve com seu divino absurdo o caminho do logos platônico-aristotélico, não rompeu com a força da razão, com sua primazia. Apesar da “loucura da sabedoria” flagelante de São Paulo, a razão como última raiz do universo continuava de pé. No entanto, uma coisa nova tinha advindo: a razão, o logos era criador, diante do abismo do nada; era a palavra de quem, falando, tudo podia. E o logos ficava situado para além do homem e para além da natureza, para além do ser e do nada. Era o princípio para além de todo o principiado.

Qual raiz pensamento e poesia têm em nós? Por agora, não queremos defini-las, mas achar a necessidade, a extrema necessidade que as duas formas da palavra preenchem. A que amor necessitado elas vêm a satisfazer? E qual das duas necessidades é a mais profunda, a nascida em zonas mais fundas da vida humana? Qual a mais imprescindível?

Se o pensamento nasceu da admiração apenas, segundo nos dizem textos veneráveis1, não se explica com facilidade que fosse tão rapidamente se plasmar na forma de filosofia sistemática; nem que tenha sido uma de suas melhores virtudes a da abstração, essa idealidade conseguida no olhar, realmente, porém um gênero de olhar que deixou de ver as coisas. Porque a admiração que nos produz a generosa existência da vida a nossa volta não permite um desprendimento tão rápido das múltiplas maravilhas que a suscitam. E assim como a vida, esta admiração é infinita, insaciável e não quer decretar sua própria morte.

Porém, encontramos em outro texto venerável – mais venerável pela sua tripla auréola de filosofia, poesia e... “Revelação” –, outra raiz de onde a filosofia nasce: se trata da passagem do livro VII da República, em que Platão apresenta o “mito da caverna”: a força que origina a filosofia ali é a violência. E agora, sim, admiração e violência juntas como forças contrárias que não se destroem, explicam-nos esse primeiro momento filosófico em que já encontramos uma dualidade e, talvez, o conflito originário da filosofia: o ser primeiramente pasmo, extático diante das coisas, e o violentar-se em seguida para se livrar delas. Diria-se que o pensamento não toma a coisa que tem diante de si senão como pretexto, e que seu primitivo pasmo se vê em seguida negado e talvez traído por essa pressa de se lançar a outras regiões que lhe fazem romper seu êxtase nascente. A filosofia é um êxtase fracassado por uma distensão. Que força é essa que causa a distensão? Por que a violência, a pressa, o ímpeto de desprendimento?

E assim já vemos mais claramente a condição da filosofia: admiração, sim, pasmo diante do imediato, para arrancar-se violentamente dele e se lançar a outra coisa, a uma coisa que se deve procurar e perseguir, que não nos é dada, que não entrega sua presença. E aqui já começa o penoso caminho, o esforço metódico por essa captura de alguma coisa que não temos e necessitamos ter, com tanto rigor, que faz nos arrancarmos daquilo que já temos sem o ter perseguido.

Sem indicar por enquanto qual a origem e significação da violência, fica suficiente afirmar que para que certos seres daqueles que ficaram presos na admiração originária, no primitivo zaumasein, não se resignem diante do novo giro, não aceitem o caminho da violência. Alguns dos que sentiram sua vida suspensa, sua vista enredada na folha ou na água, não puderam passar ao segundo momento em que a violência interior faz fechar os olhos à procura de outra folha e de outra água mais verdadeira. Não, nem todos foram pelo caminho da verdade trabalhosa e ficaram atados ao presente e ao imediato, ao que entrega sua presença e doa sua figura, ao que treme de tão próximo; eles não sentiram violência alguma ou talvez não sentiram essa forma de violência, não se lançaram à procura do ideal, nem se dispuseram a subir com esforço o caminho que vai do simples encontro com o imediato até aquilo permanente, idêntico, Ideia. Fieis às coisas, fieis à sua primeira admiração extática, nunca se dedicaram a se desgarrar delas; não puderam, porque a própria coisa já tinha se fixado neles, estava no seu interior. O que o filósofo perseguia, o poeta, de alguma maneira, já o tinha dentro de si; de alguma maneira, sim, de qual diferente maneira.

Qual era essa diferente maneira de já ter a coisa, que fazia justamente que não pudesse nascer a violência filosófica? E o que produzia, pelo contrário, um gênero especial de desassossego e uma plenitude inquietante, quase terrível? Qual era este possuir doce e inquieto que acalma e não basta? Sabemos que se chamou poesia – e talvez algum outro nome apagado? E desde então, o mundo se divide em dois caminhos. O caminho da filosofia, em que o filósofo impulsionado pelo violento amor ao que buscava abandonou a superfície do mundo, a generosa urgência da vida, baseando em uma primeira renúncia para a posterior posse total. O ascetismo tinha sido descoberto como instrumento desse gênero de ambicioso saber. A vida, as coisas, tudo seria exprimido de uma maneira implacável, quase cruel. O pasmo primeiro será transformado em interrogação persistente; a inquisição do intelecto começou seu próprio martírio e também o da vida.

O outro caminho é o do poeta. O poeta não renunciava nem simplesmente procurava, porque já tinha. Tinha aquilo diante de si, diante dos seus ouvidos, olhos e tato, aquilo que aparecia; tinha o que olhava e escutava, o que tocava, mas também o que aparecia nos seus sonhos, e seus próprios fantasmas interiores misturados de tal forma com os outros, com os que vagavam lá fora, que juntos formavam um mundo aberto onde tudo era possível. Os limites se alteravam de tal modo que por fim não existiam. Os limites do que o filósofo descobre, por sua parte, vão se delimitando e diferenciando de tal maneira que já se formou um mundo com sua ordem e perspectiva, onde já existe o princípio e o “principiado”; a forma e o que está sob ela.

O caminho da filosofia é o mais claro, o mais seguro; a filosofia venceu no conhecimento, pois conquistou algo firme, algo tão verdadeiro, compacto e independente que é absoluto, que não se apoia em nada e é apoio para tudo. A aspereza do caminho e a renúncia ascética foi plenamente compensada.

Em Platão, o pensamento, a violência pela verdade, enfrentou uma batalha tão tremenda como a poesia; se se sente seu estrondo em inúmeras passagens de seus diálogos, diálogos dramáticos em que as ideias lutam, e sob elas há lutas ainda maiores. A maior delas, talvez, é a de se ter decidido pela filosofia quem parece ter nascido para a poesia. E tanto é assim que em cada diálogo resvala nela, comprovando sua razão, sua justiça, sua fortaleza. Mas também é ostensivo que, nas passagens mais decisivas, quando já parece esgotado o caminho da dialética e como um mais além das razões, irrompe o mito poético. É assim na República, em O banquete, no Fédon... de tal maneira que ao terminar a leitura desse último, o mais impressionante e dramático de todos, fica-nos a dúvida sobre a íntima verdade de Sócrates. E a ideia do mestre de rua, sua vocação de pensador andarilho, vacila. Qual era o seu íntimo saber, qual a fonte da sua sabedoria, qual a força que manteve tão bela e clara sua vida? Quem diz que a “filosofia é uma preparação para a morte” abandona a filosofia ao chegar nos seus umbrais e, já em vias de atravessá-los, faz poesia e zombaria. É que a verdade era outra? Já tocava alguma verdade para além da filosofia, uma verdade que somente podia ser revelada pela beleza poética; uma verdade que não pode ser demonstrada, mas sim sugerida por esse mais que expande o mistério da beleza sobre as razões? Ou é que as verdades últimas da vida, as da morte e do amor, são, embora perseguidas, achadas por doação, por achado venturoso, pelo que depois se chamaria “graça” e que em grego já tinha seu bonito nome jaries, carites?

Em todo caso, Sócrates, com seu misterioso “demônio” interior e sua clara morte, e Platão, com sua filosofia, parece sugerir que um pensar puro, sem nenhuma mistura poética, não tinha feito nada além de começar. E o que pudesse ser uma “pura” filosofia ainda não possuía forças suficientes para abordar os temas mais decisivos, que se apresentam para um homem atento ao seu tempo.

A poesia perseguia, portanto, a multiplicidade desdenhada, a menosprezada heterogeneidade. O poeta encantado pelas coisas se apega a elas, a cada uma delas, e as segue através do labirinto do tempo, da mudança, sem poder renunciar a nada: nem a uma criatura nem a um instante dessa criatura, nem a uma partícula da atmosfera que a envolve, nem a um matiz da sombra que lança, nem do perfume que exala, nem do fantasma que já suscita em ausência. É que ao poeta não importa a unidade? É que fica vagabundamente – imoralmente – apegado à multiplicidade aparente, por falta de vontade ou preguiça, por falta de ímpeto ascético para perseguir essa amada do filósofo: a unidade?

Desse modo tocamos talvez no ponto mais delicado de todos: o que provém da consideração “unidade-heterogeneidade”. Nas linhas anteriores, indicamos as divergências do caminho do filósofo e do poeta, em que este permanece nessas aparências e aquele se dirige em direção ao ser oculto por trás delas. O ser tinha sido definido com unidade, por isso estava oculto, e essa unidade era sem dúvida o ímã suscitador da violência poética. As aparências se destroem umas às outras, estão em guerra constante, quem vive nelas, perece. É preciso, primeiro, “salvar-se das aparências”, e logo salvar as próprias aparências: resolvê-las, colocá-las coerentes com essa unidade invisível. E quem alcançou a unidade alcançou também todas as coisas que são, pois enquanto são, participam dela ou, enquanto são, são uma. Quem tem, portanto, a unidade, tem tudo. Como não explicar a urgência do filósofo, a violência terrível que lhe faz romper as correntes que o amarram à terra e aos seus companheiros; qual ruptura não estaria justificada por essa esperança de possuir tudo, tudo? Se Platão nos é tão sedutor no “mito da caverna”, é porque nele descobre para nós a esperança da filosofia, a esperança que é a justificativa última, total. A esperança da filosofia nos mostrando que a tem, pois religião, poesia, e até essa forma especial da poesia que é a tragédia, são formas da esperança, enquanto a filosofia fica desesperançada, desolada. E talvez os filósofos não tenham feito outra coisa senão isso; ao final das suas cadeias de razões feitas para romper as correntes do mundo e da natureza, há algo que também as rompe e que às vezes se chama “vida teorética”, às vezes “amor do intelectualis”, às vezes “autonomia da pessoa humana”.

É preciso salvar-se das aparências, diz o filósofo, em busca da unidade, enquanto o poeta adere a elas, às sedutoras aparências. Como pode, sendo humano, viver tão disperso?

Assombrado e disperso é o coração do poeta – “meu coração batia, atônito e disperso”2. Não resta dúvida de que este primeiro momento de assombro se prolonga muito no poeta, mas não nos enganemos, acreditando que é seu estado permanente, do qual ele não pode sair. Não, a poesia tem também seu voo; tem também sua unidade, seu mais além.

Se o poeta não tivesse seu voo, não haveria poesia, não haveria palavra. Toda palavra requer um distanciamento da realidade à qual ela se refere; toda palavra é, também, um livrar-se para quem a pronuncia. Quem fala, mesmo que das aparências, não é um completo escravo; quem fala, mesmo que da mais caótica multiplicidade, já alcançou algum tipo de unidade, posto que embebido no puro pasmo, preso ao que muda e flui, não acertaria em dizer nada, mesmo que este dizer seja um cantar.

E assim já imaginamos algo próximo, muito próximo à poesia, uma vez que durante muito tempo caminharam juntas: a música. E na música é onde mais suavemente resplandece a unidade. Cada peça musical é uma unidade e, no entanto, está composto apenas por momentos fugazes. O músico não precisou lançar mão de um ser oculto e idêntico a si mesmo para alcançar a transparente e indestrutível unidade das suas harmonias. Não é a mesma, sem dúvida, a unidade do ser à qual o filósofo aspira e esta unidade acessível que a música alcança. Portanto, esta unidade da música já está aí realizada, é uma unidade de criação; com o disperso e o passageiro foi construído algo uno, eterno. Asim faz o poeta, que em seu poema cria a unidade com a palavra, essas palavras que tratam de apreender o mais tênue, o mais alto, o mais único de cada coisa, de cada instante. O poema é a unidade não oculta, mas presente; a unidade realizada, diríamos encarnada. O poeta não exerceu violência alguma sobre as heterogêneas aparências e, sem violência alguma, também conseguiu a unidade. Assim como a multiplicidade lhe tinha sido doada, lhe foi agora, graciosamente, a unidade, por obra das carites.

Mas há, no entanto, uma diferença: assim como o filósofo, se alcançasse a unidade do ser, seria uma unidade absoluta, sem nenhuma mistura de multiplicidade, a unidade atingida pelo poeta no poema é sempre incompleta; e o poeta o sabe, e aí está sua humildade: em se conformar com a sua frágil unidade alcançada. Daí esse temor que fica atrás de todo bom poema e essa perspectiva limitada, rastro que toda poesia deixa atrás de si e que nos leva até ela; esse espaço aberto que cerca toda poesia. Mas mesmo esta unidade, ainda que completa, parece sempre gratuita em oposição à unidade filosófica perseguida com tanto afinco.

O filósofo quer o uno, porque quer tudo, já dissemos. E o poeta não quer propriamente tudo, porque teme que neste todo não esteja, na verdade, cada uma das coisas e seus matizes; o poeta quer uma, cada uma das coisas, sem restrição, sem abstração nem renúncia alguma. Quer um todo desde o qual cada coisa seja possuída, porém não entendendo por coisa essa unidade feita de subtrações. A coisa do poeta não é nunca a coisa conceitual do pensamento, mas a coisa completíssima e real, a coisa fantasmagórica e sonhada, a inventada, a que houve e a que não haverá nunca mais. Quer a realidade, mas a realidade poética não é apenas a que existe, a que é; abarca o ser e o não ser em admirável justiça caritativa, pois tudo, tudo tem direito a ser, até o que nunca pôde ser. O poeta tira da humilhação do não ser aquilo que geme dentro dele, tira do nada o próprio nada e lhe dá nome e rosto. O poeta não se esforça para que das coisas que existem, algumas sejam e outras não alcancem esse privilégio, mas sim trabalha para que tudo o que existe e o que não existe, chegue a ser. O poeta não teme o nada.

Aparição, presença que tem seu mundo próprio em que se apoiar. A matemática sustenta o canto. Não terá também a poesia o seu mundo próprio mundo, seu mais além em que se apoiar, sua matemática?

É assim, sem dúvida: o poeta alcança sua unidade no poema antes que o filósofo. A unidade da poesia logo se encarna no poema e por isso se consome depressa. A comunicação entre o logos poético e a poesia concreta e viva é mais rápida e mais frequente; o logos da poesia é de um consumo imediato, cotidiano; descende diariamente na vida, tão diariamente, que às vezes se confunde com ela. É o logos que se presta a ser devorado, consumido; é o logos disperso da misericórdia que vai para quem a necessita, para todos que a necessitam. Enquanto que o da filosofia é imóvel, não descende e é acessível apenas para quem pode alcançá-lo com seus passos.

“Todos os seres humanos naturalmente desejam o saber”, diz Aristóteles no início da sua Metafísica, justificando de antemão este “saber que se busca”. Mas, passando por alto que na verdade todos os homens necessitem este saber, se apresenta em seguida a pergunta que solicitamos à filosofia. Se todos te necessitam, como pode ser que tão poucos são os que te alcançam?

É que alguma vez a filosofia foi de todos, é que em algum tempo o logos amparou a frágil vida de cada ser homem? Se consideramos o que os próprios filósofos dizem, sem dúvida que não, mas é possível que possa ter acontecido, em alguma medida, independente deles mesmos. Em alguma medida, em algo sem dúvida muito vivo e muito valioso que agora, quando aparece destruído – com inconsciente despreocupação de alguns “filósofos” para quem parece não fazer diferença para o que a filosofia sirva agora –, quando vemos seu vazio na vida do homem, é quando mais nos damos conta.

Mas, com a poesia, por outra parte, essa questão não cabe. A poesia humildemente não se perguntou sobre si mesma, não estabeleceu a si mesma, não começou dizendo que todos os homens naturalmente necessitam dela. E é una e é diferente para cada um. Sua unidade é tão elástica, tão coerente, que pode se render, se orgulhar e quase desaparecer; desce até sua carne e seu sangue, até seu sonho.

Por isso a unidade à qual o poeta aspira está tão longe da unidade à qual o filósofo se lança. O filósofo quer, acima de tudo, o uno.

E isso porque o poeta acredita na verdade, nessa verdade que pressupõe que há coisas que são e coisas que não são, e acredita na correspondência verdade e engano. Para o poeta não há engano, senão como único meio de excluir, por mentirosas, certas palavras. Daí que diante de um homem de pensamento, o poeta passe a impressão de ser um cético. Mas não é isso: nenhum poeta pode ser cético, pois ama a verdade, mas não a verdade excludente, não a verdade imperativa, eleitora, selecionadora daquilo que se erguerá como dono de tudo o mais, de tudo. E não terá querido para isso, o todo: para poder ser possuído, abarcado, dominado? Há alguns indícios disso.

Seja assim ou não, o “tudo” do poeta é bem diferente, pois não é o tudo como horizonte nem como princípio; mas em todo caso, um “tudo” a posteriori, que só o será quando cada coisa já tenha chegado a sua plenitude.

A divergência entre os dois logos é suficiente para que ambas caminhem um longo trecho de costas para a outra. A filosofia tinha a verdade, tinha a unidade. E ainda a ética, porque a verdade filosófica era adquirida passo a passo, com esforço, de tal maneira que ao chegar a ela, aquele que a encontrou sente-se ser uno. Soberba da filosofia! E a unidade e a graça que o poeta acha como fonte milagrosa em seu caminho são presenteadas, descobertas de repente e do tudo, sem caminhos preparatórios, sem passos nem rodeios. O poeta não tem método... nem ética.

Este é, ao que parece, o primeiro embate do pensamento e da poesia no seu encontro originário, quando a filosofia soberba se livra daquilo que foi sua qualidade matriz; quando a filosofia resolve ser razão que capta o ser, ser que expresso no logos nos mostra a verdade. A verdade... como que, a tendo, a filosofia não foi o único caminho do homem desde a terra até esse céu alto, imutável, onde resplandecem as ideias? O caminho foi, sim, feito, mas há algo no homem que não é razão, nem ser, nem unidade, nem verdade – essa razão, esse ser, essa unidade, essa verdade. Mas não era fácil demonstrá-lo, nem se quis, porque a poesia não nasceu na polêmica, e sua presença generosa jamais se afirmou polemicamente. Não surgiu contra nada.

Não é polêmica a poesia, mas pode desesperar e confundir sob o império da fria clareza do logos filosófico, e até sentir tentações de se abrigar no seu recinto. Recinto que nunca pôde contê-la, nem a definir. E quando o filósofo sentiu que ela lhe escapava, então a confinou. Vagamunda, errante, a poesia atravessou longos séculos. E hoje mesmo, observar sua limitada fecundidade causa pena e angústia, porque a poesia nasceu para ser o sal da terra, e grandes regiões da terra ainda não a recebem. A verdade quieta, hermética, ainda não a recebe... “No princípio era o logos. Sim, mas... o logos se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdadei”.

1 Aristóteles, Metafísica, L. I, 982b.

2 Antonio Machado.

Zambrano, María. Filosofia e poesia (Portuguese Edition) (pp. 9-16). (Function). Kindle Edition.

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María Zambrano (1904–1991) foi uma proeminente filósofa e ensaísta espanhola conhecida por desenvolver o conceito de "razão poética", que buscava conciliar a filosofia tradicional com a imaginação e a sensibilidade. Ela foi a primeira mulher a receber o prestigiado Prêmio Miguel de Cervantes, em 1988.

Vida e Exílio

Nascida em Vélez-Málaga, Espanha, Zambrano estudou filosofia na Universidade de Madrid, onde foi aluna de José Ortega y Gasset. Sua vida e obra foram profundamente marcadas pela Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e o subsequente exílio de quase 45 anos. Durante esse período, ela viveu em diversos países, incluindo México, Cuba, Porto Rico, Itália e Suíça, antes de retornar a Madrid em 1984, após o fim da ditadura.

Pensamento Filosófico

A filosofia de Zambrano é singular e desafia os limites entre a razão discursiva e a poesia. Seu conceito de "razão poética" propõe uma forma de conhecimento mais abrangente, que integra a intuição e a experiência emocional para uma compreensão mais profunda do ser humano e da realidade.

Ela argumentava que, enquanto a filosofia tradicional parte do espanto e da ignorância em busca de respostas, a atitude poética emerge do desejo humano de saber, compreender e expressar, buscando uma unidade para além das dicotomias rígidas da tradição ocidental.

Principais Obras

Alguns de seus livros mais notáveis incluem:

  • Filosofía y poesía (1939): Uma de suas obras fundamentais, onde reflete sobre a conciliação entre as duas frentes.

  • El hombre y lo divino (1955): Explora a relação entre o humano e o sagrado.

  • Persona y democracia (1958): Um livro com forte teor político, onde aborda a pessoa e a democracia.

  • Claros del bosque (1977): Um texto poético-filosófico que reflete sobre a busca da verdade.

  • La tumba de Antígona (1967): Sua única obra dramática, uma profunda exploração da experiência do exílio.

O legado de María Zambrano continua a influenciar diversas disciplinas e gerações de pensadores que buscam uma abordagem mais holística do conhecimento e da existência humana. Fonte: IA google.