Elizabeth Gontijo
Poemas do livro a A Palma e o Verso (ebook kindle) e Corpo à Vela (ed. Sete Letras
POEMADÉCIMA SEXTA EDIÇÃO
5/26/20262 min read
Cabalístico
De onde esta saudade?
Fibra de minhas vísceras
tutano de meus ossos
pesada \ imponderável
amarrada \ inconsútil.
Muda,
grita.
Que é do rio claro
que nunca existiu
no terreiro de minha infância?
Que é do pessegueiro em flor
que nem a meus trópicos pertence? Excêntrica
saudade de mim,
tão antes
bem antes
de mim.
Gontijo, Elizabeth. A Palma e o Verso (Portuguese Edition) (Function). Kindle Edition.
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Desconstruindo
Por uma paisagem sem som
neblinas
escassa cor
anseio.
De reza,
quase silêncio
singular saudade.
Abrandar-me em nadas,
coser com o vento, as chagas.
Mergulhar a magia
do espaço.
Gontijo, Elizabeth. A Palma e o Verso (Portuguese Edition) (Function). Kindle Edition.
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Crepúsculo
para meus pais
Abranda-se o sol.
O quase indomável touro
arreia cansado.
Brumas.
Nosso universo se mescla de breu.
Ei-lo sem arestas,
redondo qual fruto.
Enquanto o limbo
alcança nossos pés
um frasco de orvalho
rega nosso abraço.
A noite, fecunda como um oceano,
discursa sobre nós
encantado enigma.
Pequenas luzes
furam os olhos da imensidão
anunciando vidas...
outras.
Medida deste universo,
somos sim,
eternidade.
Gontijo, Elizabeth. A Palma e o Verso (Portuguese Edition) (Function). Kindle Edition.
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Marca d'água
Hoje,
quando na pedra
em seu corpo rijo
reconheço um fóssil qualquer,
arrebata-me
saudade
de um sono primordial,
quando nela,
ainda barro e humo,
Deus sonhava nossa humanidade.
Gontijo, Elizabeth. A Palma e o Verso (Portuguese Edition) (Function). Kindle Edition.
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Ensaio
Ainda concha
o corpo guarda
a umidade da noite
a palidez da lua. Entre o sono
e a lida
quase-imóvel,
ele espera.
O ouro da luz,
percorre a nudez
como translúcido rio.
Sobre o teto,
branca
ampla tela,
mergulhado ainda
num outro tempo,
o corpo divaga.
Gontijo, Elizabeth. A Palma e o Verso (Portuguese Edition) (Function). Kindle Edition.
Caixa de costura
Em coração de cetim crivadas
algumas agulhas
de forte linha providas.
Em caso de extrema dor
por mágoa aguilhoadas,
possa eu quem sabe
também coser
minha carne macerada.
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Solo
Não.
Não sou mais bela
nem mesmo adormecida.
Beijo antigo me desencantou.
Sou quase velha e acordada: à raiz dos cabelos constantes retoques.
Mais uma ruga fisga-me o rosto
e sob a pele finíssima cintilam veias azuis.
Não sou mais bela,
não!
Conquanto em algum canto meu
viceje eterna a Poesia.
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O segredo
À sombra da incessante busca
sempre a margear travessias
o indecifrável
contorno de nosso avesso.
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Improvável equação
Na mais “exata” resposta
sempre,
a reticência
do mistério!
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De Novo
A sabedoria da noite
envolve a casa.
Ressume o sopro úmido do ressonar de todos.
Submersas em eternidade
dormem
num só corpo coisas e gentes.
Ao sol tudo se dispersa.
Em tilintares
objetos acordam.
Sob pés gemem assoalhos.
Visitam-se as almas
Sala quartos corpos vãos
desvãos hospedam de mais um dia a luz.



