Edson Coelho
Poemas escolhidos pelo autor
POEMAVIGÉSIMA EDIÇÃO
9/8/20262 min read


Do silêncio
Só quieto sobre a mesa
O violão são todos os sons;
Quando sopro canções nos dons,
Reduzo o aço
Às palavras da paixão;
Pleno é o silêncio
Que, pra existir,
Preciso ferir de morte
*
Mãe
Todo repórter
Devia ver o instante
Todo editor de polícia
Devia ver a mãe chegar
Pastor
Vereador
Todos têm que ver a mãe chegar
Ao corpo do filho
Enlameado pelos flashes
Ouvir os primeiros urros
O sangue no rosto
A mãe sobre o corpo do rapaz
Todos têm que ouvir
Os ganidos do passado
Os gemidos do futuro
*
Canção
Tem dor,
Não tá no DNA,
Mas o mar replicou
Tem voz tão sufocada
Que não sabe porque chora
Deixa meu violão
Te ajudar
Ouve o rastro calado
Do compositor
Colhe a canção
Que minha dor já plantou
Dá até pra rir
Onde o poeta chorou
*
Quintal
Órion de folha de jaca
Andrômeda de bacuri
Plêiades na plantação
Todo universo tá aqui
Lembro do nosso namoro
Percorrendo esse quintal
Mas como estrelas extintas
O amor vaga no espaço
No meu quintal o Universo
Fica entre o jambo e a gardênia
O resto é tua boca azul
No canteiro de Vênus
*
Anúncio
O painel pisca gigantesco
Azul
Verde
Vermelho
Teu vestido interativo
Ocupa a fachada
De duzentos andares
Curto roxo
Longo púrpura
Meu espírito é uma vertigem
Opaca
Sob os saltos
Amarelos
Brancos
Perolados
Escultura
De néon
A cidade
O mundo sob
Os saltos agulha
Da paixão
Vermelha
Veludo
E és uma criação
Digital
*
Circo
A vida desce pelo mastro
Lona transpassada em trapézios
Cada trapézio acende um espelho
Para as ilusões da plateia
O salto da moça estrelada
Me salva no espaço sem redes
Todo espelho que cambalhota
Enfrenta um trapézio da morte
A infância gira entre os astros
Um lenço faísca no ar
A palavra lança um navio
Uma concha ensina a voltar
Cacos se escondem nos romances
Ouro em chamas na passarela
O circo dá bug no tempo:
A corda volta sempre a ela
*
Sinestesia no escuro
Sax sujo de lampião de gás
Vândalos vapores
Escorrendo
Até a musa de Baudelaire
Ligada ao cais trágico
Dos barcos de vinho
Na tela, veja, o silêncio
É uma briga de facas
***
Edson Coelho de Oliveira nasceu em dourados, Mato Grosso do Sul. É jornalista e escritor. Mora em Belém. É autor de Os 11 (romance), Ficções físicas (poesia) e Vertigens (poesia), entre outros.