Dias Perfeitos, filme do diretor alemão Wim Wenders, 2023
Crônica Ana Lucia Franco
DECIMA TERCEIRA EDIÇÃOCRÔNICA
3/16/20265 min read


Uma época violenta, cheia de guerras e crimes estarrecedores é capaz produzir uma obra tal qual “dias perfeitos”, que vai na contramão de tudo isso e é uma lufada de ar de fresco, de beleza, de esperança. Revela um outro mundo plenamente possível. O filme soa muito realista e superou as expectativas criadas pelas boas indicações. Consta que é um filme sobre minimalismo. É e não é. Exibe imagens exuberantes, nada minimalistas, da cidade de Tokyo, onde se passa o filme. Imagens que capturam o cotidiano. Eu parava nas cenas, voltava, não queria perder nenhum lance da fotografia, que é hipnotizante. A edição das imagens é obra magistral.
O roteiro pode ser considerado minimalista. Resume-se ao cotidiano solitário do protagonista Hirayama, que acorda bem cedo pela manhã, faz sua higiene, apara as plantas e vai de carro para o trabalho. Ele limpa banheiros públicos em Tokyo. Aliás, o diretor Wim Wenders teria sido chamado para fazer um documentário sobre os banheiros públicos de Tokyo e acabou por fazer o filme.
Que é minimalista nos diálogos. É um filme que mais sugere e insinua do que explica. Puro exercício de percepção e sensibilidade, para ser visto várias vezes, é um filme de detalhes, exige paciência, tempo, presença, num mundo que vive correndo.
No trajeto para o trabalho, a trilha sonora colocada no toca fitas do carro é espetacular: House of the rising sun, Patti Smith, Velvet Underground, Van Morrison, Nina Simone, por exemplo. Hirayama interage com a paisagem, com a música e seu semblante é de puro contentamento, seu rosto todo sorri. É uma felicidade genuína, de dentro para fora. Que não precisa de relacionamentos, de status, posição social. A princípio, de nada. Destaque para o ator, Koji Yakusho, cuja atuação magistral lhe conferiu o prêmio de melhor ator em Cannes em 2023.
No trabalho, os banheiros são limpos por Hirayma meticulosamente, com esmero, o que chama a atenção de Takashi, que também limpa banheiros. Mas Takashi limpa banheiros olhando o celular, distraído e sem qualquer presença e se impressiona com a dedicação e o cuidado de Hirayama ao executar a atividade. Takashi é falante, barulhento, vazio, o retrato do homem da atualidade e contrasta com a serenidade e a presença de Hirayama.
Assim, transcorre a vida simples de Hirayama, sono e vigília, sonhos desconexos que aparecem no filme em preto e branco, recortes de cenas cotidianas. Por outro lado, a realidade rotineira em que as atividades se repetem sem serem, entretanto, as mesmas. A rotina se completa com as leituras, antes de dormir. Hirayama pode ler Faulkner ou Patricia Highsmith. Sua rotina se desenvolve entre seu trabalho, suas músicas e livros, pequeno universo de deleite e satisfação. E ele parece não precisar de mais nada.
No intervalo de almoço, Hirayama senta-se num parque e fotografa uma árvore na qual incide a luz do sol e gera reflexos que jamais se repetem. Komorebi é o termo japonês para a luz solar filtrada pelas folhas das árvores, criando sombras móveis irrepetíveis. Tal é a metáfora da vida de Harayama, que parece sempre igual, mas não é. Cada dia é novo. E o semblante de Hirayama não nega: ele é feliz. À propósito, para os amantes do filme, impossível não se questionar: o que é a felicidade?
A delicadeza desta rotina, entretanto, pode sofrer intempéries, por exemplo, com a chegada da sobrinha de Hirayama, vinda do mundo que ele deixou no passado. Sua sobrinha vem “fugida” da realidade que Hirayama trocou. Sua atividade simples de limpar banheiros é escolha sua, não imposição de sua classe social de origem. Algo que ele se autoimpôs em contraponto ao peso e ao conflito deixado no passado. Ele acolhe a sobrinha de boa vontade. Ela parece admirá-lo, quer ler seus livros, auxiliá-lo em sua atividade de limpar banheiros. Quer ingressar em seu universo. Ela parece ferida por algum motivo, e a realidade de Hirayama, seu estado de espírito, é o lenitivo que a sobrinha busca. No entanto, pouco tempo depois, a irmã de Hirayama vai buscá-la e revela as origens dele. A irmã é rica, chega até onde Hirayama mora de carro luxuoso com motorista. Leva os chocolates de que Hirayama gosta. Pergunta se ele não vai visitar o pai que está num lar de idosos, esquecido de tudo. Ela avisa a Hirayama que o pai não tem mais as atitudes que tinha. Hirayama apenas faz que não com a cabeça e não diz palavra. Nada é explícito, tudo se insinua, sugere. Quando a irmã vai embora levando a sobrinha, Hirayama chora dolorosamente. Ele carrega suas dores, seus conflitos e a cena dele com a irmã tem um tom avermelhado que sinaliza a tensão.
Adentrando as camadas psicológicas de Hirayama, há uma cena em tom azulado em que ele dirige alheio às cenas da cidade, que aparece desfocada. É evidente sua melancolia, caracterizada pelo tom azulado. A melancolia emerge à medida em que ele se prende em seus pensamentos e não interage com o que o cerca. Nas cenas em que a cidade aparece, nítida, e é vista e sentida, o sorriso se desenha em seus lábios. O diálogo sensorial com mundo, a interação é fundamental para seu contentamento. Quando ele se enclausura em suas preocupações e se alheia da paisagem, emerge a melancolia.
O filme não explica muito. Não se sabe o que ocorreu para Hirayma ter abandonado uma vida de riqueza e luxo em troca de uma atividade simples e socialmente desvalorizada. Por alto, se menciona um conflito com o pai, mas sem muitos detalhes. O que realmente o fez optar por uma vida aparentemente humilhante?
O enfoque social da atividade que Hirayama exerce é abordado no filme. No início, ele resgata um garotinho perdido dentro de um banheiro, entrega-o para a mãe aflita, que não olha para Hirayama e tampouco lhe agradece. Ela retira um lenço para limpar a mão do filho que tocara a dele. Entretanto, o filme apenas pincela a questão social; o foco maior é na poesia que há na vida de Hirayama. Uma poesia de contentamento e felicidade, Sentir-se bem ao ouvir uma boa música, ler um bom livro. Acordar pela manhã e se deparar com a vibração da cidade, da vida pulsante. Sentir esta vibração.
Num tempo em que a maioria parece entorpecida, sentir a vida é um exercício de existir. Não ser refém do fone de ouvido, do celular e outras distrações. À propósito, Hirayama é completamente analógico. Não usa celular, as músicas que ouve estão em fitas k7. Ele nem sabe o que é um Spotifty, o que se revela num dialogo com a sobrinha, que lhe perguntou se ele não usava Spotify e ele nem sabia o que era. Pensou que Spotify fosse alguma loja. Pode-se considerar que este alheamento é um exagero, que minimamente se deve conhecer os avanços tecnológicos. Entretanto, viver à margem da era digital pode ser um opção e não se contesta. O preço que se paga pelo uso excessivo de comodidades tecnológicas pode ser alto. Pode ser um entorpecimento que vai drenando, esvaziando o ser humano. Pura perda de tempo, que se transforma em mercadoria na internet.
A vida que Hirayma leva é escolha dele. Por outro lado, não se pode romantizar as dificuldades pelas quais passa alguém que, efetivamente, tem que limpar banheiros para sobreviver. O quanto as tensões sociais podem embrutecer. O quanto a solidão pode embrutecer. Mas não são todos. Há pessoas e pessoas, há mundos e mundos. Num diálogo com a sobrinha, menciona-se que Hiraymam vive num mundo diferente de sua irmã, mãe da garota. Mundos dentro de mundos.
No caso de Hirayma, a escolha consciente por uma vida de serviço e cultivo da sensibilidade o libertou e isso é evidente na cena final do filme: mais um trajeto cotidiano pela espetacular cidade de Tokyo ao som de “Feel Good”, de Nina Simone.