De águas e almas Kunhãs
Quatro poemas de Marcia Kambeba do livro "De águas e almas Kunhãs, ed. Jandaíra, 2023.
POEMADECIMA SEGUNDA EDIÇÃO
2/20/20263 min read


O sagrado feminino indígena
Sagrado é saber
Que em teu colo se aprende
No ventre que gera outro ser
A mão que tece fios de esperança
Acalenta com amor o filho ao nascer
Na cultura dos povos originários
Aprendemos o bem praticar
Colher ervas na mata
Para a dor do outro tirar
Tanto faz ser mau olhado
Quebrante ou mundiação
A pajé faz seus rezos
Benzimentos e adivinhação
Para saber de onde vem
A enfermidade que incomoda
O corpo, a alma ou o coração
Com um olhar firme
De quem sabe o que deve fazer
A pajé olha de longe
Quem vem vindo
Para um atendimento receber
Sua casa é distante da aldeia
Precisa de silêncio, tranquilidade
Para se conectar com seus caruanas
E receber as energias
Que movimentam a caridade
Salve nossa pajé!
Com sua dança ancestral
No fogo do sagrado feminino
Vem a fumaça que afugenta todo mal
É uma senhora tão serena
Sorriso que acalma
Voz que tranquiliza o espírito
Raio de sol de um entardecer
E nesse rio de identidade
Enfrentamos o invasor
Passamos por adversidades
Desconstruindo com amor
Ideias do colonialismo
Nhanderu nos ajude
A manter acesa a lamparina
Que amplia nossas visões
De mundos, gerações
Kambeba, Márcia Wayna. De almas e águas kunhãs (Portuguese Edition) (pp. 104-105). (Function). Kindle Edition.
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Terra
Sua bênção, mãe terra
Sublime teu amor materno
No manto onde cresce a grama
E embeleza o olhar
Te vejo gestar vidas
Povos de várias nações
E mesmo sendo abusada
Não nos deixa faltar o pão
Terra, minha deusa
Fatiada pela mineração
Cortada pelas fronteiras
Queimada pela fogueira
Da ganância capitalista
Egocentrismo e ambição
Kambeba, Márcia Wayna. De almas e águas kunhãs (Portuguese Edition) (p. 82). (Function). Kindle Edition.
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Encanto
Quando chega a noite
E a lua aparece para me tocar
Deixo de ser flor
E mulher volto a me tornar.
Na aldeia sigo nua
Acompanhada pela lua
Um amor quero encontrar.
Meio flor, meio mulher
Venha de onde vier
Um alguém para amar
Meu corpo aquecer
E minha boca beijar.
Na força do encanto
Contemplo minha imagem
Que a água transformou
Em flor, em cor, miragem.
Uma flor sempre serei
Um ornamento me tornei
Em reservas e igarapés
Mas o amor que te dei
Só comigo encontrarás.
Kambeba, Márcia Wayna. De almas e águas kunhãs (Portuguese Edition) (p. 68). (Function). Kindle Edition.
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Índia eu não sou
Não me chame de “índia”
Esse nome me causa dor
Rememora a violência sofrida
Pela espada do “colonizador”.
Honro o sangue das ancestrais
Perseguidas passo a passo
Imagino o terror da bisavó
Que pelo invasor foi “pega no laço”
Invadiram as aldeias
Corpos estendidos no chão
Roubaram, estupraram
Queimaram muitas ukas
Terror e devastação
Em nome de uma coroa
De um Deus que na cruz se erguia
Enquanto o coração sangrava
O invasor se divertia
Declarando guerra
Na força da tirania
Estupro seguido de morte
Casamento sem permissão
Assim minha ancestral pariu o Brasil
Berço dessa nação
“Índia” eu não sou
Sou mulher originária
Trago a minha indumentária
Do meu povo afirmação
Identidade com resistência
Carrego na barriga a educação
Sou mulher e faço ciência
Luto contra a “aculturação”
Sou Guarani, Guajajara,
Tembé Kambeba, Mura, Suruí,
Tremembé Kayapó, Tupiniquim,
Sateré Tupinambá, Kokama,
Zo’é Wai Wai, Pataxó, Tapirapé Galibi,
Assurini, Kariri Xakriabá, Gamela,
Kanela Krenak, Pankararu, Munduruku,
Kaapor, Dessano, Tukano Gavião, Piratapuia,
Tariano Potiguara, Anacé, Arara,
Fulni-ô, Xikrin, Tabajara Tuxá, Karajá,
Kumaruara Karipuna, Juruna,
Tikuna Payayá, Miranha, Kaxuyana Xipaia,
Terena, Wapichana Makuxi, Puri, Borari Arapium,
Wuitoto, Yanommi Amanayé, Paliku, Xukuru Awá Canoeiro,
Suiá, Xavante
Somos muitas e somos gente
Estou na aldeia e na cidade
Vivo a minha mocidade
Nas lutas de cada dia
Sou pajé, benzedeira
Eu também seguro o céu
Sou raiz entrelaçando o tempo
Uma ancestral riozeira
Filha das águas
Neta das samaumeiras.
Kambeba, Márcia Wayna. De almas e águas kunhãs (Portuguese Edition) (pp. 24-26). (Function). Kindle Edition.
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MARCIA WAYNA KAMBEBA
Nasceu em 1979. É poeta e geógrafa brasileira. De etnia Omágua/Kambeba, nasceu na aldeia Belém do Solimões do povo ticuna, que pertencia ao então distrito de Tabatinga, no Amazonas, onde viveu até os oito anos de idade, quando se mudou com a família para São Paulo de Olivença, no Amazonas. Graduou-se em Geografia pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Fez o mestrado na Universidade Federal do Amazonas e pesquisa o território e identidade da sua etnia. Sua poesia mostra semelhanças com a literatura de cordel e reflete a violência contra os povos indígenas e os conflitos trazidos pela vida na cidade.