Daufen Bach
Seleção de poemas pelo autor
POEMAVIGÉSIMA EDIÇÃO
9/8/20264 min read


[DOS SILÊNCIOS QUE COLECIONO NA NOITE]
silêncio_VI.
não disfarço o meu pecado,
sei, falta-me pureza no coração.
não tenho o orgulho de ser, não sou nada,
apenas o menino das encostas com
borboletas no riacho.
não tenho o orgulho de ter,
o ter é desequilibrar a essência,
se é que há alguma essência,
e pô-la em fio de navalha.
- prefiro a crueza dos extratos –
(cada um é seu universo, seu tempo e sua
realidade.
tudo que há, além, é um sonho, uma ilusão
que nos faz suportar o próprio peso e nos
abstrai das conclusões insípidas de que,
em última hipótese, não fazemos falta.
vivemos da urgência de nos sentirmos
necessários.)
alguém me disse: "Eu Sou!"
não descobri.
o que há, na concretude, para ser?
poderia ser um sonho, uma urgência,
um encanto,
mas ninguém é nada, não sou nada,
apenas o universo que construo para
me perder.
não disfarço os meus pecados.
tenho a timidez que se confunde com o meu
orgulho,
o meu universo que se confunde com solidão,
a responsabilidade
que se confunde com vaidade.
(de um bote, a margem, vivo a luxúria)
não sei se os desejos resididos no silêncio
e passeadores nas mentes despertas na
madrugada, são culpáveis -como os atos-,
se os são, não existem puros.
quedo-me em meu universo, impuro e
absolvido.
**
[CÃO DE RUA E MENINA NUA]
aquela menina que fazia da transa
um espetáculo,
tinha uma súplica que escorria pelas
coxas e nunca atendida.
o sorriso vagabundo, artificial,
nada escondia.
era dada para aqueles que lhe davam
uma mínima importância.
ia para igreja nos domingos de manhãs
para se entender com deus no altar
e gritar seus améns,
iludir-se com os seus perdões.
só queria uma desculpa para voltar
limpa para madrugada cabareteira,
onde o vazio se derrama em copos
cheios e luz neon.
a vida assim não presta menina da transa
espetáculo,
a vida assim não presta.
repita comigo: a vida assim não presta!
precisamos nos entorpecer
de alguma verdade que se dissipará,
etilicamente,
numa ressaca depois do meio dia.
enrosca tuas coxas nas minhas,
vamos dormir,
vamos dormir.
**
INSIGHTS & ESTALOS [MESMICES]
insight_5.
abram as janelas
e as portas para a imensidão.
a paisagem quer espiar
os olhos para ser paisagem
e os olhos querem a paisagem
para não se descobrirem apenas ilusão.
**
[É DOCE A SANHA DE VIVER]
é possível que eu tenha me precipitado,
mas o abismo é doce
e prefiro a confusão trabalhada,
as gargalhadas,
o empurra-empurra
do que esta mornidade sem novidade.
eu prefiro a luta de classes,
o escândalo estampado,
o acontecer das coisas,
esta ação voraz,
esta fúria do querer,
do fazer desmedido, sem cansaço.
a iniciativa que incentiva os desobjetivados,
mal-amados,
cansados,
que passam o dia
a ladrar choro balbuciado.
que importa o impossível,
o enigma, o escasso
se explode na terra preta,
no gueto mal iluminado,
nas casas grudadas nos morros
um pedido de socorro.
acendam as tochas!
tomem as manchetes!
pintem o sete no congresso,
na granja do torto!
(não tinha outro nome?)
povoem o mar morto!
denunciem a CIA,
o FBI,
esses fascistas travestis.
descortinem o DOI-CODI,
a GESTAPO,
a KGB
vê...?
o abismo não é tão imenso
e não é um contrassenso
querer,
querer.
querer...
é doce a sanha de viver!
**
[DE TODAS, A MAIOR CRUELDADE]
a fome, polimorfa, não tem gosto,
não tem nada, não tem rosto,
não tem sobrenome!
a fome não tem boca,
não se vê fome na boca, se vê fome
nos olhos.
é aflita,
grita,
é uma senhora cruel, louca.
a fome atravessa a metafísica
de todas as coisas.
é tísica e perpassa o teu estômago vazio
de meia hora,
tua saliva em pratos doces.
a fome dói nos olhos do pai
e chora no coração da mãe.
dói no meu olhar impotente.
a fome dói mais no sabor
que não se fez contente no lábio do menino
que abraçou a noite com um gole d’água,
insípido e inodoro,
querendo apenas acordar
com um pedaço de pão sobre o travesseiro.
**
[PASSIONAL]
em mim:
intensidade para o bom e o ruim,
um drama,
sempre passional.
livrem-me dos tépidos,
dos nulos,
dos sonsos...
dê-me algo que
combine com o fatal.
**
[AMOR, ALÉM DAS FÁBULAS]
não eras a pintura, verbos,
não eras em livro algum, frases feitas.
eras um espanto ardente, febril.
eras a delícia de encontro,
dos risos entregados,
da cumplicidade perfeita.
eras o de repente,
como um céu que se fez negro na madrugada,
acordou vermelho e se vestiu,
para todo o dia, anil.
eras a minha falta de defesas,
a viagem de rotas inquietas,
de rastros confusos, mas, sobretudo,
de paixões, pisados.
eras as cartas caladas,
as falas mais ousadas,
o olhar impudico que em ti guardaste
como segredo inconfessável.
e tudo o que não eras, passaste a ser;
e tudo se inflamou de ti, e me servi...
impeli-me nesta angústia de te ter
e, então, todas as portas que abri sorrindo,
tudo que vivi sentindo,
nada mais significavam se não estivesse
em mim o teu viver.
**
[CONTEMPLAÇÕES]
contemplação 1
.
distraio a alma
num canto murmurado
-ouvido taciturno-.
rio abaixo,
a seguir por um horizonte infinito,
componho,
assovio o meu rito.
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Daufen Bach. Nascido em 1973 na cidade de Ivaiporã, no Estado do Paraná. Hoje reside na cidade de Novo Mundo-MT. É educador. Publicou os livros de poesias: “Breves Encenações, Sobressaltos”, pela Editora Biblioteca 24 horas; “Tessituras [do intervalo entre o grito e o silêncio]”, pela plataforma Perse, "No mar de teus olhos (como jardins florescidos no outono)", pela Editora Kelps e participou de diversas antologias, entre elas a “Antologia Internacional “Planeta em Versos”, publicado pela Editora Letras em Cores. Muitos de seus poemas foram publicados em revistas, impressas e digitais, tanto nacionais, quanto internacionais. Possui poemas traduzidos e lidos em diversos países da América Latina e em alguns países da Europa, Ásia, Oceania e África. É dono e editor de uma Revista Literária Internacional, on line, intitulada Revista Biografia.