Cristina Siqueira
Quatro poemas escolhidos pela autora
POEMADÉCIMA QUINTA EDIÇÃO
5/2/20263 min read
1-
O TODO
Há uma força
A gota
que escorrega pela folha
não é mais gota
absorvida pelo ar
é nuvem passageira
Deixou de ser
Tornou-se imensa
O rio
que se encontra com
o mar
não é mais rio
absorvido pelo mar
é oceano
Deixou de ser
Tornou-se imenso
O ovo
que se junta à farinha
não é mais ovo
misturado à farinha
é bolo , iguaria fina
Deixou de ser
Tornou-se a massa
O homem
que se junta ao Todo
não é mais homem
sendo um em Todos
é humanidade , Todos
em um
Deixou de ser
Tornou-se todos
A mulher
com o filho no ventre
não é mais mulher
é mãe
tornou-se a carne do filho
Deixou de ser
Tornou- se divina
O semem
ao encontrar o óvulo
não é mais semem
é vida
tornou-se o filho
do homem
Deixou de ser
Tornou-se em outro
O Eu ao desfazer-se de si
não é mais ego
é imensidão
inocência , divino Deus
Deixou de ser
Tornou-se o Todo
A criação
ao fazer-se em arte
não é mais criação
é desdobrar -se
sendo em si o Criador
Deixou de ser
Tornou-se a obra
Cristina Siqueira
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2-
Paixão
Sofisticada artesania
belisca o coração
faz suar as mãos
ouço com ouvidos de ver
de dentro
borboletas em festa
na barriga
Tenho um tchicabum
no peito
pelinhos arrepiados
mesmo em noite de verão
Um quero e não posso
Posso e não quero
Risco de giz
no chão de asfalto
que sobe e me leva à lua
Quando o outro falta
canso de me olhar
no espelho
converso com
meu umbigo
a mão pede um comigo
Liberto o amor
Afogo o Narciso
em seu lago de repetição
quero a emoção
que me torna viva
e olhos que conversam
na penumbra do quarto
brincadeiras de parar
de pensar
Luzir
aportar na lua
Indiferente
ao meu próprio eco
Que o amor se imponha
mesmo que à revelia
Morro se não morrer
de Amor
Para amar me quero Viva
Corpo entregue
em vibração
Fugaz o toque
Amor sem garantia
A graça do jogo
de olhar o outro
para não se ver
Inconstâncias de amor
Mistérios que
me desafiam
O outro é um enigma
Amor é noite
desnudar-se em calma
devagar entregar a alma
Adiar o desenrolar
do conto
Ser mansa
enquanto desato a trança
e deixo cair aos pés
A febre incontida
no vestido
Cristina Siqueira
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3-
Brasil
No alto
um circo suspenso
no vento
sem rede
sem chão sem promessa de pouso
Cordas invisíveis puxam
o dia
num vai e vem sem rumo
como se o tempo
esquecesse
para onde ir
Em cena
vozes em fúria
gestos de tudo mal
fazem mágica de
tudo bem
ecos que se atropelam
no ar
War é lá
mas é cá também
Abaixo
uma multidão
em arquibancada
de si mesma
vestida de lados
dividida em gritos
como se o
destino coubesse
no placar de um jogo.
Mas, visto de cima…
o país encolhe
E, pequenino … samba
na palma da omissão
no bolso magro
das empresas
nas notícias da corrupção
Pequeno,
ferido de ausência
esgarçado de perdas
um nó
no fio da própria história
Cristina Siqueira
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4-
Coisas não sonhadas
Acordam o dia seguinte
Tempo de não decidir
Deixa o vazio ser luta .
Cristina Siqueira
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Cristina Siqueira é escritora, poeta, curadora artística e produtora cultural, com 28 anos de atuação na literatura e na arte urbana. Criadora do projeto Livro de Rua (1997), referência nacional em poesia no espaço público, desenvolve intervenções poéticas, exposições, murais em azulejaria, recitais e ações formativas em escolas e museus. Com oito livros publicados, textos teatrais, colaborações em revistas literárias e premiações nacionais em poesia, conto e crônica, foi articulista do O Progresso de Tatuí por dez anos e atuou por 17 anos na educação pública e privada. É membro correspondente ativo da Academia Sorocabana de Letras, jurada de concursos, mediadora de leitura e mentora de jovens escritores. No Ponto de Cultura Cristina Siqueira, promove encontros literários e saraus, fortalecendo a cena cultural regional. Atualmente segue em intensa produção artística, curatorial e comunitária, com forte impacto na formação de público e na valorização da literatura paulista com projeção nacional e internacional. Em 2026 acrescentou ao Projeto Livro de Rua acessibilidade aos não videntes criando e produzindo o Livro de Rua para Cego Ler.

