Conto de Ivy Menon

Extraído do livro Asas de Terra e Sangue, editora Arribaçã, 2022

DECIMA QUARTA EDIÇÃOCONTOSPROSA LITERÁRIA

4/15/20263 min read

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Menina, eu caminhava mais de três quilômetros, sozinha para chegar à escola rural cortando trilheiros por dentro dos cafezais. Conhecia o atalho mais curto. Também, porque pequena para a idade, os colegas vizinhos riam de mim, a raquíti-ca. Queria evitá-los. Saía cedinho e em jejum. Tínhamos mais estômagos que farinha. No primeiro ano primário, com oito anos de idade. O pai, sem raízes, não se lembrava de rematricular os filhos. Não era prioridade para ele. Conseguir comida, sim.

Gostava de andar tranquila, principalmente na volta da escola a deixar a imaginação solta. A sonhar bonecas vestidas de rendas e escolas com paredes coloridas. Adorava assobiar e observar ninhos de passarinhos, bem como arrancar folhas de serralha para a salada, mudas de onze-horas para os barrancos que circundavam o rancho que morávamos. E colher tomates rasteirinhos para complementar o feijão com abóbora, que dominaram nosso prato por longos meses de desesperanças.

Um dia um rapaz me interceptou o caminho. Me pegou no colo e prendeu-me os braços. Assustei-me feito as juritis que caíam no alcapão que armávamos pelo mato. Ele me falou umas coisas estranhas que me deitaram pânico: "me dá sua buce... inha? "O que seria aquilo, Deus do céu?", pensei. Gritei desesperada pelo pai. Ele afrouxou um pouco os braços. Meti-lhe o pé na boca do estômago e corri feito louca. Não sentia o chão.

Um medo atroz multiplicava-me as forças e me induzia a urgente segurança da casa. Dos olhos e das mãos da minha mãe.

E sabia faltar bem mais que a metade do caminho. Animalzinho em perigo, desesperava por lugares conhecidos. Os cafezais, tão meus, quase cortam minhas asas.

Dentro de casa, com o coração aos pulos, chorando, cheia de gratidão e pavor, contei para a mãe tintim por tintim o que acontecera. Não me recordo da reação dela. Sei que me abraçou e chorou comigo. O pai estava na capina do milho. Ela se encarregou de falar para ele, depois do trabalho. Desconfio que me examinaram para saber se eu fora violentada, embora eu tivesse dito tudo o que se passara. Saíram cedo para a Delegacia e voltaram antes do almoço, numa viatura, com o delegado e dois agentes de polícia. Fui levada à caça do aprendiz de pedófilo-tarado por todos os sítios da vizinhança.

Paravam, casa por casa, batiam palmas e o delegado repetia: "o senhor tem, por acaso, filho adolescente? Se tiver, traz ele aqui agora". Caso sim, me mostravam o moleque. Eu dizia:

"não foi ele" ou "não é esse". Até que dei de cara com o infeliz.

Num salto para trás, afirmei: "foi ele'". E me escondi nos braços do pai, apavorada. Só isso. E mandaram me levar de volta para casa, porque não morava longe.

De noite ouvi a conversa dos pais, na cozinha. O delegado cuspira palavras para o pai do moleque: "Sabe onde é terra de tarado?". "Acha que vamos aceitar tarado, por aqui?". "Cortamos os bagos deles, antes". O homem de cabeça baixa e vermelho de vergonha, apenas respondia com "sim, senhor" e "não senhor".

O rapaz. jurava ter sido "brincadeira besta". Por fim, o policial decidira, por conta própria e por causa da menoridade do tarado, que boa sova bastava para que o talzinho aprendesse a lição.

"O desgraçado apanhou muito de cassetete", vangloriava o pai, se sentindo justiçado. E explicava: "daquelas borrachas que chupam a carne, que é pra nunca mais mexer com filha dos outros".

Entrei no guarda-roupas e encostei a portinha de madeira rasgada. Chorei baixo. Tentava compreender o mal que o rapaz intentara contra mim. Ninguém me contou. Nem me explicaram o mal que eu fizera para merecer algo tão horrível. Senti culpa. E vergonha. Durante anos tive pesadelos, porque os gritos do moleque a apanhar da polícia povoavam meu imaginário. Eu devia pagar pelo que fiz.

As vezes ainda recuso abraços.

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Ivy Menon, advogada, com pós em Filosofia, além de jornalista, teóloga e pós-graduanda em Psicanálise. Publicou, três livros de poesia (Flores amarelas, Matemática das algemas e Olhos de mandrágora); um de crônicas, Asas de terra e sangue, e um romance, Mar fechado Mar aberto, em parceria com Ângela Zanirato. Aposentada da Justiça do Trabalho, mora em Rio Negro-PR.

Pseudônimo: MariaJoão