Conceição Lima
Ao som dos ecos indivisos (Legado poético de Conceição Lima) por Fadul Moura
DÉCIMA SÉTIMA EDIÇÃOPROSA LITERÁRIACRÍTICA LITERÁRIA
6/29/202615 min read


AO SOM DOS ECOS INDIVISOS: O LEGADO POÉTICO DE CONCEIÇÃO LIMA
Fadul Moura[1]
[1] Professor do setor de Teoria da Literatura e Literatura Comparada da UFMG. Como poeta, publicou Travessia por (Editora Laranja Original, 2022).
1 Vozes e canto
Conceição Lima foi uma poetisa são-tomense contemporânea com produção escrita que chegou ao Brasil nas últimas décadas do século XXI. Nascida em Santana em 1961, na Ilha de São Tomé, Maria da Conceição Costa de Deus Lima cursou os estudos primários e secundários no país natal. Na Inglaterra, licenciou-se em Estudos Africanos, Portugueses e Brasileiros pelo King’s College of London, mesma instituição onde adquiriu o título de Mestre em Estudos Africanos. Também foi especialista em Governos e Políticas na África Sub-saariana pela School of Oriental and African Studies (SOAS) de Londres. Atuou como produtora de Serviços em Língua Portuguesa da BBC Londres e exerceu a profissão de jornalista na Televisão São-tomense (TVS). Teve poemas traduzidos para o alemão, árabe, espanhol, galego, inglês, italiano, neerlandês, entre outras línguas; e ganhou prêmios como o do Concurso de Tradução de Poemas (2021) pela revista Word Without Borders e pela Academia de Poetas (EUA) com o poema “Afroinsularidade”. Foi membro-fundador da União Nacional dos Escritores e Artistas São-Tomenses (UNEAS) e coordenou o Movimento Poético Mundial para São Tomé e Príncipe. Recentemente, em 2026, apreciadores de seu trabalho tiveram de ver sua partida.
Seu legado poético – a partir daqui, insistirei no tempo presente, na força do que permanece – é formado por O útero da casa (2004), A dolorosa raiz do micondó (2006) e O país de Akendenguê (2011), publicados pela Editorial Caminho (Lisboa, Portugal); os mesmos livros também circularam em São Tomé na edição da Lexonics em 2012; Quando florirem salambás no tecto do Pico (2015) é de edição própria (com publicação brasileira feita pela Maza Edições, de Belo Horizonte, em 2024); e Visto do meio do mundo – crónicas seguidas de um auto do século XX (2023) sai pela Editorial Caminho mais uma vez. Dentre eles, A dolorosa raiz do micondó é o primeiro a chegar ao Brasil pelas mãos da Geração Editorial em 2012. Em 2015, o livro foi selecionado pelo Programa Nacional de Bibliotecas Escolares (PNBE) e teve 32 mil exemplares distribuídos pelo Ministério da Educação. Com a edição de 2023, a Editora Corsário-Satã dá continuidade à circulação de uma poesia potente, voltada à independência, à cultura, à memória individual e coletiva de sociedades africanas. Além do texto de apresentação de Helder Macedo (King’s College), a edição brasileira traz um cuidadoso posfácio escrito pela professora Assunção de Maria Sousa e Silva (Universidade Estadual do Piauí).
Os três primeiros livros de Conceição Lima perfazem um trajeto da investigação da memória do próprio país à recuperação de uma identidade pan-africana. Ao reconhecer a postura excludente daqueles que levantaram a bandeira do nacionalismo, O útero da casa enceta um debate sobre a planificação homogeneizadora de grupos sociais apagados. Trata-se de insistir, como bem notado por Inocência Mata (2006, p. 239), na “denúncia de uma comunidade que, tendo lutado pela libertação, acaba por reduzir à condição de apátrida parte de seus membros”. As modulações dessa inflexão estão em textos em que são cantadas as histórias de Daimonde Jones e Kalua, metonímias dos descendentes de moçambicanos que tiveram suas vidas espoliadas pelo trabalho nas roças são-tomenses. Desse modo, a poesia situa a importância desses grupos e poeticamente os reinscreve no seio da História.
A dolorosa raiz do micondó dedica-se a alguns momentos das décadas de 60 e 70 do século XX, assumindo um posicionamento crítico com a seleção de temas e a organização dos poemas do livro. A autora afasta-se de uma proposta de poesia ingênua e nostálgica para apresentar episódios de guerra, todos resultados de lutas anticoloniais no continente africano. Espaços como Nigéria, Ruanda, São Tomé e Gabão são pontos com os quais se desenha uma cartografia da guerra, delineando as memórias desses territórios e manuseando-as para enunciar a formação do momento presente. O sujeito poético feminino percorre duplamente espaços e tempos desiguais, com características históricas particulares, evidenciando atos de violência em massa. Não se trata, com isso, de uma generalização que busca abarcá-los para reduzir a força dos casos, mas de dizer pelo verso os afetos dominantes diante de um estado de suspensão da ordem e de aplicação da morte como dispositivo autorizado.
Os subalternos e a guerra são temas que reaparecem em outra configuração em O país de Akendenguê. Conceição Lima investe em uma escala ainda maior no seu terceiro livro de poemas e volta-se para a eleição de representantes de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Congo, Gana, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique, por exemplo. Eles aparecem por meio de epígrafes, dedicatórias e remissões ao papel que desempenharam em seus países. São políticos decisivos como Amílcar Cabral, líder do Partido para a Independência da Guiné e do Cabo Verde (PAIGC), como Maria Odete da Costa Semedo, vice-presidente do mesmo partido; como Kwame Nkrumah, um dos principais líderes do pan-africanismo, primeiro-ministro e presidente do Gana; como Julius Nyerere (ou Mwalimu, seu nome em suaíli), ativista e primeiro presidente da Tanzânia; como Patrice Lumumba, líder anticolonial e pan-africanista assassinado no Congo em 1961. Ao lado deles, estão Ana Paula Tavares, poetisa e historiadora angolana; Luís Carlos Patraquim, poeta e jornalista moçambicano; além dos são-tomenses Maria Olinda Beja, escritora e professora; Carlos Alberto Teixeira D’Alva, Primeiro Secretário da Embaixada em Lisboa; Alda Espírito Santo, poetisa, autora do hino nacional e presidente da Assembleia Nacional em seu tempo; Protásio de Pina, artista visual da Ilha do Príncipe; e Francisco José Tenreiro, geógrafo, poeta e professor na Universidade de Lisboa. Todos esses nomes revelam uma poesia empenhada em elaborar uma outra história do continente, retomando a existência de territórios culturais anteriores à invasão colonial. Ao fim, Conceição Lima situa sua ilha na literatura e na história, revelando ser um lugar oriundo do trânsito constante de corpos, anseios, línguas e culturas. Seu trabalho poético exibe não estar isolada à condição de ilha, mas atrelada a lutas do continente.
Como harmonizar tantos nomes, eventos e histórias em um único livro? A resposta encontra-se no próprio título, alusão a Pierre Akendenguê, poeta e músico do Gabão. Ele se tornou famoso no cenário internacional nos anos 1980 com a canção “Epuguzu” e com o álbum “Lambarena”. Em uma parte de seu trabalho, uniu a tradição coral dos pigmeus às cantatas de Bach; em outra, produziu canções em francês e nkomi acompanhadas por guitarra, baixo e percussão. Conceição Lima inspira-se naquele que utiliza a arte musical para desfazer hierarquias e mesclar culturas sem desprezar suas matrizes. Sob o símbolo de Akendenguê, converte cada pessoa, costume e fato histórico em notas de uma música que fará dançar todos os corpos em sincronia.
No interior do livro, a ideia musical é a mediação para presença de um corpo coletivo, agora embalado pelo desejo de criação de um país imaginário, espaço apenas consolidado quando as vozes de todos forem afinadas no mesmo canto. É preciso lembrar que o leitor está diante de um topos reincidente nessa poesia: a voz. Ela já aparecia em “Canto obscuro às raízes”, longo poema de A dolorosa raiz do micondó, emblema de negação da cultura importada e busca incessante pela ancestralidade. Nele, a voz poética reconhece que o “concreto avô” – ou, ainda, o “oral avô” –, foi “servido em chávenas de porcelana”, “compresso em doces barras castanhas”, “embrulhado com chiques papéis de prata” e “embalado para presente em caixinhas”, processos indiciadores da exploração em larga escala em função do trabalho escravo. Foi necessário que a poetisa retornasse à voz dos “velhos griots que detinham os segredos/ de ontem e de antes de ontem”, a fim de entrelaçá-la agora a outra música e erguer com elas uma nova comunidade.
Atravessando O país de Akendenguê, a voz revela-se em “O amor do rio” como o veículo de uma esperança que alimenta e impulsiona a vida – “Os sonhos do porvir, os cantos que cantei, carrego-os na voz.”. Uma vez nutrido por aquela esperança, será possível escolher “um canto ferido de luz” (“A dádiva”), sentir “Esta frescura tingindo de princípio o teu canto” (“Kwame”), caminhar “de voz clara e cercado/ Numa aurora de ruídos e mil portas” (“Congo 1961”) e chegar ao lugar “Onde o tamanho das vozes/ Encolhe o nome e o rosto da urbe.” (“Mulabo I”). Toda essa trajetória da voz confirma que aqueles sonhos não eram apenas utopias vazias. Neste país de Conceição Lima, é preciso crer que “o futuro nunca deixou de habitar/ insólitos lugares” e transportar “cantando/ o pólen nas tuas feridas.” (“Tu sabes que o futuro”).
Mais que uma única voz, são as vozes as expressões das dores compartilhadas e do imperativo de resistência. Quando unidas, também são reveladoras da estreita aliança entre cantos e corpos, entre poesia e política. É nesse sentido que cada canto não é confinado ao isolamento de uma interioridade pura, distanciando-se da mera confissão sentimental. Como indica a epígrafe de Gonzalo Márquez Cristo, “a palavra passa de mão em mão/ para construir uma morada invisível.”, explicitando a função dessa poesia como instrumento coletivo para a edificação de um lar. No livro de Conceição Lima, o canto produz esse lugar de encontro, morada habitável de palavras e afetos. Essa função determinante aparece logo no poema de abertura e reflete uma concepção acerca da própria palavra poética:
Não estou farta de palavras
Não, não estou farta de palavras.
É porque o tempo passa que as procuro.
Para que elevem, soberanas, o reino que forjamos.
O curto poema põe em evidência a força das palavras e seu papel de mobilização coletiva. Posicionando-se contra o esgotamento do sentido, é preciso buscar as palavras mais uma vez, minerar as camadas discursivas construídas com o tempo e extrair do âmago delas aquilo que as reveste de soberania. As etapas desse processo conduzem à finalidade de erguer o território comum. O reino de Akendenguê pressupõe, então, a ação integradora dessa poesia, a qual é indispensável para forjar a comunidade imaginária.
2 Ecos entrelaçados
Os sete cadernos do livro compõem um percurso por estações previamente estabelecidas. São elas: “Primeiro: A mão e o rosto”, “Segundo: Variações sobre a canção”, “Terceiro: Caderno de Mulabo”, “Quarto: Os territórios deflorados”, “Quinto: A dádiva”, “Sexto: Os fantasmas elementares” e “Sétimo: O coração da ilha”. Da preparação do canto às narrativas desse país, a poetisa entrecruza eventos notáveis e acontecimentos cotidianos. Aqueles que seriam considerados metaforicamente tons altos e tons baixos transformam-se em acordes de uma peça delicadamente organizada pelo canto, conduzindo o leitor por um percurso poético.
Toda a primeira seção é orientada pela epígrafe de Sophia de Mello Breyner Andresen (“Este é o poema – engano do teu rosto/ No qual eu busco a abolição da morte.”). É com ela que Conceição Lima sugere a intencionalidade do conjunto: colocar-se à revelia do tempo equivale a batalhar contra o esquecimento; seu desejo profundo é perenizar a vida, “Entranhando nas unhas/ As cordas do tempo.” (“Apuramos o canto”). Esse trabalho é protagonizado por figuras femininas, de modo que as mulheres entrelacem as histórias e descubram a própria comunidade outra vez. A consequência dos gestos delas é a invenção da “casa nos mesmos rios” (“Para te encontrar”).
Desde o início, o sujeito poético feminino assume a postura de uma das anciãs contadoras de histórias, o que dialoga com as narrativas orais são-tomenses. Essas são conhecidas como véssu (provérbios), aguêdês (adivinhas), contági (contadas durante o dia) e soias (contadas à noite).[1] Matizando a própria arte de narrar, a voz poética prepara o ouvinte, reintroduz e amplia o tema em “Variações sobre a canção”, distribuindo os assuntos como se estivesse a desenrolar um canto em espiral. Com efeito, a poesia de Conceição Lima ensaia a estrutura de um saber antigo, próprio à oralidade, que não segue a sequencialidade linear da escrita. Exemplo disso é a imagem da hecatombe de “O cataclismo e as canções”, a qual reverbera sobre a criança morta em “Oculto” e toca a “acumulada ferida” de “Os mortais infinitos”, respectivamente da quarta e da sexta parte. Desse modo, produzem-se ecos de imagens de um poema sobre outros, fazendo do livro um longo canto em expansão.
Engendrando e modulando as bases da comunidade imaginária, o livro expõe um tempo de conflitos. Não é possível repensar criticamente a formação de um país colonizado sem considerar as marcas da violência da invasão colonial e as cicatrizes das guerras de independência. Por esse motivo, O país de Akendenguê traz as cifras da História em episódios decisivos. Uma delas é encontrada em “Caderno de Mulabo”. Trata-se do longo poema narrativo chamado “O pastor”, cuja personagem central conduz os habitantes a uma outra era:
II
Era um pastor que pastoreara
A grande promessa.
O pastor que conclaramara
O horizonte e a agulha do astrolábio.
Era um pastor e sua trouxa de deserto.
Um pastor
e sua litania de queda e de nada.
A ciência e a crença desse grande Outro foram as armas que solaparam a comunidade invadida, convertendo, portanto, a vida do sujeito poético em nada, ao passo que restaram ao último “as migalhas da bandeira”. Como pode ser visto na continuidade do poema,
V
[...]
O pastor semeia a morte
pelos poros do seu reino
e cólera alguma
tambor fumaça notícia
esconjura a azáfama da colheita.
As ações do protagonista consolidam paulatinamente seu poder de destruição, disfarçado com a máscara da fé. A imagem do semeador da morte inverte radicalmente o valor bíblico por meio do ponto de vista adotado no texto. Como resultado, a barbárie europeia é iluminada. É contra isso, portanto, que se levantaram os mortos:
VII
Quatro mil desmoronados dias
os mortos emergiram das valas
sacudiram dos cabelos as larvas
e enfrentaram o estado da sua morte.
O avançar do poema expõe a transmutação da imagem da terra e de todos os seus derivados. Se antes ela era o lugar onde foi instalada a morte, ironicamente se tornou o solo onde nascem as figuras que alimentam o pensamento anticolonial. Rebelando-se contra aquele pastor, os mortos são novos símbolos de resistência. Essa existência outra, nascida da morte de membros da comunidade, altera os sentidos do próprio espaço e de seus habitantes. A colheita mortífera dá lugar ao território em disputa, reclamado como o solo a ser reconquistado ou a casa a ser recuperada.
Ora, a força do mercado internacional carreou o país a políticas colonialistas, no entanto, as contracorrentes culturais impuseram-se de tal modo que não foram apagadas as memórias e ideologias de libertação. Sem se desvincular das complexas injunções que formaram um país independente, o mais interessante desse duplo dinamismo, que nasce com a destruição, é a costura de uma trama sócio-histórica. Conceição Lima articula níveis que fazem o caso particular entrar em contato com uma escala maior, sentindo seus efeitos e provocando sobre ela uma mudança, tal como propõe em “Erosão”:
Como o silêncio corrói as pedras da fortaleza
assim o sussurro infiltra as paredes
e adensa os semblantes.
Outras cifras do tempo histórico estão em poemas de “Os fantasmas elementares”. Ao escolher os nomes de políticos pan-africanistas, a poetisa não intenta fazer da poesia um compêndio,[2] mas uma elaboração artística capaz de sensibilizar quem a lê. Se o leitor tiver em mente que um dos sentidos do adjetivo elementar corresponde aos princípios de uma arte ou de uma ciência, àquilo que para ela é essencial, compreenderá o motivo de as imagens fundamentais desse conjunto projetarem um futuro diante de seus olhos. Produzir literariamente figuras que imaginaram um continente livre conduz à reflexão acerca do próprio conceito de liberdade, do seu valor para uma comunidade assolada e, ainda, do horizonte possível que ele permite sonhar. Por isso, em poemas homônimos, Kwame cantou “a alegria das rosas” e “as tábuas da profecia”; Mwalimu “cuidou das sementes e dos frutos” e “arou um campo sem ossadas”. Por sua vez, Patrice Lumumba deixou
[...]
Nem pão nem vinho.
Um corpo de lenha e sufrágio
O prodígio deste coração que submeteu a morte.
Com essas palavras, “Congo 1961” expõe poeticamente a consolidação de uma política anticolonial, apesar da morte de seu símbolo mais importante. Ao lado de “Todas as mortes de Cabral e uma montanha”, esses podem ser considerados os poemas mais políticos de O país de Akendenguê. Denotam fortemente a preocupação com uma ideologia de libertação de territórios e, simultaneamente, com a elaboração imaginária de um mundo comum.
3 Mundo comum
Se os laços entre poesia e escrita são antigos, aqueles que a ligam à voz advêm de tempos muito mais difíceis de precisar. Esses estariam relacionados ao canto, ao mágico e àquilo que por vezes ultrapassa o logos centrado na escrita ao instaurar um elo efetivo entre famílias, comunidades e gerações. Esse poder contido no canto desafia a capacidade de armazenamento de arquivos institucionalizados e apresenta uma cultura dinâmica, cuja vivacidade não pode ser capturada. Sendo assim, também está em jogo em O país de Akendenguê a recriação da cultura viva, encontrada na beleza comum das relações familiares. “Poema para minha avó”, de “O coração da ilha”, é, aqui, o momento afetuoso da cura de uma ferida:
É nos teus olhos que acorda
o jardim das plantas boas.
Cada cheiro guarda um nome
O orvalho renova a história da cura.
Escuta: a casa dorme ainda, só o galo e a vigília
Só húmidos, os dedos e a lua em despedida.
A nervura é uma linhagem.
Avó, lembro-me dos pingos, a luz do mastrusso
na mão que espremia o amargo milagre.
O poema traz o manejo de um saber tradicional. Ele demanda a preparação de uma paisagem específica, alterada pela ação humana apenas naquilo que lhe é necessário. A avó não manipula a razão ocidental para alcançar a solução para a neta; ela conhece as plantas através de seu corpo, sabe o nome e a função de cada uma delas e busca pelo remédio oriundo da própria natureza. Figura feminina importante, a avó é símbolo de um saber ancestral, de um tipo de conhecimento transmitido por gerações, e que continua vivo na “linhagem” familiar.
Sendo assim, a presença dela não é gratuita em “Bokado”:
A única colher e a malga
A única malga e a colher
A única colher e a única malga
A malga, a colher, a mão da avó
E as nossas bocas…
Temos a idade desta roda.
Embora seja um poema que contemple um caso particular, sua unicidade encontra correspondência com infinitas rodas ordenadas por infinitas avós. Ao poetizar a refeição da família, Conceição Lima recria um paradigma de um saber mais amplo, o qual excede o tempo do relógio e oferece outra lógica de manutenção da vida, tocando simultaneamente esta e outras gerações. Nesse sentido, é a ancestralidade que alimenta as pessoas e sustenta o grupo pela ação da partilha. Com a delicadeza desse poema, então, a voz feminina eterniza a figura da avó como lembrança vivificada.
Ora, muito do que se conhece em territórios atravessados pelo regime escravocrata foi levado até eles por uma memória arquivada em cartas, leis escritas, edificações, todos suportes construídos para assentar a empresa colonial e fazê-la durar. O efeito sensível produzido por ela subalterniza pessoas e, por extensão, suas vozes. Independentemente disso, o canto já estava presente naqueles espaços em razão dos corpos através dos quais saberes eram transmitidos. As práticas, os pensamentos e toda uma coreografia cultural se realizava, delineando a própria História sem que a invasão estrangeira conseguisse extingui-la. A contrapelo dessa lógica dominadora, a poesia de Conceição Lima volta-se para a sua formação cultural e histórica, de modo a clivar espaços pelos quais aquelas vozes possam ser ouvidas.
Diante tudo que foi comentado, poderia se salientar que Conceição Lima perfaz simultaneamente dois movimentos: apresenta marcos e lugares fundamentais desse país imaginário, sem, contudo, pôr de lado as ligações culturais e econômicas que o redimensionam em um mapa global. Para compreender essa articulação, é necessário considerar a presença do mar, elemento recorrente nessa poesia. Sob tal perspectiva, ele não é espaço de separação, mas de conexão, mesmo que essas nem sempre sejam desejáveis. Parte integrante do país imaginário, e não mais o seu limite, o mar são as vias onde “Os barcos regressam/ carregados de cidades e distância.”, como nos versos do poema final, “Circum-navegação”. Com isso, reafirmam-se as diferentes culturas que excedem a demarcação nacionalista europeia. A coordenação delas é feita poeticamente pelo canto, instrumento fundamental que “rasga a prévia cartografia” (“Esta viagem”) em favor de outra, afetiva, criada pela imaginação. Desse modo, mulheres, histórias, guerras, terra, mortos, saberes tradicionais e o mar, todas são imagens articuladas por uma cosmovisão integradora, a qual é a base d’O país de Akendenguê.
Referências:
LIMA, Conceição. O útero da casa. Lisboa: Ed. Caminho, 2004.
LIMA, Conceição. A dolorosa raiz do mincondó. São Paulo: Geracional Editora, 2012.
LIMA, Conceição. O país de Akendenguê. São Paulo: Corsário-Satã, 2023.
MATA, Inocência. A poesia de Conceição Lima: o sentido da história das ruminações afetivas. Veredas: Revista da Associação Internacional de Lusitanistas, n. 7, p. 235-251, 2006. Disponível em: https://revistaveredas.org/index.php/ver/article/view/165. Acesso em: 7 out. 2023.
QUEIROZ, Amarino Oliveira. De estórias, passadas, soias e contágis: diálogos entre oralidade e escritura nas literaturas da Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. In: FONSECA, Maria Nazareth Soares; CURY, Maria Zilda Ferreira. (Org.) África: dinâmicas culturais e literárias. Belo Horizonte: Editora PUC MINAS, 2012. p. 362-380.
SILVA, Assunção de Maria Sousa e Silva. Entrevista com Conceição Lima. Disponível em: http://www.letras.ufmg.br/literafro/literafricas/entrevistas/1853-assuncao-de-maria-sousa-e-silva-entrevista-conceicao-lima. Acesso em 05 jan. 2024.
SERVIÇO
O País de Akendenguê
Editora: Corsário-Satã
Autora: Conceição Lima
Número de páginas: 136
Ano: 2023
Formato: 12x18
ISBN: 978-65-997462-9-1
Preço: R$ 50,00 + R$ 10,00 frete
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[1] A esse respeito, ver o estudo de Amarino Oliveira Queiroz (2012).
[2] Em entrevista, Conceição Lima explica a relação de sua poesia com a história de São Tomé e Príncipe.