Cleber Pacheco
Seleção de Poemas postados em redes sociais
DÉCIMA SEXTA EDIÇÃOPOEMA
6/28/20262 min read


OBLÍQUO
Meu olhar oblíquo
flagra
o gato sendo gato,
a árvore sendo árvore,
a pedra sendo pedra,
e nunca se sacia:
um gato pode ser
mais que felino,
uma árvore pode ser
mais que flora,
uma pedra pode ser
mais que pétrea :
num outro mundo
um gato pode mais que miar,
vislumbra
dimensões e segredos
e sorri para Alice
como quem já transpôs
todos os véus :
num outro mundo
uma árvore celebra
terra e céu e sombra
como quem regenera
o que a morte mais mata:
num outro mundo
uma pedra desgasta
o tempo, duramente sólida
como quem toca a inércia
numa cantata intacta:
Meu olhar oblíquo transfigura
os próprios olhos
como quem reza
para um gato.
para uma árvore,
para uma pedra
e os reencontra
na outra
margem da vida.
...........
VESTÍGIOS
Com pés nus sobre
a Terra, sentindo
o seu caroço quente
pulsar,
desnecessário
é caminhar doravante;
estendo
as mãos em direção
ao Sol
e tudo é perfeito:
nada me falta ,
a não ser o excesso
das estratégias da morte
enquanto se apagam
os vestígios do dia;
contento-me com pouco :
depois é só carregar
o sereno que desce
sobre as sombras.
................
VERBO
A palavra que me deste,
febril, inerte, ferida,
tinha corpo de abril,
de inverno constituída,
era despida, caduca,
carente de espelhos,
tinha rostos, pernas, braços,
sem cotovelo e joelhos,
era um eco ausente,
fornalha no gelo aquecida,
corpo iridescente,
anatomia sem vida.
A palavra que tenho
é pouca, rara, esquisita,
dentro de sua voragem,
alguma coisa palpita,
muito mais que viagem
numa terra estrangeira,
é parto e passagem
para uma vida inteira.
A palavra que invento
é insólito ruído,
aquilo que acrescento
ao que nunca é nascido,
início do mistério
nunca desvendado,
verve e inventário,
hora sem horário,
círculo quadrado.
...............
TU
Não é uma coisa a flor,
disse o Mestre com cerrados olhos:
é, na verdade, um Acontecimento.
Não é uma coisa o lápis que seguras
em tuas mãos, disse o Mestre
com o ardor de quem conhece
a alma dos vivos.
O que sou eu, então? pergunta
o discípulo. E o Mestre responde:
Tu és Aquilo.
...................
REINOS
onde começa e termina
a pedra,
sonho pétreo
que consuma
a coluna vertebral da terra
em minério insano?
Onde começa e termina
a planta,
fosso de luz e treva
que se consome
em fruto e furta
a raiz do mundo?
Onde começa e termina
o bicho,
coisa de ventre
que se fecha e abre
na placenta do mistério
e se funda
em suor e sangue?
Onde começa e termina
o homem,
cria das coisas
que se contemplam
e se mastigam
na ruminação do tempo?
Onde começa e acaba
o anjo,
que principia
etéreo e eterno
e se concentra
em nitidez translúcida
e desafia
os estigmas da carne?
Onde inicia o nunca,
onde termina o sempre
na aurora inaugurada
na matriz do imensurável?
Os estratagemas do silêncio
tornam-se audíveis
num instante
e em sua armadilha
nos quedamos,
para inspirar
o Sopro do intangível.
.................
CONDIÇÃO
Existir,
tarefa infinda :
acontece, não acontece ainda.
Espera
impedida de esperar,
onda sem água, mar.
Espaço
lacrado, lacuna,
mármore de bruma.
Existir,
memória do esquecer:
foi, poderá ser.
.........................
Cleber Pacheco é um renomado escritor, poeta, crítico literário, contista, romancista, ensaísta e dramaturgo brasileiro. Nascido em 15 de setembro de 1965 na cidade de Esmeralda, Rio Grande do Sul, o autor destaca-se na literatura contemporânea nacional por sua escrita densa, reflexiva e de forte teor filosófico.