Chuva
Crônica Ana Lúcia Franco
CRÔNICADÉCIMA PRIMEIRA EDIÇÃO
2/13/20264 min read
Não estou no Rio de Janeiro de férias. E minha total solidariedade aos que chegaram entre final de janeiro e início de fevereiro de 2026 à cidade maravilhosa para umas férias. Na capital, na região dos lagos, no interior, na serra, por toda parte.
Nem sempre dá para planejar uma viagem de acordo com a metereologia. Muitas vezes, uma viagem é planejada com antecedência e a metereologia não é eficaz. Confia-se na época, Ah, verão não tem erro. Calorão geral. Calorão sim, chuva também. Chuva? Escolhido um destino como o litoral do Rio de Janeiro no verão, não é chuva o que se quer.
São Pedro não quis nem saber e mandou chuva em pleno verão. Não aquela chuvinha à toa de verão, que dá e logo passa. Nada disso. Temporais intermináveis com hora certa para iniciar e incerta para acabar. Por volta das três horas da tarde, começa um pinguinho. Um diz: não vai pra frente. Começa a chover mesmo assim. Outro diz: passa logo, é chuvinha de verão. Quase sempre, só passa no outro dia de madrugada, quando todos já estão dormindo.
Outra dia, eu estava num pequeno toldo na Nossa Senhora de Copacabana e esperava a chuvinha de verão passar. Depois de mais de uma hora, encarei a chuva, me molhei toda. Não ia passar, simplesmente. Vara a noite na maioria das vezes. Está sem guarda-chuva? Prepare-se para o banho, para o contato com água da chuva. Pode ser difícil, mas olhe pelo lado positivo. Entregue para o universo, admita que está precisando de um banho de chuva. Está com guarda-chuva? Não é garantia de não se molhar. A depender do humor dos céus, é chuva que guarda-chuva nenhum protege.
Entre final de janeiro e começo de fevereiro de 2026, quem chegou ao litoral do Rio de Janeiro para umas férias (e não foram poucos) aproveitaram o dia até por volta das 15:00, quando amanhecia com um solzinho. À vezes amanhecia nublado mesmo e o tempo apenas esperava a hora do aguaceiro.
Incrível, mas no dia seguinte parece que se esquecia do aguaceiro do dia anterior e se esperava que não fosse ocorrer. Mesmo com a metereologia dando dia de chuva.
Assim, saí numa sexta feira dessas em direção à cidade de Cabo Frio.
Tudo normal pela manhã. O dia se parecia com qualquer outro. Final de semana se aproximava, quem sabe um cinema, um teatro, um rolê cultural. Por volta do meio dia, a notícia: eu teria que ir à região dos lagos naquele final de semana. Não poderia ser em outro, teria que ser naquele fim de semana, impreterivelmente. Como irei? De carro.
Melhor maneira. Apesar de eu não dirigir há quase um ano, apesar de não conhecer bem a estrada. Não me lembrava da última vez em que estive na região dos lagos do Estado do Rio de Janeiro, dirigindo. Talvez estivesse com saudades de dirigir. Sempre gostei de dirigir e aprendi com menos de dezoito anos com um rapaz que namorava na época, com quem viria a casar e ter filhos mais tarde. Ele me colocou num carro e saí dirigindo, como se sempre o fizesse. Pouco depois, tirei carteira de motorista e desde então dirijo sempre.
Quando cheguei ao Rio, decidi dar um tempo de direção de veículo. Queria mais que a vida me dirigisse a dirigir. Decidi que pegaria transporte público, metrô. Queria experimentar não tocar em carro. Tem dado certo.
Mas, naquele final de semana, naquela sexta-feira em que deveria ir às pressas à região dos lagos, cismei pegar um carro. A chuva? Nem me lembrei. Não irá acontecer. E não aconteceu na ida. Na ida.
Tudo fluiu bem e cheguei, no final da noite de sexta-feira, a Cabo Frio. Durante o final de semana, resolvi o que tinha a resolver e ainda deu para conhecer o forte São Mateus, dar um rolê na cidade, na paria do forte. Que linda cidade, lindas praias. Tudo mais calmo do que na capital. Casas com murinho baixo, sem cerca elétrica. Um indício de que pode ser uma cidade “segura”. Se bem que desconfio disso que se chama “segurança”.
Cabo Frio é uma cidade agradabilíssima. E se não fosse ela, a chuva, teria aproveitado mais
Segunda-feira, hora de voltar. Não chovia. Parei em São Pedro da Aldeia para almoçar, mais adiante para abastecer e tomar um café na casa do Alemão. Então, um engarrafamento. É uma segunda-feira. Natural um engarrafamento.
Aproximava-me da ponte Rio Niteroi e então a chuva já começara. Pouco depois, se transformou num dilúvio. Atravessar a ponte Rio Niterói sob um dilúvio não me pareceu uma boa ideia. Mas inevitável, a não ser que parasse o carro no acostamento e esperasse a chuva passar. Passar? Não passa. Melhor seguir.
Comecei a percorrer a ponte. Atenção máxima, eu não poderia errar um desvio, uma faixa. Chovia e não dava para enxergar um palmo adiante. Meu corpo todo enrijecido. Alguns veículos passavam dando rasantes. Apressadinhos corriam sob chuva alarmante. O letreiro luminoso pedia: redobre a sua atenção. Não havia mais como eu redobrar a minha atenção. Com relação aos outros, não podia fazer nada. Passavam correndo, fechando, Um ônibus passou em alta velocidade e distribuiu água de uma poça. Encharcou o carro. Tensão. Muita tensão. Tanta tensão que uma hora deixei para lá. Não adiantava.
Aí uma paz vinda não sei de onde pairou. Não pensava em mais nada. Não xingava os apressadinhos e irresponssáveis. Uma paz que eu nem suspeitava assumiu o controle. Uma luz no fim do túnel.
Não foi fácil, mas chegarmos.
Foto: https://www.pexels.com/pt-br/@golimpio/ Gilberto Olimpio

