César Gilcevi

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POEMADÉCIMA OITAVA EDIÇÃO

7/19/20267 min read

o inquisidor

o inquisidor desfila pela cidade em seu volkswagen

o stalker ceifou uma rosa do jardim da moça

e a sonha sem pressa entre as mãos

há uma suástica suarenta fincada no cais

dando as boas vindas aos pesteados

que ainda não sabem que morreram

dos arrabaldes vem um apelo que eu

filho de adão e da crueldade finjo não ouvir

eis a bíblia o sangue e o fuzil disse

o inquisidor às portas da cidade

eis mais uma travesti para alimentar a fogueira

sentenciou a multidão

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o eremita

a oeste deus é essa poeira desacreditada

que varre o mundo e me corrói os pulmões

no leste recém nascido um mar me salga os pés

sem sirenas leviatãs ou caravelas

me banho em seu azul resignado

do norte montado na meia noite milésima

vem o fantasma da liberdade incitar odisseias

pegadas profecias novas línguas

vem um minuano de perfumes

que me faz ouvir a cumplicidade

dissonante de um acorde

a sede de um búzio cavando a areia

no sul durmo e me pergunto

que anjo é esse que pisa os calos da minha febre

e se vai quando meus olhos se abrem?

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o aprendiz

hoje é o trigésimo terceiro dia da peste

sob a campa o verme farto diz

que todos os homens são iguais

minhas roupas exalam

um cheiro de chuva

conas cus e conhaques

que atraiçoa a tarde

apinhada de karmas

e credores

sob as patas de deus

o céu parece sentir dor

sentado à minha mesa

já está o fascista aprendiz

que delatará o azul

e a esperança.

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o pedido

o clarão do primeiro relâmpago

cegou o bezerro órfão e todas as galinhas

a mulher às minhas costas

cobria os espelhos os relógios

esconjurava engavetando as facas

na mesa apenas o prato esmaltado

seu gosto de lenha e ferrugem

a mulher era espadaúda

e há alguns anos não mais menstruava

ajoelhada olhava com devoção o altar

e dizia que são judas arcanjo dos fechados

me concederia uma dádiva

caso eu fizesse o que ela me pediria

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o número

na manhã

sete sóis

remoem

a bafagem

das lápides

centenárias

à noite

sete luas

encapelam

as verdes

ondas

à tarde

o sétimo anjo

vomitou

sobre o

tablado

de nuvens

no sétimo

mês o limo

lucilou e

lentamente

afligiu os

sete negros

selos

sete eclipses

antes sete

pragas

desceram

sobre os

cesariados

sétuplos

e sete

clãs

foram

amaldiçoados

quando soou

o sétimo sino

o sétimo

oceano

afogou

o último

homem

e nas sete

primaveras

seguintes se

precipitaram

as mulheres

sobre a cor

vermelha

...................

ordenado

lembro como se fosse hoje

da manhã em que minha vó se aposentou

haviam-se passado 730 milhões de dias

desde que o filho do deus se fora prometendo

retornar à terra e levá-la para o paraíso

logo acima da sua digital calosa analfabeta

foi como lavadeira de roupa que no papel

o patrão doutor atestou sua liberdade

e com a mancha azul de seu polegar

ela chancelou sua inteira responsabilidade

pela veracidade da declaração de que exercera

tal atividade por mais de cinco anos

e ficou ciente de que sua situação seria objeto

de investigação cancelando-se imediatamente

a mensalidade que estivesse percebendo

no caso de procedimento fraudulento

assim que recebeu seu primeiro mínimo salário

ela comprou novas roupas e sapatos para os netos

e em seu aniversário ao reunir a prole num churrasco

comunicou à primogênita mãe minha a sua herdade

na casa grande agora era dela a milenar canga

e disse graças a cristo agora só a minha família

é meu lavor e minha faina

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velhos hábitos

1

nunca sair de casa sem coragem e documentos

como meus ancestrais caminhar com altivez

pedir a exu a guarda entre o chão e o firmamento

nunca dormir sem antes rezar o salmo XXIII

atento instinto e o passo leve ao dobrar a esquina

o amanhã cuidará de si ou cada dia com sua agonia

não ficar sobrando em quebrada que não é a sua

mocar ou dispensar o flagrante ao pressentir a viatura

2

reacender o riso vulcão tímido que meu siso afiança

a mortalha do país defunto não me cobre a esperança

animal tropical troto sob o céu que não toca o mar

tatarana rio trágico barrondos veredas hei de festejar

neste oaristo eu mineiro e a procissão de fantasmas

trago sempre no bolso um bilhete pra pasárgada

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non sum unus ego legionem

o anjo de dasdor coxeava de um lado

e tinha os sapatos cheios de areia da praia

o de ester às quartas acampava sobre a campa

e comungava luzes toda sexta feira santa

o anjo de renilda era brabo bradava sua força sábia:

se um punhal fincado no flanco do inimigo

mesmo equidistantes rezaremos à ferrugem

o anjo de joanir era azul como um medo que não se despede

e certa vez estrepou a orelha de abano no estrepe

assim que o sono intumescia os olhos de tia zia

ela se via de mãos dadas com um arcanjo

caminhando num céu frio e mediano

infestado de semivirgens e aleluias

o querubin de minha irmã tinha quatro caras

uma de homem uma de boi uma de leão e uma de águia

o de minha prima tinha cobertas de olhos as quatro asas

o corpo de um leão e os pés de vaca

diziam os mais velhos que os dois já haviam montado guarda

na vereda que levava à árvore da vida no jardim do éden

a virtude de maria tinha o dom da ubiquidade

olhava de esguelha e fazia hora extra no orfanato da cidade

na última noite também sonhei com um anjo

ele desistiu de esperar que o último náufrago chegasse

bateu cartão e foi pra casa comer grumixama

seu olho lutuava lamentoso

ele era um espelho desesperado

conciliando porcos e apóstolos


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dia de clássico

o velho poeta místico sentado à mesa

é primo de longevo grau vindo do gerais

e pediu guarita à minha matriarca

até que a capital lhe dê um emprego

e um barraco alugado no subúrbio

passou a manhã tomando cachaça em silêncio

mas agora se levantou e caminha meio trôpego

até o fundo esmondado do quintal

onde corre o córrego

ele aponta para a pele d’água recita

um silabário hermético e depois se benze

minha mãe grita da cozinha

o almoço tá quase pronto cambada

meus sobrinhos formam

uma quizomba de erês

se perseguindo terreiro afora

minha irmã mais nova entra pelo portão

com um novo namorado

trazendo uma caixa de cerveja

e uma bandeira do galo

enrolada na cintura

o poeta místico vê os dois

e começa a cantar o hinário sagrado

lutar lutar lutar com toda nossa raça pra vencer

todos nós erguemos os punhos imitando o rei

e cantamos juntos: o nosso time é imortal

o cheiro de imburana da cachaça

me convida a uma talagada

minha língua queima e eu mando:

pau no cu do flamengo

e todos repetem pau no cu do flamengo

lá longe no litoral as praias endomingadas

praguejam saudosas dos dias úteis

aqui em minas desconsoladas heliotropias

perseguem os fiapos do firmamento

a lenha do fogão estala

no ar da tarde crivado de foguetes

prenunciando o início do jogo

o velho poeta ordena aos obedientes

buritis que desfaleçam e diz

ainda hei de escrever uma palavra prodigiosa

e primordial que não seja perecível

perante a eternidade

e digo mais hoje vai ser

6 a 1 pra nós

ele joga um gole da fumdamba pro santo

berra é 13 é galo

e emborca o coité

nos seus dedos riróseos

rubis ridentes

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favela s.a.

os tempos são sombrios

os deuses violentos

a guerra inadiável

mesmo assim temos mãos sorridentes

com elas colhemos a chuva

a rosa

e cantamos

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elegia cabocla II

já era tarde

quando sob a lua desalegre de patos de minas

o quebradiço nome deste amor

irrompeu da boca da deusa

ouvi então uma voz que me dizia

acena com alegria aos batéis e arrebóis

que não mais capitulam

esta noite de viço e singradura

bebe teu vinho come teu ópio

e verás que nas cercanias a neblina

acalma os olhos dos mortos indóceis

o vento inclemente não mais chibata o dorso do azul

como a avisar detém-te coração

tu já te fodeste muito

hei de te beijar a morna face

e quando acordares em aruanda

sob um novo sol

portento que do leste vem

te rebatizarei em um novo corpo

forjado no breve bronze do sonho

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já não durmo mais

o médico me dá comprimidos

mas como eles não fazem efeito

guardo-os na gaveta

e sigo sem dormir

sigo com meu inútil chá de camomila

com minhas tentativas de escrita

sob o bandeiriano satélite

que arde sem metáforas

da minha barriga recém flácida

pende o umbigo semovente

ando nu pela casa ouvindo john coltrane

mares de cerveja e morte

gordurosa bombeando-me

as tripas

toda noite invejo as luzes apagadas

na casa do vizinho em frente

invejo meu gato estirado sobre a almofada

máquinas de música e sonho

emperradas no peito

invejo a namorada que se despede

pontualmente às 11 horas no celular

vou dormir te amo

fica com deus

invejo os que não veem com agonia

o inseto se debatendo contra a lâmpada da cozinha

os que não ouvem o suburbano cão

abandonado na rua de cima

os pássaros noturnos que

se acasalam nas trincheiras

os que não gozam da companhia

de um deus que nunca dorme

os que simplesmente fecham os olhos e não sabem

que aqui não há o mijo de morfeu

para saciar a sede das lápides

que fedem a nicotina

não há nenhum evangelho nenhum império

que impeça o retorno do sol

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mandinga da coragem

em pleno verão bate-se com uma muxinga

num fervilheiro ou morrote de formigas

até que assustadas suem uma extrusão ácida

de cheiro veemente que ao zagaio desagrada

recolhe-se então bom montante de termitas

quais são postas numa alquitara de sabável pinga

depois sela-se e põe-se o alambique ao sol

quatorze dias após coa-se a bebedura no arrebol

a qual já terá consistência de meladura ou melaça

e mistura-se a ela meia onça de canela amassada

toma-se uma avultada colheraça deste elixir

num cálice de vinho antes de pra batalha partir

eis a aqua magnanimitatis a água da coragem

se dela beberes o medo e os inimigos jazem

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reza barroca de são pedro para curar espinhela caída

são pedro pescador milagreiro haliêutico de genesaré

são pedro petros penedo penha gravilha cefas kephas

são pedro fortaleza que me zela no firmamento me espera

são pedro negaça três vezes remida por jesus de nazaré

são simão saraiva seixo fraguedo rebo que revebera

são pedro primeva pedra nela jesus erigiu a capela

são pedro prélio perol pesqueiro primeiro da santa sé

são pedro curai minha caída espinhela te rogo com fé

são pedro preticor perolino filho de jonas irmão de andré

são pedro fero zagal vedro fragal vero que não verga

são pedro pirrotita fortaritia pétrea reza vela na treva

são pedro pilar perenal o praguedo no pilão esfarela

são pedro pedreneiro romeiro me erguei perpétua a espinhela

são pedro rochedo me repõe ela gema reta rocha ereta

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mandinga de rejuvenescimento dos antigos

o médico alemão henrique cohausen menciona

o fato de que o hálito das mulheres assaz moçoilas

aos homens velhos remoça e aos seus dias doira

em paris uma vivenda havia dizia rétif de la bretonna

onde com a velharia convivia mulheris virgens novas

mas sem qualquer contacto carnal ou intento de foda

porque se o velhustro tivesse intuito outro que não

da saúde fosse a cabal e roborada recuperação

perderia as forças e dali sairia em pior desdita

que aquela com que lá adentrou em esperancia

pois o desígnio não era a viril venérea excitação

e sim a vigorada revinda alvorada ao corpo ancião

e isto só conseguiria o senecto se sem sordidez

sorvesse da ânima da moça a calidez e sua vestal tez

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César Gilcevi é poeta, cantor, artista visual e produtor cultural.

Nasceu e vive em Belo Horizonte, descendente do povo indígena Puri. Lançou os livros Os ratos roeram o azul (Letramento, 2016), Retrato do poeta quando devedor do aluguel (Letramento, 2018) e Salmos mestiços (Caos e Letras, 2025). É vocalista da banda Carolina diz com quem lançou os discos Se perder (2004) e Crônicas do amanhecer (2008). Também canta na banda Cadelas Magnéticas com quem lançou disco homônimo. Seu primeiro disco solo será lançado ainda em 2026. Atualmente é produtor e curador no Cine Santa Tereza, primeiro cinema de rua público de BH.