Cecília Kemel

Apresentação do livro "Eu tenho tanto para me falar", de Zaira Cantarelli

DÉCIMA SEXTA EDIÇÃOPOEMAPROSA LITERÁRIA

5/25/20262 min read

Um colóquio sensível com o mundo dentro

Afirma Domício Proença Filho, na sua obra A linguagem literária,[1] que “Longe estamos de penetrar totalmente no mistério do processo criador da poesia.” Em cada verso, em cada termo escolhido para compor um poema está presente o universo no qual se move o autor, e ali se aprofunda seu olhar sobre o mundo a partir das experiências vividas.

Platão e Aristóteles, distinguindo entre os modos de representação, estabelecem que a poesia lírica é a pessoa do próprio poeta. Não é outra senão esta a definição da poética de Zaira Cantarelli. Seus versos, um mergulho no encantamento do lírico feminino, transmitem a leveza das vivências cotidianas, extraindo delas uma essência impregnada de sensibilidade. Ler seus poemas é como estar sentado à sombra de um frondoso pomar, degustando saborosos frutos.

Em que pese o título confessional, esta obra se compõe de textos voltados tanto aos sentimentos de solidão, silêncio e ausências, na procura do próprio ser, quanto de contemplação da natureza, explorando termos como ‘vento’, ‘azul’, ‘maricás’, ‘noite’, ‘penumbra’ e outros. Não exclui, nesse percurso, a alegria, as esperanças e ‘as esperas felizes’. Além disso, transita para fora de si, dedicando, com extrema emoção, expressivos poemas a pessoas de seu bem-querer.

Notório apontar que a originalidade, nos poemas de Zaira, é marcante e distinta, especialmente na composição de escritos que congregam personagens e obras de renomados autores da literatura, como também nomes conhecidos da vida política e social do país. Nesses casos, a reflexão cede lugar ao imaginário pincelado artisticamente com uma pitada de humor, como em “Love Story” (p.33), uma divertida conversa entre flores.

A poesia habita a sensibilidade poética de Zaira Cantarelli de tal modo que o jogo das palavras assume, inclusive, um apelo quase religioso:

A palavra corre

como folha seca na correnteza

escrevo para burlar a poesia

que provoca

evoca

convoca

carrego o peso do corpo

o fardo dos pensamentos

dos sonhos adiados

podados e encaixotados

Ave Poesia

cheia de graça

rogai por mim.

Utilizando uma linguagem direta e acessível, explorando o trivial e o profundo e lembrando, muitas vezes, a poética de Adélia Prado, a poesia de Zaira é assim: bela e doce; amena, muito embora densa. Fala no mesmo tom consigo e com o mundo ao redor. Esconde-se e aparenta. E acessa, com maestria, o local onde se encontra, onde adormece e acorda o mistério que envolve a criação. A nós, leitores, é dado apenas o prazer de usufruir; nunca o dom de desvendar a mágica. Confirma-se a premissa na voz da própria autora:

escrever me preenche

lacunas interiores

é alquimizar

o céu da existência

onde me obrigo

e me abrigo.

Cecilia Kemel

Mestre em Literatura Brasileira


[1] PROENÇA FILHO, Domício, 1936. A linguagem literária. 8.ed. São Paulo : Ática, 2007. (Princípios; 49) p. 14