Carmem Teresa Elias
ESCRITA DO FEMININO : REGISTRO E OCULTAÇÃO
DÉCIMA NONA EDIÇÃOPROSA LITERÁRIA
8/11/2026


ESCRITA DO FEMININO : REGISTRO E OCULTAÇÃO
por Carmem Teresa Elias
A perseguição contra a voz feminina é um problema estrutural na civilização humana, criado (portanto não natural), a partir de princípios dogmáticos semeados e impostos por interesses de dominação. Como tal, o apagamento da voz feminina não pode ser tratada de forma pontual, focada apenas no limite do presentismo, ou seja, do aqui e agora.
Aumentam os casos de feminicídio, misoginia, estupros, como consequência, mais uma vez, de a voz feminina ter sido perseguida e deturpada há milênios! Para que esse ciclo de condicionamento social se rompa é fundamental revisitar, rever e reavaliar as estruturas que foram construídas e impostas na psique humana.
Em tempos absurdos em que se volta a questionar a validade do sufrágio da mulher, como tem sido defendido de novo atualmente, destaco uma parte do capítulo 4 de meu livro “Escrita do Feminino: Registro e ocultação. Uma viagem histórica pela literatura de ofuscamento do feminino”. Como fruto de pesquisas, trago o discurso de Hortênsia em 42 a.C , mulher romana numa sociedade na qual a mulher só tinha o direito e dever de procriar. Ela se destacou na história romana por defender os direitos das mulheres em um fórum público. Hortênsia ousou entrar nas tribunas públicas do Senado Romano, e discursar mesmo sem permissão, criticando severamente a cobrança de tributos excessivos a mulheres, principalmente viúvas de guerras. Em seu argumento, o fato de que mulheres não tinham representação política, não podiam exercer cargos públicos, logo, não poderiam sofrer cobranças de taxas e impostos. Os relatos da época, incluindo os do historiador Valério Máximo, afirmam que ela defendeu as mulheres com grande eloquência, superando a oratória de muitos homens.
Na página 84 de meu livro eu cito o discurso do senador romano Severo Cecina: “O sexo feminino não somente é débil e incapaz para o trabalho, mas se lhe é dada excessiva liberdade é cruel, ambicioso, sedento de poder; começa a caminhar entre os soldados, a ter sob suas ordens os centuriões". Entre vários argumentos, Hortênsia retornou: “Por que devemos pagar impostos se não participamos das magistraturas, das dignidades, do comando do exército, nem das funções de governo que disputais com tão danosos resultados? Respondem-nos: "Porque é época de guerra". Quando não estivemos em guerra? Sempre estamos. Agora querem que paguemos por guerras que não criamos. Quando impostos foram lançados sobre mulheres, que deles são isentas, pelo seu sexo, em toda a humanidade? Hortênsia foi a primeira mulher a defender o direito do sufrágio feminino embora a história oficial apresente a primeira mulher a formalizar a defesa dos direitos das mulheres no mundo a escritora e filósofa inglesa Mary Wollstonecraft, que publicou a obra "Reivindicação dos Direitos da Mulher" em 1792. No Brasil, a pioneira foi Nísia Floresta, que lançou o livro "Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens" em 1832.
Para possibilitar uma reconstrução do feminino, uma etapa essencial engloba quebrar os mitos do estereótipo de mal plantados e enraizados na mente social. Mitologia é encontro simbólico com deslumbramento e com o medo: dois alicerces fundamentais da pisque e do inconsciente do ser humano. Mitologias atuam entre as esferas do sagrado e do profano. Nos primórdios civilizatórios, a mulher ocupa o centro do espaço sagrado: a fertilidade era entendida como digna de alocar a mulher no espaço divino. Naquela época, Enheduanna, por exemplo, era uma líder política, religiosa e social na Suméria. Uma mulher na condição de deidade. Considerada a primeira pessoa real a assinar um texto como autora. Uma mulher humana junto a deusas como Ann e Ishtar. Seus poemas, resgatados somente após a década de 1980 são exaltações da força das deidades femininas. Porém, à medida que povos foram conquistados e libertados, a mulher foi arrancada do sagrado. Por quê? Medeia, um dos mais fortes mitos e personagens da literatura clássica, foi caracterizada como uma mulher deplorável que matou os próprios filhos. A história de Medeia foi criada para associar o feminino ao medonho, propositalmente. De que vale reler e resignificar Medeia? Medeia TEM A VER COM AS CAMPANHAS ANTIMIGRATORIAS ATUAIS! Vejamos: mitos masculinos também ousaram matar os próprios filhos e em vez de amaldiçoados foram sacralizados. É o caso de Abraão, que mataria o próprio filho - “a mando de Deus”. Por que Abraão não foi mal e Medeia sim? Em ambos os casos há uma necessidade de uma raça pura!!!! Abraão saiu com seus companheiros para fundar um novo povo! Uma nova civilização. Uma nova sociedade. Medeia, por outro lado, era uma mulher estrangeira trazida para dentro de uma sociedade já existente. Em Medeia, a misoginia aparece carregada de xenofobia - a estrangeira, a que vai contra a eugenia pregada por Grécia . Medeia era uma ameaça ao culto grego à raça pura, ao passo que Abraão foi fundador de um novo povo e como tal precisava ser alocado na esfera sagrada, mesmo que o assassinato do próprio filho fosse necessário . Entre Medeia e Abraão ( ambos personagens mitológicos) existe o mesmo mito do sacrifício, sacrifício dos próprios filhos, porém com interesses opostos. Para Medeia, revestiu-se o medo , a morte, a raça impura. Para Abraão, o deslumbramento, a raça pura, a nova terra para uma nova raça.
A questão dicotômica do sagrado e da heresia aparece reforçada na Idade Média. Marguerite Porete é identificada como autora da obra “O Espelho das Almas Simples e Aniquiladas e que Permanecem Somente na Vontade e no Desejo do Amor”, que lida com a questão do amor Divino, ou seja, o Amor ágape. Segundo a autora, proibida por séculos, ao ser humano existe a possibilidade do acesso da alma humana à essência de Deus, sem necessidade de uma intervenção Divina. Porete em 1310, ensinou que a alma que está verdadeiramente unida ao amor de Deus se torna tão vazia de si mesma (“aniquilada”) que não precisa mais dos intermediários da Igreja ou mesmo da prática das virtudes – ela repousa inteiramente na vontade de Deus. Acusada, por este motivo, de misticismo radical do amor. Em sua opinião, a alma poderia passar por uma jornada transformadora , passando do medo servil de Deus à união perfeita e à liberdade no amor de Deus. No estágio mais alto, a alma é uma com a vontade de Deus a tal ponto que não possui nem mesmo a virtude como sua – somente Deus está agindo nela. Para Porete, bastava o deslumbramento; para os governantes, ela representava o medo de perda do poder. Marguerite Porete descreveu esse estado como a “Alma Aniquilada” – não significando destruída, mas totalmente entregue ao Amor Divino. Essa alma, ela escreveu, é “tão livre que não pode querer nada além do que Deus quer”. Para a mente convencional, isso soava como dizer que tal alma não precisa orar, jejuar ou obedecer – uma má interpretação grosseira, mas que seus Inquisidores aproveitaram. Acuada de misticismo radical do amor, seus livros foram proibidos e Porete foi queimada viva em praça pública. Esses e muitos outros exemplos de autoras, personagens e textos acerca do feminino são analisados no livro “ESCRITA DO FEMININO: RESGATE E OCULTAÇÃO. Uma viagem histórica pela literatura de ofuscamento do feminino”, da autora, pesquisadora e docente Carmem Teresa Elias. Você encontra autorias que chegam aos dias atuais e ainda percebe como muitas delas se relacionam entre si! O obra pode ser adquirida pela livraria Scortecci on-line pelo WhatsApp +55 11 95520-3535 Ou diretamente com a autora pelo e-mail carmemteresaelias@gmail.com.
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Carmem Teresa Elias
Pós-graduada em Letras (Inglês-Português e respectivas Literaturas), pela University of Cambridge, Universidade Federal Fluminense (UFF) e Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Pesquisadora e palestrante em Literatura Comparada e Gêneros Textuais. Atuou como docente em instituição federal, nos níveis de Ensino Médio e Universitário por 30 anos. Autora de dezessete livros literários já publicados, entre poemas, contos, crônicas, romance , dramaturgia e análises literárias. Autora de diversos artigos acadêmicos e de apostilas de material didático para o Ensino Médio e Universitário. Escritora com premiações oficiais por instituição públicas — Feira do Livro de Genebra, Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, Prefeitura de Petrópolis, entre outras. Diretora e criadora do projeto educativo Poesias ao Acaso, que oferece exposições e oficinas de criação artística e literária em escolas desde 2012. Artista plástica com 5 exposições individuais em pintura AST e fotos, e mais de 50 coletivas. Curadora responsável pelas exposições coletivas “Viventes - Tributo a Sebastião Salgado, ao meio ambiente e à dignidade humana”, que vem percorrendo várias cidades em 2026. Curadorias anteriores: “LAD - Literatura, Arte e Design” na Casa França Brasil; “Devoção” na Universidade Estadual do Rio de Janeiro( Uerj); “Raízes, Mitos e Lendas de América”, no Consulado Geral da Argentina.