Bruna Mitrano
Três poemas extraídos do livro Ninguém Quis Ver, Companhia das Letras, 2023
POEMADECIMA QUARTA EDIÇÃO
3/30/20262 min read


nome próprio
o vassoureiro
o moço da pipoca
o feirante
o catador de latinhas
a voz do carro do pão
o rapaz morto ontem
o garçom
o motorista da van
o camelô
não têm nome próprio
os animais de rua também
não têm nome próprio
nem ocupam cargos públicos
a mulher nunca tem nome próprio
é a mulher do Fulano
a minha avó não teve nome próprio
os filhos a chamavam de mãe
eu a chamava de vó
e ela sempre atendia
a minha avó me ensinou
a atender prontamente
e a morrer sozinha
ela também me ensinou
a degolar franguinhos
e que as mulheres são sempre
propriedade de alguém
menos as que matam o marido
e fogem com a cabeça
numa sacola de mercado
essas ganham nome
nos jornais
e ameaçam o anonimato
das mulheres que em breve
vão aprender
a degolar franguinhos.
Mitrano, Bruna. Ninguém quis ver (Portuguese Edition) (pp. 48-49). (Function). Kindle Edition.
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intuição
sentei perto dos urubus
o homem que passava disse
tenho nojo de você
expliquei a ele que os urubus
procuram na carcaça
as partes moles e quentes
ele deu as costas xingando
e sacudindo as mãos
olhei pros urubus
eles também me olharam
complacentes com aqueles
olhos sem branco
o homem
o seu corpo inquieto
era como o animal que esperneia
antes de morrer
sabíamos no entanto
que ele não morreria
que ele estava mais vivo que nós
que não temos mãos
nem pedras nas mãos
pra atirar em quem
nos causa repulsa
apenas alguma intuição
de encontrar
partes moles e quentes.
Mitrano, Bruna. Ninguém quis ver (Portuguese Edition) (pp. 42-43). (Function). Kindle Edition.
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no silêncio
não se diz não prum homem
armado até os dentes
o medo do que já aconteceu
ainda é medo?
sangrei no silêncio
nenhum grito de revolta em meu
nome
faz dois anos quinze dias e seis horas
que não choro
as pessoas falam
as pessoas sempre falam
mas nenhuma voz sustenta
ou abate
o corpo violado.
Mitrano, Bruna. Ninguém quis ver (Portuguese Edition) (p. 78). (Function). Kindle Edition.
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BRUNA MITRANO nasceu em 1985 no complexo de Senador Camará, na periferia do Rio de Janeiro. Professora e escritora, tem textos publicados em diversas antologias e é autora do livro de poemas Não (Editora Patuá, 2016).