Brasília: mais mineira ou goiana?
Cronica de Ana Lúcia Franco
CRÔNICASEGUNDA EDIÇÃO
8/31/20253 min read
Enquete do colégio da minha filha, por ocasião do aniversário de Brasília, perguntava se os pais achavam a cidade mais mineira ou goiana. Juro que ao escolher a escola da minha filhote procurei a melhor, dentro das minhas possibilidades. Mas, decepção atrás de decepção.
Aí veio a enquete. Pus-me a buscar o porquê de estarem interessados em saber dos pais de alunos se Brasília é mais mineira ou goiana. Qual a lógica disso? Ah, ando sedenta de lógica sim. Sei lá se é mais mineira ou goiana. A essas alturas, Brasília já é Brasília, com cara e jeito de Brasília. Uma mescla de todas regiões do país, que resultou numa brasilianice própria. Ou pelo menos a cidade está nesse processo.
Está certo, Minas e Goiás, por serem estados próximos e fronteiriços, influenciaram bastante a identidade cultural de Brasília.
Mas, sim, a cidade já teve sua fase bem mineira. Anos oitenta. O pão de queijo era incorporado definitivamente aos hábitos alimentares da cidade. Em qualquer balcão de padaria ou confeitaria, havia pão de queijo. Dez entre dez adolescentes comiam pão de queijo na cantina da escola. Se íamos estudar na casa de algum coleguinha, se algum coleguinha vinha até nossa casa, lanchávamos pão de queijo e suco de laranja. Nunca gostei de refrigerante. E pão de queijo que se prezava era preparado com queijo de minas.
Foi nessa época que começaram a vender queijo de minhas pelas ruas da cidade. Hoje, camelôs espalhados pelos quatro cantos da cidade vendem queijos e frios lá das bandas da mantiqueira. E tudo começou naquela época.
Também na música, anos oitenta em Brasília era uma mineirice só. Lembro de que ganhei um disco (naquela época era vinil), com uma coletânea de músicas do Beto Guedes. Ouvia o dia inteiro. Sal da Terra, Paisagem pela Janela, Lumiar, embalavam os finais de semana. Logo, os violões dos amigos na quadra entoavam as músicas do Beto Guedes. Nunca fui muito de Madonna, Menudo, essas coisas. Preferia um Beto Guedes, um Lou Borges, um Paulinho Pedra Azul.
Na época, uma vizinha da 303, mineiríssima, trazia roupas e malhas de Belo Horizonte para revender. E as roupas fabricadas em minas se espalharam pela cidade.
Nos anos 80, comíamos, escutávamos música e nos vestíamos mineiramente.
Nos anos 90, a cidade “goianou”. Ou já era goiana, só que percebi a goianice nos anos 90. Nessa época, pela primeira vez, li um poema de Cora Coralina (poeta de Goiás Velho), comi empadão goiano e arroz com pequi. Lembro de que o empadão goiano me foi oferecido lá por meados dos anos 90 como a sétima maravilha da culinária. Mas, não gostei. O recheio tinha muita coisa: frango, ovo, milho, ervilha, tudo junto. Também nunca fui muito de arroz de pequi. Prefiro o fruto do pequi nas árvores e não na mesa.
Nos anos 90, brasilienses passavam cada vez mais os finais de semana no estado de Goiás. Não tínhamos um Cabo Frio ou Petrópolis, então íamos para Caldas Novas, tomar banho em piscinas de água quentes. Nessas piscinas, as pessoas passavam o dia inteiro. Havia bar e lanchonete dentro da piscina, para que as pessoas não saíssem dela. Bebiam e comiam dentro da piscina, passavam o dia e a noite na piscina, que acabava com as águas cor de caldo de cana. Tem tempo que não vou a Caldas Novas, não faço muita questão de tomar banho naquelas piscinas.
Mas para Caldas Novas já íamos nos anos 80. Nos anos 90, descobrimos Pirenópolis e Alto Paraíso. Virou moda ir para essas cidades nos finais semana e feriados, onde podíamos tomar bons banhos de cachoeiras, apesar das cachoeiras de Brasília mesmo serem até melhores do que as de Pirenópolis, por exemplo. Mas, moda é moda. E valia sair um pouco de Brasília e dar umas voltinhas nas redondezas.
Ah, nos anos 90, íamos também para a capital Goiânia, cidade muito simpática. E os garotos de Brasília gostavam bastante de, naquela época, passarem os finais de semana em Goiânia para “pegarem” as menininhas, como diziam. As brasilienses tinham que se virar para manterem seus namorados na cidade nos finais de semana. E se o namorado sumia no final de semana e se descobria que esteve em Goiânia, melhor fingir que não aconteceu nada e deletar a informação. É, havia o perigo de perdermos nossos namorados para as goianas. Mas, não tínhamos rivalidades. Tudo transcorria na base do : “não sei de nada, não vi nada”.
E incorporamos tanto sotaques mineiros quanto goianos. Dos mineiros, o “uai” é comum ser ouvido por aqui. Dos goianos, o “véi” e o “fia”, nos finais das frases, ouvem-se com facilidade em Brasília.
Mas, há também sotaques cariocas, do sul e do norte do país. Imaginem uma imensa batedeira de sotaques e culturas. Mistura, mistura. E hoje já está quase no pronto o “bolo” cultural brasiliense.
Realmente não soube responder à enquete do colégio da minha filha. Vou pedir para a orientadora, se possível, acessar o blog e ler esse texto. Se ela tiver um tempinho, claro.