Antonio Carlos Secchin
Poemas selecionados do livro "Desmentir", ed. Patuá, 2026
VIGÉSIMA EDIÇÃOPOEMA
9/19/20262 min read


Soneto do corretor ortográfico
Quis escrever amor, saiu ameixa.
Em vez de um físico, cumprimentei um fígado.
Troquei o nada por Arnaldo.
Comi um sanduíche de beijo quente.
Li o contrato, mas não dei o meu azeite.
Esta vida é um vale de látex.
Índios navegam em sólidas pirocas.
O coletivo de lobo é Marília.
Bebi meu choque gelado na mutreta da Urca.
Não precisava odiar Woody Allen.
É um espeto morar na casa do Ferreira.
Ela contou tudinho, tim-tim por tim maia.
Fui buscar o Alan e saí torturado.
Viva a diversidade do nosso Sexo XXI.
**
Além
O poema acaba aqui.
O que vem agora não é meu,
nem sei de quem seja.
Além de mim, com clareza,
a poesia passeia,
num rumor de bruma e incerteza.
Seu banquete começa depois que eu já tirei a mesa.
Desligo o som do poema.
Ele insiste, à revelia.
O poema por fim
avança à sua origem:
lança na cara da luz o pólen da letra.
E vai, num voo feliz,
se transformando
em aprendiz de borboleta.
**
Sobre uma flor
O orvalho está prosa:
começa vindo do azul,
mas acaba em rosa.
**
Brinde
Enchi de sol meu copo d'água
e me brindei ao som de um violino.
Me molhei na luz que a tarde assoviava
e cantei à beira de um silêncio a pino.
Passei por perto de estar quase ali,
perdi o ponto de onde não parti.
Zombei da fome porque havia trigo,
briguei comigo e só assim venci.
Levei na mala minha alma pássara,
anunciei ao mundo a minha sorte súbita:
tocar na vida sem qualquer trapaça,
mistério zero,
delícia igual ao gozo matinal de uma fruta.
Vida, te agradeço.
Setenta anos e ainda em recomeço.
**
Antonio Carlos Secchin nasceu no Rio de Janeiro, em 1952. É professor titular de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFRJ, tornando-se sucessor da cátedra anteriormente ocupada por Alceu Amoroso Lima e Afrânio Coutinho. Doutor em Letras pela mesma Universidade
Poeta com muitos livros publicados, destacando-se Todos os ventos (poesia reunida, 2002), que obteve os prêmios da Fundação Biblioteca Nacional, da Academia Brasileira de Letras e do PEN Clube para melhor livro do gênero publicado no país em 2002.
Ensaísta autor de 3 livros, dentre eles João Cabral; a poesia do menos, ganhador de 3 prêmios nacionais, dentre eles o Sílvio Romero, atribuído pela ABL em 1987. Em 2001, organizou a Poesia completa de Cecília Meireles, na edição comemorativa do centenário de nascimento da escritora. Em 2003, publicou Escritos sobre poesia & alguma ficção, reunindo cerca de 50 artigos e ensaios.
Autor de mais de três centenas de textos (poemas, contos, ensaios) publicados nos principais periódicos literários do país e do exterior. Sobre sua obra já escreveram favoravelmente ensaístas como Benedito Nunes, José Guilherme Merquior, Eduardo Portella, Alfredo Bosi, Antônio Houaiss, Sergio Paulo Rouanet José Paulo Paes, André Seffrin, Ivo Barbieri, Fábio Lucas e Ivan Junqueira, entre outros
Eleito em junho de 2004, tornou-se o mais jovem membro da Academia Brasileira de Letras: http://www.academia.org.br/