Angel Cabeza

Crônica: "ser feio é sinal de inteligência"

VIGÉSIMA EDIÇÃOCRÔNICA

9/18/20264 min read

Ser feio é sinal de inteligência

Um tema interessante de se confabular em mesa de bar é inteligência. Ou melhor, a inteligência alheia. Não são necessários porres dionisíacos, doutores em filosofia ou amantes de palavras cruzadas. Alguns amigos com fundamentos duvidosos e hipotéticos dão conta do recado.

Assim foi o meu fim de semana com dois camaradas. Sentamos, olhamos uns para os outros e danamos a conversar baboseiras, porque bar é lugar de baboseira ou cultura. Às vezes, cultura também é baboseira, mas gera uma bela canção, poema ou crônica. E não me deixam mentir Vinícius e Tom: beber e falar besteiras tem suas vantagens, embora eu prefira a sobriedade. Se sóbrio sou lamentável, embriagado nem se fala.

Apesar de não ser dado a longas reuniões boêmias por conta da idade, das costas ou das contas, cumpro o papel social com afinco e prazer.

Depois de beber por algum tempo (confesso ter tomado dois sucos de abacaxi com hortelã e uma limonada suíça), um dos amigos toca no assunto sobre a beleza do feio, algo que escrevi certa vez. Tentei desviar, mas Cidão me ameaçou com um pedaço de aipim.

— Qual é a do feio ser bonito, Cabeza?

— Você sabe.

— Sei nada. Filosofa aí.

— Isso é coisa do Vinícus, do Bandeira, do cantor Falcão... Esquece, Cidão. Já consertou o carro?

Mesa de bar também é lugar de amigo inclinado à filosofia. Flanela, camarada especulador, interrompe com suas conclusões.

— Sabe, Cidão, tenho minhas percepções. Se o cara é feio, possui inteligência; se for bonito, podes crer que é burro — mata no peito Flanela.

Quase cuspi o suco. Nos olhamos em silêncio por alguns segundos e me senti na obrigação de quebrar o assombro.

— Isso é generalização, Flanela.

— Você não vê esses modelos? Todos esbeltos, cadavéricos e...

— Não é bem assim. Possuem cultura, estão ligados ao mercado e ao contemporâneo. E fale baixo, pois as pessoas podem ouvir — balbucio.

— E os escritores? Já viu a cara do Bukowski? Parece cão chupando limão, porque manga é doce.

— Flanela, muitos não gostam do Bukowski. E também me arrisco nas letras, esqueceu?

— Você não é feio.

— Sou burro?

— É razoável.

— Então sou feio?

— Pintoso. Talvez modelo lhe caísse bem.

— De como não ser modelo, né?

— Você está indo bem.

— Nem ao céu e nem ao mar — finalizo.

Cidão abre a boca para complicar a ilogicidade da conversa, me ameaçando, agora, com um queijo coalho na geleia de pimenta.

— Falei pra você, não falei? Escrever essas coisas não dá certo. Mas Flanela tem razão, não existe isso de ser lindo e intelectual. Cada quesito tem seu peso. Ganha por um lado, perde por outro.

— E tem a ver comigo?

— Você é feio e escreve. Se fosse galã, intelectual não seria.

— Pelo menos um pouco de sinceridade.

— Pensa bem, todo feio é inteligente. É só olhar pra nossa mesa. Inteligentes.

— Não quero magoar ninguém, Cidão, mas não somos intelectuais.

Flanela corta a conversa com nova teoria.

— Intelectual é mais que feio, pediu pra vir torto. Olha o Sartre.

— Aí você foi longe demais — tento amenizar.

— Intelectual é bicho alheio.

— Até concordo, mas as razões são distintas. Eu seria o quê?

— Feio.

— Você disse pintoso.

Cidão corta Flanela, me ameaçando, dessa vez, com uma sardinha frita.

— Ignora. Ele está alterado. Você é feio e ponto.

— E as escritoras, hein? — tento contestar — Clarice, Ana Cristina Cesar... Lindas e inteligentes. Posso enumerar outras se quiser. Seu argumento é frágil.

— Mulher é exceção. É bonita de qualquer jeito: escrevendo, falando... Você mesmo disse que...

— Eu disse?

— Escrever, dizer, é tudo a mesma coisa, Cabeza.

— Não falei nada disso. O texto era sobre outra questão.

— Dá no mesmo. E o National Geographic sempre explica o motivo das coisas.

— Mas isso não passou no National. Você também está um pouco alterado, não?

— Quem se importa? Posso provar. Os caras da Academia Brasileira de Letras, todos feios.

— Pra você. Lá reside a nata literária e...

— Da feiúra, isso sim. Quer entrar pro clube?

— Não, mas...

— Viu? Feio de dar dó.

— Só por gostar de literatura?

— Sim. Seria bonitinho se não gostasse.

Pressentindo o alongamento dos comentários e possíveis desfechos — Flanela apontava para um musculoso na mesa ao lado, insinuando ser desatento — pedi a conta alegando compromisso. Cidão até tentou me ameaçar com um pedaço de linguiça, mas filosofar, pelo menos para mim, não é sinônimo de olho roxo.

Feio ou bonito, não importa. O bom mesmo é quando tudo termina em uma canção ou crônica.

***

Angel Cabeza nasceu no Rio de Janeiro. É poeta, cronista, produtor editorial e gráfico e artista visual. Publicou A última romã (Primata, SP, no prelo) e Canção para os seus olhos e outros castanhos (poemas, Urutau). Integrou, como artista visual, as exposições Labirinto das Artes, (Consulado-Geral da Argentina no Rio de Janeiro, 2025), Mostra Visual de Poesia Brasileira (Teatro Trianon, Cabo Frio, RJ, 2024), Mostra Contempla (Funarte, SP, 2025, CC Correios, DF, 2026) e a mostra Viventes – Tributo a Sebastião Salgado (ReservArt Galeria – Reserva Cultural, RJ, Niterói, 2026). Possui textos em coletâneas e revistas literárias nacionais e estrangeiras.