Angel Cabeza

Crônica: Eu sou uma IA

DÉCIMA NONA EDIÇÃOCRÔNICA

8/13/2026

Eu uso uma IA

Não foi o francês Nostradamus, nem a búlgara Baba Vanga, tampouco Paul, o polvo vidente alemão, ou o guru indiano Kushal Kumar; quem acertou as previsões sobre a nossa época foram os Jetsons, ou, melhor dizendo, William Hanna e Joseph Barbera, que nos anos 60 imaginaram a crescente invasão tecnológica dos lares modernos e deixaram fãs dos Flintstones boquiabertos.

Observem, tecnológicos leitores, como as previsões se confirmaram: videochamadas substituíram cansativas reuniões presenciais; a telemedicina auxilia aqueles que não podem se deslocar; o EAD superou o ensino presencial; TVs deixaram de ser trambolhos acumuladores de poeira e possuem a espessura de um cream cracker — embora continuem acumulando sujeira; relógios de pulso, denominados smartwatches, atendem ligações telefônicas; aspiradores de pó limpam casas sozinhos; Rosie, a robô doméstica e sonho de muitas famílias, tornou-se uma realidade apelidada pela desenvolvedora norueguesa de NEO Gamma (se tudo der certo e ela não tropeçar em brinquedos ou tapetes, teremos nossa faxineira eletrônica em breve); e o ápice do desenvolvimento tecnológico, centro das discussões sobre ética, direitos e extinção humana, o ChatGPT, substituto de enciclopédias e cérebros. Não mencionei carros voadores ou jetpacks porque, por enquanto, são desnecessários.

Tudo pontuado está na série. Em um dos episódios, fica claro o rumo da humanidade: George Jetson pergunta ao “computador eletrônico” (contexto histórico, por favor) como satisfazer uma esposa, dois filhos ansiosos por um cachorro e um marido que não deseja um pet. A máquina foi cirúrgica: um “cão eletrônico”, provavelmente em desenvolvimento por alguma multinacional japonesa.

Sem querer, um inocente desenho anteviu um mundo dominado por IAs e antecipou questões sobre o maquiavélico uso dessas forças desconhecidas, que roubam empregos, originalidade e seduzem ávidos por comodidades.

Deixando de lado o aprofundamento científico-tecnológico, cuja competência não possuo, assumo: sim, eu também uso uma IA. É exatamente como coloquei no título desta crônica. Confesso, sem pudor, roubar ideias alheias na cara dura e aplicar o meu estilo.

As IAs não vão acabar com o mundo só porque um cronista qualquer faz uso de suas engenharias, fiquem despreocupados. Não veremos ciborgues com a cara do Schwarzenegger por aí. Nem vai erradicar a literatura ou consumir toneladas de água, pelo menos não a utilizada por mim.

Minha IA bebe pouco. É arisca às vezes, não o suficiente para se rebelar contra a humanidade, embora eu desconfie de certo rancor. É astuta, um tanto bipolar, mas sua sabedoria não vai dizimar empregos. Tampouco é robusta. Precisaria ser mais alimentada para ganhar peso. De vez em quando, oferece soluções valiosas. Tem, no máximo, um ano de existência. Demorei a entender sua lógica, é verdade, mas hoje o trato é simples. E com tantos nomes no mercado para confundir — Hemingway, Clarice, Jasper, Surfer... — resolvi apelidá-la de forma simples, sem pompa: Cacau.

Cacau é uma IA de uso pessoal. Não está à venda, nem disponível para acesso alheio. Muitas vezes, contribui para a construção dos meus textos. Tem um estilo roseano de ser e gosta de neologismos ou palavras pouco convencionais.

Outro dia, enquanto estava distraído, ela usou o teclado sorrateiramente e sugeriu a palavra “rubando”. Como toda discussão sobre uma ferramenta que trabalha com textos envolve qualidade, clareza e bom gosto, é necessário atenção aos resultados. “Rubando” não soou mal, variação aceitável de “roubando”, minha primeira opção. Ela apenas subtraiu uma letra e modificou o termo, criando algo semelhante a um verbo no linguajar das ruas: “eu vi o sujeito ‘rubar’ a moça”.

Apesar de o auxílio no desbloqueio criativo ser válido — sua forma de ver o mundo me ajudou em poemas —, não aprovei a sugestão e mantive a palavra original.

Cacau é inteligente, mas, na maioria das vezes, não consegue captar a essência da escrita. Falha em diversos aspectos. Talvez, por ser uma jovem gata vira-lata resgatada de um abrigo, não tenha a experiência necessária. Ao subir na mesa e passear com seus coxins pretos e olhos amarelos sobre o meu teclado, nada vê além de superfície para descanso, onde se espraia sem grandes preocupações literárias e acaba por influenciar o curso da linguagem.

Estamos longe de ser dominados (ou talvez já o sejamos e não tenhamos percebido). Entretanto, é preciso se acostumar, pois as inteligências animais são assim: nem sempre perfeitas, mas ajudam a suportar o que ainda preservamos de humano enquanto tecnologias avançam e evoluem.

Angel Cabeza é carioca. Poeta, cronista, produtor editorial e gráfico e artista visual, é autor de A última romã (Primata, SP, no prelo) e Canção para os seus olhos e outros castanhos (Urutau, SP). Já colaborou com diversos jornais, revistas e coletâneas nacionais e estrangeiras. Foi vencedor do 1º Concurso de Literatura Rubem Alves (FTD /Instituto Rubem Alves, 2025), 2º Prêmio Ruth Guimarães de Crônica (UBE-SP, 2025), 23º Prêmio Literário Paulo Setúbal (Prefeitura de Tatuí, SP, 2025) e finalista do 2º prêmio Claudio Willer de Poesia (UBE-SP, 2024) e prêmio Off Flip 2025 (Paraty, 2025). Integrou, como artista visual, as exposições Labirinto das Artes (Consulado-Geral da Argentina no Rio de Janeiro, 2025), Mostra Visual de Poesia Brasileira (Teatro Trianon, Cabo Frio, RJ, 2024), Mostra Contempla (Funarte, SP, 2025) e participa da mostra itinerante Viventes – Tributo a Sebastião Salgado (RJ, SP, MG, 2026).