Andre Giusti

Conto: Assédio a Menores

DÉCIMA OITAVA EDIÇÃOPROSA LLITERÁRIA

7/19/202612 min read

Assédio a Menores

André Giusti

Sempre alguém diz que teve uma professora ou um professor, na escola ou na faculdade, que fez a diferença em sua vida.

Não foi diferente com o escrivão de polícia Alberto Augusto. Ou melhor, não foi exatamente igual.

“Alberto, suas notas podem melhorar bastante”, e ela o olhou de um jeito que era como se seus olhos fossem entrar pelos de Alberto Augusto, futuro escrivão de polícia. E a lembrança de Neuza, professora de biologia, e de tudo o que ela representou, se descortinou em sua memória naquela tarde de sábado de plantão na segunda delegacia de polícia, na Asa Norte. O gatilho da lembrança foi uma dona empertigada que entrou de vestido imitando pele de onça, bijuterias que pareciam joias, cabelo com tinta loura, chave de um Honda entre os dedos e um perfume que em dez segundos tomou conta da delegacia. Já chegou dizendo que trabalhava no Tribunal de Justiça do Distrito Federal, supondo que aquilo fizesse diferença para a polícia. Ao menos para o escrivão Alberto Augusto, não fazia.

“Você perdeu metade da questão sobre ácido ribonucleico. E olha que eu passei a aula inteira explicando. Você não pôs na resposta que o RNA é ‘encontrado também no citoplasma da célula’. Podia ter tirado uma nota maior”. Mas Neuza, a professora, não disse isso ao modo das professoras, com aquele tom de advertência, de chamamento à razão, fazendo alarde. Disse com uma voz sestrosa, mantendo os olhos dentro dos olhos de Alberto Augusto, futuro escrivão de polícia; disse isso com as pontas dos dedos de uma das mãos pousadas em seu ombro, fazendo uma leve e insistente compressão. Era hora do recreio, e ele ficara em sala para terminar um trabalho de português que deixara para a última hora. Ela passou e do lado de fora viu a sala vazia, apenas com Alberto Augusto lá dentro. Entrou fazendo cara de quem enxerga oportunidade. O estranhamento do aluno com a preocupação da professora é que suas notas eram boas, e os dedos de Neuza já quase o massageavam no ombro. “Podem melhorar bastante”, ela achava. Isso, Neuza dizia com a boca, e com os olhos enfiados nos do aluno, entregava outras intenções além das pedagógicas, naquela tarde de uma quarta-feira, numa sala de aula vazia em hora do recreio no razoável colégio de Cascadura, onde estudava o aluno que morava em Quintino e que anos depois faria concurso para virar escrivão da polícia civil do Distrito Federal.

“Eu quero registrar uma queixa”, a dona anunciou aboletada na cadeira em frente ao guichê em que atendia Alberto Augusto. Certamente que era para isso, não havia dúvida, do contrário não estaria ali. Mas qual seria a queixa da dona efusiva, cheia de formas em seu revestimento de onça, tilintante em seus gestos de bijuterias, onipresente na sala com seu perfume? “Sobre abuso sexual”, mas parou e logo corrigiu. “Melhor. Sobre abuso sexual e corrupção de menores”. Falou parecendo querer que o alvo de sua denúncia já fosse condenado ali mesmo, naquela tarde, na delegacia, por Alberto Augusto, um simples escrivão de polícia, filho de uma dona de casa fanática pelas fotonovelas que vendiam em bancas de jornais na década de 70, das quais tirou aquele patético nome composto para pôr no filho. Ao lado da dona denunciante, um adolescente em quem Alberto Agusto não se deteve logo de início.

“A sua resposta sobre mitocôndria também poderia ter sido bem melhor, Alberto”, e sua falsa advertência tinha voz de cama, de lençóis revirados, travesseiros jogados. “A função está certíssima na sua resposta, mas você deixou de fora a definição: são organelas de células eucarióticas, Alberto, e eu tenho certeza de que você sabe isso”. Neuza garantiu com uma certeza de que Alberto Augusto também sabia de outras coisas bem além das células eucarióticas. Deslizou a ponta dos dois dedos pelo braço do garoto de dezesseis anos, treze a menos do que ela, e que não sabia se enlouquecia, com o volume já lhe esticando as calças, ou fingia que nada estava acontecendo.

“Pois bem, escrivão. Esse rapaz aqui ao meu lado, Márcio Marcelo, meu filho único, um menino de apenas dezessete anos, foi abusado sexualmente”. Foi aí que a memória de Alberto Augusto pegou de volta o novelo do tempo, mesmo que ainda não soubesse se o alvo da denúncia da dona era homem ou mulher. Pela sua experiência de policial, nesses casos, geralmente era um homem.

“A mitocôndria dela deve ser uma delícia, apertadinha”. “Será que é cabeluda ou raspadinha?”. “Ah, eu despejava meu ácido ribonucleico todo na mitocôndria dela”. E os moleques do segundo ano, sala de Alberto Augusto, conversavam no recreio depois de uma aula de Neuza, sempre de calça branca de lycra e marca de calcinha sob o tecido, fazendo com que os guris subissem pelas paredes e chegassem ao teto.

Alberto Augusto, então, sacou o moleque. Alto, barba rala, ainda resquício da puberdade, camiseta de herói de história em quadrinho, piercing na sobrancelha e aqueles alargadores que deixarão para o resto da vida um buraco no lóbulo da orelha. Tinha uma cara mole, meio pateta, pinta de quem fumou uma tora antes de estar ali. Talvez por isso desviasse os olhos de Alberto Augusto, passando a impressão de que achava uma tremenda babaquice toda aquela cena da mãe-oncinha, que certamente o trouxe pela orelha até ali, sob ameaças de corte de mesada e suspensão de celular.

O escrivão perguntou à dona quem, afinal, abusara de seu pequeno. Claro que não disse pequeno, usou outro termo, apenas pensou na palavra. E para fugir à regra, não era um homem. “É uma safada, vagabunda chamada Mirtes, cujo salário vem da mensalidade cara que pagamos, e em vez de ensinar biologia, fica abusando dos nossos meninos”. Alberto Augusto perguntou novamente o que mesmo a tal Mirtes lecionava, apenas para se certificar de que havia escutado certo. “Biologia”, a dona cravou. Divertindo-se por dentro, deliciando-se com suas memórias, Alberto Augusto, escrivão de polícia, quase disse que havia histórico desses casos na disciplina.

Os olhos de Neuza se aprofundavam nos dele mais e mais a cada instante, a cada observação que fazia sobre as repostas incompletas de Alberto Augusto, e antes de lançar para o aluno sua cartada, virou-se para trás, para ver se ninguém havia entrado na sala. Continuavam sozinhos.

“Você poderia ir lá em casa hoje à tarde, hoje não dou aula. Esclareço suas dúvidas e te ensino o que você não sabe... principalmente o que você não sabe”, e havia em seu sorriso uma devassidão até então desconhecida por Alberto Augusto em uma mulher. O aluno, futuro escrivão de polícia, não acreditava, mas sua professora de biologia, tara de noventa e cinco por cento dos moleques do colégio, estava com a atividade celular em brasas para cima dele.

“Aquela puta disfarçada de professora disse que as notas da minha doçura estavam baixas e poderiam melhorar...”. Alberto Augusto interrompeu a dona e pediu que ela moderasse o linguajar, pois aquele termo não entraria no boletim de ocorrência. Ela assentiu levemente, mas com empáfia, e sequer pediu desculpas. Retomou a queixa, quase em tom de escândalo. “Inventou uma história de que haveria um grupo de estudos, de outros alunos do colégio, que se reuniria na casa dela à tarde. Quando meu chuchu chegou, só havia ele, estava sozinha, a vagabunda”. Agitada, a denunciante afetada tentava controlar a respiração. “Minha senhora, por favor, os termos”. A dona assentiu novamente, e novamente sem se desculpar. Do outro lado do guichê, a imagem de Neuza inundava a memória de Alberto Augusto, quase ao ponto de se tornar um corpo presente naquela sala. A exceção do grupo de estudos, o caso era bem semelhante ao que vivera na adolescência, mudando-se apenas o tempo e a cidade. Sem travas e pausas, a dona contou em detalhes tudo o que se passara com seu pimpolho, tudo o que Alberto Augusto, escrivão de polícia, conhecera mais ou menos na idade em que regulava o moleque.

Neuza pediu que ele pusesse sobre a mesa da sala o caderno e o livro de biologia, de capa verde com uma célula desenhada. Durante uns vinte minutos explicou aquilo tudo que Alberto Augusto mal ou bem já sabia e que lhe garantia nota suficiente para passar de ano. Quando aceitou ir à casa da professora, sabia que de biologia não aprenderia mais nada. E foi exatamente por isso que aceitou.

Como que a dona sabia de tudo que a professora fizera com seu bebê? Alberto Augusto se perguntava ouvindo e digitando os detalhes deliciosos do depoimento. Certamente o rapaz contara, e certamente havia sido pressionado a contar. Mas teria sido espontânea sua confissão? A Alberto Augusto parecia que não, que o assunto chegara por outras vias à madame indignada com a violência sofrida por seu fofusco.

“Espere aqui, Alberto, que vou lá dentro e já volto”, e ela se levantou da cadeira ao lado da sua, à mesa de jantar, posição que a permitia tocar o rapaz de quando em quando, a cada tópico da matéria explicado. Alberto Augusto ficou ali, esperando, com a ansiedade sentada em seu colo, pesando em suas pernas, em seu sexo que se aprontava para a guerra. Lá fora, a tarde nublada de uma quinta-feira passava no silêncio daquela vila no Meier.

Não foi apenas o tutuco da madame quem serviu de presa para a professora. Outros moleques da escola também caíram em suas maravilhosas garras sexo-pedagógicas. A denunciada, a tal da Mirtes, era mais caçadora do que Neuza, pois, pelo que Alberto Augusto sabia à época, nenhum outro fedelho além dele havia ido à casa dela ter “aulas particulares”. A sanha pedagógica/sexual da professora do garoto sem graça, sentado à sua frente na delegacia, veio à tona porque um deles, que com ela se deitou – e foi abusado ou maravilhado, a depender da mãe –, para cantar vantagem, contou para um outro aluno, do segundo ano, um menino histérico, com jeito quase afeminado e forte traço andrógino. Ele espalhou para a escola inteira. Com um sorriso vingado, a depoente contou que a professora foi demitida, sem direito à defesa, e levada à fogueira do moralismo superprotetor de madames feito aquela à sua frente. Mamãe oncinha encerrou o depoimento chamando de devassa a tal da Mirtes, mulher que na verdade deve ter dado um banho de cama em seu menino.

Quando Neuza voltou lá de dentro, estava apenas de baby doll e sapatos de salto alto. Se por acaso ainda não houvesse ficado nítida sua intenção, naquele momento não havia como Alberto Augusto pensar que tudo aquilo, até então, não passava de fantasia da sua cabeça.

O garoto trocou a cadeira em que estava sentado pela da mãe, e dessa forma ficou em frente ao escrivão Alberto Augusto. Ela, por sua vez, sentou-se ao lado do filho, e num impulso forte arrastou a cadeira mais para perto do guichê. Era óbvio que queria tomar conta de tudo o que o garoto dissesse.

“Você me prefere vestida assim ou com o jaleco com que dou aula?”, e Neuza tinha nos lábios um maravilhoso sorriso demoníaco. “Não tenho certeza, mas acho que assim é melhor”, e com aquela pergunta, aquela mulher, professora de biologia, inaugurou em Alberto Augusto, futuro escrivão de polícia, o amante sacana que ele seria ao longo de sua vida de solteirão convicto.

“Não foi assim, minha vida, que você contou pra mamãe. Conta direito pro policial, doçura”, e, autoritária, com uma voz irritantemente doce, como se falasse a um retardado, a dona meteu a colher em uma determinada resposta do garoto. Pacientemente, Alberto Augusto precisou adverti-la de que seu depoimento já havia sido tomado, e que agora deixasse que o rapaz contasse o que havia acontecido. “O meu menino está traumatizado, por isso está esquecendo detalhes”, a dona redarguiu com toda a pompa de sua roupa, seus enfeites disfarçados de valor, seu perfume sufocante. Alberto Augusto olhou-a sério, dessa vez calado, mas uma expressão zangada e raivosa conseguiu fazer com que a mulher enfim se calasse. Se aquele jeito de contar a história era de um garoto traumatizado, então os verdadeiros traumas causados pelos verdadeiros abusos sexuais – e tantos passavam por aquela delegacia - seriam casos às portas da loucura.

Neuza puxou suavemente Alberto Augusto pelo braço direito. Divertia-se vendo o short de nylon do moleque esticado na frente, até o limite do tecido. Quando entrou no quarto, Neuza deixou de vez de ser a professora e tornou-se a amante que os garotos do colégio desejavam e imaginavam, um querer que Alberto Augusto, futuro escrivão de polícia, alçou à glória de ter para si entre aquelas cortinas escuras que, fechadas, valorizavam a meia luz do abajur na mesinha de cabeceira e davam ao quarto de Neuza um certo ar de puteiro, que o futuro escrivão de polícia só viria a conhecer um pouco depois. Um perfume de almíscar costurava um ao outro todos os elementos do recinto, formando um inesquecível ambiente de luxúria, descobertas e paixão, perene na memória de Alberto Augusto, futuro escrivão de polícia. O que conheceu naquela tarde perdida no tempo, em uma vila no Méier, foi sua transformação em homem, em macho, e a plataforma dessa mudança foi o corpo moreno de Neuza e sua boca o engolindo em um beijo que era uma espécie de abismo sem gravidade, no qual o sujeito se atira, mas não despenca. Fica apenas flutuando no prazer e no gozo.

O garoto, muito mais constrangido do que tímido ou envergonhado, respondia, na maioria das vezes, com monossílabos às perguntas de Alberto Augusto. Não é que seu depoimento se chocasse ou contradissesse o que a dona havia contado. O problema é que seu relato não tinha qualquer tom de raiva, qualquer vestígio de trauma, qualquer convicção de que fora abusado, conforme a mãe queria fazer com que o escrivão acreditasse. O moleque não parecia crer, nem um pouco, no que dizia ao escrivão para incriminar a professora. Muito pelo contrário: era nítido que escamoteava as delícias do suposto abuso nos detalhes que descrevia, nitidamente para não sofrer retaliação em casa.

Alberto Augusto, futuro escrivão de polícia, agora poderia dizer como era a mitocôndria de Neuza, a professora de biologia. Não era nem muito peluda, ou aranha, como se denominava uma xoxota no mundo depravado dos garotos de dezesseis anos, nem era inteiramente lisa, como a de uma inocente criança. Era na medida certa de pelos, tamanho, cheiro e abertura. Fora a bunda. Sim, a bunda de Neuza era uma célula estupenda, grande, dura, uma maravilha da biologia. E, ao longo da vida, o corpo de Neuza sempre lhe serviu como parâmetro de comparação.

“Você contou para sua mãe?” Alberto quis saber. O garoto disse não, incluindo na queixa um fato ignorado no depoimento da mãe. “Ela ficou sabendo no grupo de mães. Meu nome estava na lista de garotos abusados”. E disse abusados sem qualquer pesar, trauma, dor, tristeza, o que fosse.

Aquela carnal aula particular jamais saiu da boca de Alberto Augusto, futuro escrivão de polícia. Nunca achou correto que um homem espalhasse feito cinza de cigarro no vento a intimidade que tivera com uma mulher. Estudou no colégio até o terceiro ano do segundo grau, teve outras “aulas particulares” com Neuza, mas não contou para os garotos da escola sequer uma vírgula do que havia acontecido, assim como jamais disse algo em casa. Se houvesse contado, o pai, mesmo sem dizer nada, como era do seu feitio, o olharia com o orgulho paterno de macho, pensando “Esse é meu filho”. A mãe, com desdém, não passaria de um “Mas nem as professoras mais se dão ao respeito hoje em dia”.

“Algo mais a acrescentar?” Alberto Augusto, escrivão de polícia, perguntou ao frangote ainda constrangido, meio envergonhado, mas de forma alguma impactado por algum choque, ou se sentindo violentado em sua integridade. O depoimento dele batia com o da mãe, as descrições coincidiam, as narrativas eram praticamente as mesmas. A diferença era o tom: no seu depoimento não havia ressentimento, dor, revolta, indignação e, principalmente, qualquer intenção de incriminar a professora. Claramente ele não acreditava que havia sido abusado, e se houvesse, não se importaria um centímetro com isso. Dessa forma, abanou levemente a cabeça na negativa: não, não havia o que acrescentar. Alberto Augusto perguntou uma última vez, antes de encerrar o depoimento, se o garoto estava absolutamente certo de que havia contado a verdade. No exato instante em que ia responder ao escrivão, o celular da mãe tocou, e ela se levantou da cadeira e se afastou alguns metros, para não atender na frente do policial. Foi então que o garoto, com outro gesto de cabeça, confirmou que estava dizendo a verdade, e, logo em seguida, lançou finalmente para Alberto Augusto, escrivão de polícia, um olhar feliz, alegre e deliciado, a primeira coisa verdadeira no frangote desde que chegara ali, e que era o próprio olhar do policial tantos anos atrás.

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André Giusti nasceu em maio de 1968, na cidade do Rio de Janeiro. Tem onze livros publicados, entre prosa e poesia. O mais recente é seu primeiro romance, Só Vale a Pena se Houve Encanto (Caos e Letras, 2025). Foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2024 com o livro de contos As Filhas Moravam com Ele (Caos e Letras, 2023). Foi finalista do Jabuti com seus livro de estreia, Voando pela Noite, Até de Manhã (7Letras, 2ª edição), em 1997. André Giusti também é jornalista, tendo sido repórter, editor, apresentador, âncora e diretor de redação em empresas como Sistema Globo de Rádio (Rádio CBN) e Grupo Bandeirantes de Comunicação.