Ana Luisa Amaral

Quatro poemas retirados do livro Lumes, ed. Iluminuras, 2021.

DÉCIMA SEXTA EDIÇÃOPOEMA

5/22/20263 min read

COISAS

Dar nome a estas coisas

que só são coisas

porque a pupila assim as reconhece

e as transmite a neurônios repetidos

que as aprendem de cor:

é sempre, e mesmo assim, um reduzido ofício

O mesmo com um rosto,

a sua tessitura em tom pungente ou suave,

a polpa estremecente e estremecendo a rede de neurônios

E tanto o coração

O que sobra depois,

resolvidas que estão as dimensões achadas,

é este não saber coisa nenhuma,

sentir que pouco valem estas sílabas

Que mesmo assim se encostam

aos declives e entalhes mornos,

vivos de células e pequenos veios

onde advérbios se perdem e vacilam

Ou à cor desses olhos,

que a pouco e pouco vou sabendo minha,

e não sei conjugar. Só declinar,

ao inclinar-me nela

Por isso, e mesmo assim,

de nomes falo: porque não sou capaz de melhor forma:

......................

What’s in a name

pergunto: o que há num nome?

De que espessura é feito

se atendido,

que guerras o amparam, paralelas?

Linhagens, chãos servis, raças domadas

por algumas sílabas,

alicerces da história nas leis

que se forjaram a fogo e labareda?

Extirpado o nome, ficará o amor,

ficarás tu e eu — mesmo na morte,

mesmo que em mito só

E mesmo o mito (escuta!),

a nossa história breve

que alguns lerão como matéria inerte,

ficará para o sempre do humano

E outros o hão de sempre recolher,

quando o seu século dele carecer

E, meu amor, força maior de mim,

seremos para eles como a rosa —

Não, como o seu perfume: ingovernado livre

..................

MATAR É FÁCIL

Assassinei (tão fácil) com a unha

um pequeno mosquito

que aterrou sem licença e sem brevê

na folha de papel

Era em tom invisível,

asa sem consistência de visão e fez,

morto na folha, um rasto em quase nada

Mas era um rasto em resto de magia,

pretexto de poema, e ardendo a sua linfa

por um tempo menor que o meu tempo de vida,

não deixava de ser um tempo vivo

Abatido sem lança, nem punhal,

nem substância mortal

(um digno cianeto ou estricnina),

morreu, vítima de unha, e regressou ao pó:

uma curta farinha triturada

Mas há de sustentar,

tal como os seus parentes,

qualquer coisa concreta, será,

daqui a menos de anos

cem de uma substância

igual à que alimenta tíbia de poeta,

o rosto que se amou,

a pasta do papel onde aqui estou,

o mais mínimo ponto imperturbável de cauda de cometa

.........................

ABANDONOS

Deixei um livro num banco de jardim:

um despropósito

Mas não foi por acaso

que lá deixei o livro,

embora o sol estivesse quase a pôr-se,

e o mar que não se via do jardim brilhasse mais

Porque a terra, de fato, era terra interior,

e não havia mar, mas só planície,

e à minha frente: um tempo de sorriso

a desenhar-se em lume,

e o mar que não se via (como dizia atrás)

era um caso tão sério, e ao mesmo tempo

de uma tal leveza, que o livro: só ideia

Essa sim, por acaso, surgida num comboio

e nem sequer foi minha, mas de alguém

que muito gentilmente ma cedeu,

e criticando os tempos, mais tornados que ventos,

pouco livres

E ela surgiu, gratuita, pura ideia,

dizendo que estes tempos exigiam assim:

um livro abandonado num banco de jardim

E assim se fez,

entre o comboio cruzando

este papel impróprio para livro,

e o tempo do sorriso (que aqui, nem de propósito,

existe mesmo, juro, e o lume de que falo mais acima,

o mar que não se vê, nem com mais nada rima,

e o banco de jardim, onde desejo ter deixado o livro,

mas só se avista no poema, e livre, horizontal daqui)

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Ana Luísa Amaral nasceu a 5 de abril de 1956, em Lisboa. Autora de mais de três dezenas de livros, entre poesia, teatro, ficção, infantis e de ensaio, a sua obra está traduzida e publicada em diversos países. Obteve várias distinções e prémios em Portugal e no estrangeiro, como a Medalha da Cidade de Paris, a Medalha de Ouro da Câmara Municipal do Porto, por serviços à Literatura, o Prémio Literário Correntes d’Escritas, o Premio de Poesía Fondazione Roma, o Grande Prémio de Poesia da APE, o Prémio PEN de Ficção, o Prémio Vergílio Ferreira, ou, ainda, o Prémio Rainha Sofia de Poesia Iberoamericana. Traduziu diferentes poetas, como Emily Dickinson, William Shakespeare ou Louise Glück. Foi professora jubilada da Faculdade de Letras do Porto e membro sénior do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa, onde trabalhou nas áreas de poéticas comparadas e estudos feministas. Faleceu a 5 de agosto de 2022.