Ana Lúcia Franco
Poemas selecionados do livro Alguns Castelos e Outros Desfeitos ed. Stella, 2025
9/8/20263 min read


Nossa paisagem
Da janela, a geometria da paisagem
tem o contorno de nossos olhos
profundidade das águas
curso dos rios
repercutem nosso ritmo
o que vemos (mapa do invisível)
nos revela.
***
Hoje
Não repare, amor,
para hoje o deserto
e o tom dourado de trigos
que se movem ao vento
sequer alcanço o ar
em que gravastes
teus gestos
tua voz se perdeu
numa oitava distante
para hoje, amor,
o deserto
onde teu nome não basta:
é mais um nome feito de areia,
tempo e esquecimento.
***
VIII
Tenho medo das mulheres “delicadas”
e seus maridos misóginos e esquisitos
que procuram putas na calada da noite.
Tenho medo das mulheres “mutiladas”
que sufocam suas palavras, seus gestos,
sua feminilidade para atender a ideais.
Tenho medo das mulheres vendadas
que fingem não ver as sombras que
tangem suas virtudes sempre artificiais.
Tenho medo das mulheres manipuladas que guardam suas lobas no armário
e acendem uma vela a deus outra ao diabo.
Tenho medo das mulheres sufocadas
pelo corte das máscaras que carregam
e que choram de sorriso colado no rosto
medo da fúria que cresce no silêncio
de uma vida não autêntica e que,
se não explode, mata lentamente.
***
I
Em tua pele, anoiteço
enquanto a tarde cai
na pele do mundo:
lua refletida em teu lago
de que me vale a noite
se em ti me reinvento
e reinvento a vida
depois de me achar
por hora, tua pele me basta,
lago no qual me fundo
enquanto a tarde, ah,
a tarde invade o mundo.
***
III
Dividiam o sofá
liam à luz do abajur
livros de temática oposta:
ela, culinária,
ele, Paul Austen
ela pensava no jantar
ele pensa em fugir
ela entre o passado e o futuro
ele em cima de um muro em Nova York
ela queria nutrir a família
ele, vender a mobília e pegar
a primeira asa
de cometa que passasse
pela janela esquecida,
aberta no fundo da sala.
Ambos, nem a um metro de distância
no sofá de dois lugares
comprado em duas vezes
no cartão de crédito
e, no meio, o abismo (invisível) insistia.
***
III
Havia pássaros incrustados
e raízes a perder de vista.
Sem perscrutar respostas,
ouvia em concha o silêncio secular
sem compreender desígnios:
cumpriu-se
***
III
Não queimaram vestidos
ou anunciaram virtudes
em praça pública
sabiam: o mais importante
a declinarem
não era visto ou ouvido,
sequer podia ser anunciado
torres reais a caírem não são de tijolos:
despojar-sedamatéria não é nada,
diante da vastidão de sombras feitas
de autoengano.
***
Um homem chamado Sísifo
Sísifo de todos os dias
sonhos noturnos
diluídos pela correria
quimeras drenadas
pelo ralo
onde escorria
a pasta de dente
espelho embaçado
não capturava
marcas impressas
pelo tempo
sulcos na face, lentos,
se inscreviam: tempo
que lhe atravessava
sem ser percebido.
Ele nada ousava,
tampouco passar
pelo tempo:
era o tempo
que lhe transpassava.
Passivo, não tocava
o roteiro de uma vida
que se repetia
nenhuma outra melodia
naquele piano quebrado.
Sob compasso de horas exatas,
relógio não ousava atrasos:
horas previsíveis, sem lapsos
nenhum questionamento,
nenhum barco fantasma.
Havia algum absurdo:
sombra invisível do gato pardo
que lhe cruzava o caminho
ou a serpente
que lhe enrolava os joelhos
sem nunca ser sentida
trilha sonora de sua vida:
tic-tac incapaz de ensurdecer.
O que havia ao final era enigma:
toda morte é enigma.
***
II
A poesia não é de fachada
não é lição ensinada
e nunca aprendida.
A poesia não quer censura
não é metida a vegetariana
a isso ou aquilo.
A poesia é
e não precisa provar nada a ninguém.
É de festa e de silêncio também
além das expressivas planícies eruditas
ou blog criativas:
sorri e sorri, viva e liberta.
***
A viagem
Desta viagem de faca, metal e fogo;
ouro arcano, lado esquerdo do peito.
As mãos obtusas buscam a terra úmida
no movimento de semear, fincar raizes.
Facas mentais não bastam a desbravar
a densa mata que escurece o tempo
de onde emergem os mesmos fantasmas.
Nem o fogo, desperdiçado, abre clareiras.
Mas há um rio que passa de longeva fonte e irriga todo o absurdo; imanta as horas de um maná atemporal que concilia, afaga.
E a dor se suporta, nesta plaga onde tudo se cria e recria ao sabor da sorte. Pouco se pode ou a vontade que não se sabe acesa.
***
I
Castelos segredam arcanos
sina da dissolução
soberba vira pó
estrutura vira canção
partitura de vento
esquecimento e só.
II
De um amor que se colhe
delicadamente
das fissuras, do pó,
rastro do que se dissolveu
implodiu
rompeu, diluiu
itinerário do mundo:
movimento
de pecado e perdão
castelo e dissolução.
****
Ana Lúcia Franco edita a revista stella. Poeta, tem quatro livros publicados: versinho lilás, Esbath, Alguns Castelos e Outros Desfeitos e Lili e o Jabuti.